Terrorismo: qual é a lógica por trás dos atentados? A ideologia do ISIS

Frente a bizarrice grotesca do atentado terrorista em Nice feito onde foi utilizado um caminhão, pessoas se inconformam e se questionam sobre a lógica por trás disso. O acúmulo de atentados e a percepção de que a França tem sido vítima de vários*  fortalece esses questionamentos. As Olimpíadas também intensificam a ansiedade e colocam terrorismo na boca do povo.

Outro dia um colega falava intrigado da pessoa que foi presa aparentemente querendo colocar uma bomba num aeroporto em Brasília. Ele se perguntava: mas por que um aeroporto e não um prédio do governo?!

*(como se ela fosse especial, ignorando a situação de outros países, especialmente do Oriente Médio, como o Iraque empesteado por atentados terroristas do ISIS além dos exércitos desse grupo que ameaçam a própria existência do país). 

Eu mesmo coloquei certas aflições numa rede social:

Me dá um pouco de raiva (….) os caras não param. A ideia é como numa campanha guerrilheira tirar resultados politicos obrigando o inimigo a se militarizar, levantar mais a guarda…. e como, realmente, evitar isso? É ataque atrás de ataque e começo a desconfiar do discurso de “se manter firme”. Acontece que é mais fácil atacar a França do que os EUA.

Existe um discurso predominante de que os terroristas querem destruir a liberdade e que por isso é preciso ser forte, não ceder, não passar leis malucas ou jogar o exército na rua. Eu mesmo, no entanto, cedo terreno psicológico para o terrorismo e acabo duvidando: será que isso é possível? Vejamos, além da distância geográfica, os Estados Unidos são um país com mais controle e menos liberdade do que a França (isso é um fato independente de argumentos sobre a presença de determinadas comunidades com certas fragilidades no seio da França).  Ou seja, mesmo eu que reconheço que é necessário conservar a firmeza moral e o terreno psicológico frente ao terror, também enxergo a França caindo num abismo, até porque lá inexiste liderança ou um espírito político nacional realmente preparado para enfrentar o terrorismo. A França vai ter que se acostumar? Um amigo respondeu:

Do ponto de vista estratégico é realmente dificil dizer que os imigrantes vão ganhar algum beneficio, mas o ponto nunca foi esse.

Talvez o poder do terror aí seja o fato de ser algo “trivial”. Descobriram uma maneira de matar tanto quanto uma bomba, mas com muito menos dinheiro investido.

Eu queria entender se, sendo um feito de um grupo terrorista, há algum objetivo claro de longo prazo. Porque, convenhamos, uma campanha dessas vai recrudescer a opinião pública contra imigrantes, ainda que o governo vá tentar capitalizar pro intervencionismo.

E bem, o resultado não vai ser muito bom a longo prazo para os envolvidos. Ou a esperança deles é outra? Que choque após choque o Estado francês vai simplesmente entrar em colapso e deixar de existir?

Essa é a magia do terror. Ficamos aqui especulando e se bobear os caras estão lá praticando terror pelo terror (o que é a essência real do terrorismo, para além de toda razão, cálculo e avaliação).

Uma intervenção justa e interessante, mas devo colocar ressalva para que não nos enganemos. É possível sim entender a lógica destes terroristas islamistas, essa lógica existe.

Para entendermos a lógica desses terroristas nós precisamos recuar para as concepções que fundaram a Al Qaeda, as ideias que nortearam o grupo de Al Zarqawai no Iraque (conhecido como “Al Qaeda no Iraque”), grupo que viria a ser o atual ISIS e cujas ideias também devemos fazer uma breve visita.

Osama Bin Laden formulou uma estratégia para levantar o mundo muçulmano e enfrentar aquilo que percebia como sua crise e seus problemas. Essa estratégia consista em aumentar a tensão com os Estados Unidos através de atentados terrorista visando uma intervenção militar direta da potência. O objetivo foi cumprido especialmente no Afeganistão e no Iraque. A intervenção militar, na visão de Bin Laden, implicaria em

a) Uma maior união, solidariedade e senso de identidade dentro do mundo muçulmano. Hostilidade contra os “cruzados”, os “infiéis”, os Estados Unidos e seus aliados, incluindo aliados regionais, “as tiranias apóstatas”.

b) Os Estados Unidos gastariam uma grande massa de recursos financeiros e humanos, bem como energia política, tendo que lutar uma guerra e eventualmente mais de uma guerra. Na guerra estão obrigado a se engajar em combates diretos, Seriam desgastados politicamente com a perda de vidas americanas e encontrariam a ruína econômica por causa da guerra. Bin Laden gostava de aludir ao exemplo da União Soviética no Afeganistão, dizendo que a derrota da intervenção ali foi a liquidação daquela federação de países.

Bin Laden fez uma versão reacionária, islamista e terrorista de uma estratégia já concebida por Che Guevara, a de criar “vários Vietnãs”, situação em que o imperialismo deveria lutar em várias frentes ao mesmo tempo, contra diversos focos de resistência, o que o levaria a ruína (e esta estratégia tricontinental é o verdadeiro “foquismo”, pelo menos o foquismo guevarista, não as reflexões de Régis Debray).

O terrorismo islamista também bebe de outras fontes, ao lado das ideias de Bin Laden surgiram outras. O jordaniano Al Zarqawi fez da sua prática na liderança da Al Qaeda no Iraque (AQI, uma organização específica) um grande ensinamento para o terrorismo islamista. AQI tinha uma predileção especial pela filmagem e edição de decapitações – cortar cabeças virou uma forma muito especial de fazer política, espalhar propaganda e disseminar o terror. Al Zarqawi começa ir muito além do convencional na sua preocupação estética com a brutalidade. Esses recursos eram elementos táticos dentro de uma estratégia que não tinha precedente e não contava com a aprovação de Bin Laden: a estratégia da ruptura sectária com os xiitas. Al Zarqawi defendia e praticava o uso de bombas em bairros e templos xiitas, assassinatos chocantes, de preferência com decapitação; o que causasse a divisão entre sunitas e xiitas era considerado bom, não só porque consideravam os xiitas hereges (e isso Bin Laden também achava), mas porque fazia uma consideração realmente estratégica. A ideia era justamente que houvessem retaliações, esquadrões da morte xiitas, divisão sectária, para que assim os sunitas tivessem que se recompor como comunidade, se unificar e se entender como sunitas, ir para guerra como sunitas, tornar-se-iam sectários. Através disso Al Zarqawai pretendia estimular o ódio dos xiitas, o ódio contra os xiitas e sabotar um projeto de “Iraque nacional” concorrente com sua visão sectária sunita. Uma guerra entre correntes do Islã seria muito má para o Estado iraquiano, para o nacionalismo iraquiano, para a unidade iraquiana, mas seria muito boa para um grupo como a AQI. Uma consecução bem sucedida dessa estratégia demanda o uso espetacular da violência, com forte ênfase na sua divulgação, pois é preciso maximizar a tensão comunitária, é preciso explodir os lugares sagrados dos xiitas, deixar bem claro que eles são mortos porque são xiitas, de preferência das formas mais chocantes, cruas, brutais e se possível mulheres e crianças.

O ISIS, ou “Estado Islâmico”, por sua vez continuou aplicando essa estratégia (com consequências nefastas para milhares de vidas xiitas ceifadas brutalmente pelo grupo), prestando mais atenção ainda na estética e na propaganda da violência. No momento atual o grupo adquiriu uma prática e um ethos ainda mais violentos, ainda mais disposto a ações brutais, aparentemente sem sentido, quase sempre estetizadas para fins de propaganda. Chegamos numa forma sangrenta, grotesca e cinematográfica de terrorismo.

Um dos faróis ideológicos por trás disso é uma obra obscura que surgiu em um blog no ano de 2004, assinado pelo desconhecido Abu Bakr Naji, com o nome de “A Administração da Selvageria: O Estágio Mais Perigoso pelo qual a Comunidade Muçulmana irá passar”. A obra gerou grandes discussões e se tornou referência para muitos terroristas, conquistando um lugar de relevância. Nela o autor defende o máximo de violência e selvageria para acelerar e promover a destruição do sistema, gerando um racha entre os verdadeiros muçulmanos e os infiéis. Ainda faz críticas aos movimentos muçulmanos existentes, tanto por ideologia como por método (um degenera no nacionalismo, outro é quietista e covarde, outro é presa fácil, etc), defendendo uma forma de “anarquismo jihadista ultra-violento”, que prefere células isoladas de grandes organizações conduzindo ações próprias ou melhor ainda a ação de lobos solitários. “Administração da Selvageria” pretende ser a obra de referência do “terrorismo pós Al Qaeda”, do terrorismo que penetra mais fundo na fragmentação pós-moderna e responde de forma mais radical e caótica ao grande aparato internacional de repressão que se erigia na “Guerra contra o Terror”(War on Terror).

Vejam as seguintes citações:

“…os níveis mais abomináveis de selvageria ainda são menos do que a estabilidade sob a ordem da descrença em vários graus.”

“Se nós tivermos sucesso na administração dessa selvageria, esse estágio (com permissão de Deus) será a ponte para o Estado islâmico que vem sendo esperado desde a queda do califado. Se nós falharmos nós buscamos refúgio em Deus e isso não significa o fim do assunto: pelo contrário, esse fracasso vai trazer um aumento na selvageria!”

O autor então postula que para um bom muçulmano não resta outra coisa senão aspirar e promover a total desintegração dos sistemas atuais (internacional e de seus respectivos países) pois eles são dominados pela descrença, merecendo somente a destruição, só esta capaz de construir uma ponte para uma restauração islâmica. É importante salientar também que selvageria não é tida somente como um método, mas como um estado das coisas pelo qual sociedades diversas passam em diferentes momentos da história, um estado de anarquia e injustiça.  Neste caso a selvageria iniciou já com a queda do califado otomano no começo do século passado, o que é um trauma de religiosos sunitas que serve de grande motivação para os militantes religiosos até hoje (a queda do califado foi uma perda religiosa, política, moral, civilizacional, foi cair em desgraça, perder a glória, etc). A selvageria se intensificou com as ditaduras nacionalistas “descrentes” e mais ainda com a ocupação militar norte-americana. O livro quer dizer para o leitor:

“Está vendo o que acontece no Iraque? Vê o que os americanos fazem lá, os males que o povo crente passa? Está vendo as desgraças de um governo de xiitas? Viu que fulano foi morto por um soldado? Não há lei, não há justiça, há a selvageria e nós, sunitas, bons muçulmanos, devemos administrar essa selvageria a nosso favor.”

Não basta ser religioso purista, é preciso destruir, tomar parte na administração da selvageria.  ”Esses daqui que querem se isolar e ter uma prática perfeita, eles são brinquedos da injustiça, dos tiranos, os tiranos e os infieis continuam dominando enquanto eles são puros”, já “aqueles ali que tem um pensamento mais politico e são reformistas, eles se comprometem demais em nome do objetivo, se sujam demais”, ai a conclusão é que antes de tudo é necessário demolir a coisa toda, destruir.

O que o ISIS faz com maestria é administrar a selvageria, querem ser os mais selvagens, mais violentos, mais temidos. E atentem vocês o poder que um blog de Internet pode ter nos dias de hoje, uma ideia de 2004 que seria essencial num dos fenômenos mais debatidos, temidos e combatidos no ano de 2015 (não subestimem as ideias e as ferramentas que as veiculam).

Nunca se tratou de preocupação com a segurança de muçulmanos nativos ou imigrantes na França, nem de uma esperança de simplesmente derrubar o Estado francês com base em ações terroristas. Esqueçam a guerrilha clássica ou mesmo o velho terrorismo. Não é suma aplicação simplista do básico princípio de guerrilha de faça o Estado se militarizar para que sua contradição com o povo se amplie e se torne um antagonismo; o princípio está presente mas de forma muito mais complexa e refinada. Ações terroristas podem e devem ampliar a perseguição contra os muçulmanos na França, e os terroristas não acham isso ruim. A perseguição contra os muçulmanos na França vai aproximar essa comunidade religiosa de posições mais radicais e vai polarizar toda a comunidade muçulmana mundial contra o ocidente, o jihadismo em geral e o ISIS em específico podem se fortalecer.

Essas coisas se reproduzem. Eles não querem muçulmanos liberais, não querem muçulmanos que sejam bons patriotas franceses, defensores da constituição, querem muçulmanos que morrem dirigindo um caminhão contra multidões. Se amanhã surgirem retaliações terroristas contra muçulmanos, tanto melhor na visão deles. Não só surgem novos terroristas, como muito provavelmente muitos voluntários que se dirigirão para a Síria.

Alguns mais atentos devem ter pensado que há um componente apocalíptico nessas ideias de selvageria, e de fato há. O pensamento apocalíptico na verdade transcende essa obra e é outro pilar fundamental do terrorismo na atualidade, principalmente do ISIS. A Al Qaeda não compartilha do fundamentalismo apocaliptico do ISIS, inclusive rejeita em tons intelectuais o que seria a vulgaridade teológica do filho renegado e agora rival jurado – ainda assim apologistas do ISIS parecem ter um bom repertório teológico para defender suas posições (repertório capaz de atropelar qualquer defesa desavisada de uma versão liberal do Islã; se você for debater com os apologistas, inclusive os ideólogos de segunda que povoam a Internet, prepara-se para lidar com um torrente de conhecimento religioso e jurídico – esse tipo de coisa dá força ideológica para os terroristas defenderem suas posições no mundo muçulmano e converterem pessoas para sua causa). O ISIS realmente divulga que o fim está próximo e que eles estão trabalhando para isso, se justificam com base nisso e que a batalha final está muito próxima, quando “todos os exércitos de cruzados e infiéis se reuniram contra nós”. Existe uma lógica meta-política: mais morte, mais perseguição e mais terrorismo são coisas boas porque mais muçulmanos aderem ao caminho correto e mais muçulmanos são salvos e elevados por seu martírio. Dentro dessa lógica é importante acrescentar que o Califado não tem fronteiras e tem direito a se espalhar pelo mundo todo, além de todo muçulmano ter obrigação de jurar lealdade ao califa ou do contrário está fora da fé. Todo o resto está errado, é ilegal, é injusto, é selvageria. Diferente de outros movimentos, o ISIS não aspira a reconhecimento político e territorial.

Não importa se a liderança do Estado Islâmico é oportunista ou eventualmente vai fazer cálculos políticos para manter algum território (melhor do que nada!), porque a ideologia apocaliptica vai inspirar pessoas no mundo todo, vai fazer com que um individuo isolado dirija um caminhão contra uma multidão no Dia da Bastilha e tudo isso vai ser bom para o ISIS. O ISIS não pode se tornar um movimento guerrilheiro perdido em alguma montanha, isso seria sua falência, ele depende dessa lógica de velocidade, adrenalina e ultra-violência.

Esse é o panorama geral partindo da lógica dos terroristas. Estrategicamente, porém, não é possível definir de uma forma linear unilateral quem é que ganha com isso – a realidade é muito maleável e vários lados podem ganhar, o que não necessariamente resulta na previsão dos terroristas ou em algo benéfico para eles. Na década passada, parecia que a Al Qaeda trabalhava para os Estados Unidos, com o “Novo Século Americano”, leis de Estado policial, intervenções unilaterais no mundo todo, “guerra contra o terrorismo”, o re-estabelecimento de um grande aparato militar imperial, muito claro e vistoso no Oriente Médio porém presente no mundo todo. Na nossa década, porém, mais parece que são os Estados Unidos que trabalham para Al Qaeda, com o grupo e suas franquias se beneficiando das políticas dos EUA no pós Primavera Árabe*. A realidade sempre foi maleável, mas hoje ela parece mais maleável e acelerada do que nunca, cabe a nós se acostumar.

*Isso acontece por causa de considerações próprias da estratégia dos EUA, claro. Na Síria, por exemplo, seu namoro inicial e sua atitude ambígua em relação aos aliados da Al Qaeda acontecem em função de uma estratégia que tem por prioridade outras coisas que não combater a Al Qaeda, como derrubar o governo de Bashar al-Assad. A destruição da Líbia, por sua vez, não só beneficiou milicias internas ligadas a AQ como melhorou a situação geral do terrorismo na região no que concerne o fluxo de armas. A “aliança vergonhosa” também acontece devido a prioridade geopolítica da política norte-americana de isolar e atacar a República Islâmica do Irã. Israel também merece uma menção honrosa por se preocupar muito mais com o Irã e com o Hezbollah, que são xiitas, do que a Al Qaeda que combate esses dois inimigos; um ex membro e analista da inteligência israelense chegou a comentar de forma bem pragmática sobre o apoio dos israelenses a rebeldes na Síria, “a Al Qaeda nunca nos atacou”. 

FONTES

Administração da Selvageria em inglês: https://azelin.files.wordpress.com/2010/08/abu-bakr-naji-the-management-of-savagery-the-most-critical-stage-through-which-the-umma-will-pass.pdf (último acesso em 21/07/2016)

“What ISIS Really Wants” http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2015/03/what-isis-really-wants/384980/ (o melhor texto aqui) /(último acesso em 21/07/2016)

“Ideology of Islamic State” http://www.brookings.edu/research/papers/2015/03/ideology-of-islamic-state (último acesso em 21/07/2016)

“Sectarianism of Islamic State: Ideologica Roots and Political Context” http://carnegieendowment.org/2016/06/13/sectarianism-of-islamic-state-ideological-roots-and-political-context-pub-63746 (último acesso em 21/07/2016)

“Ideology of Islamic State” http://www.brookings.edu/~/media/research/files/papers/2015/03/ideology-of-islamic-state-bunzel/the-ideology-of-the-islamic-state.pdf (último acesso em 21/07/2016)

“ISIS Ideology and vision and their implementation” http://www.crethiplethi.com/isis-s-ideology-and-vision-and-their-implementation/islamic-countries/syria-islamic-countries/2015/

“The Mind of the Islamic State: An ideology of savagery” https://www.themonthly.com.au/issue/2016/june/1464703200/robert-manne/mind-islamic-state (este também é bem interessante) / (último acesso em 21/07/2016)

“The link between Muslim Brotherhood and ISIS” http://www.voltairenet.org/article191278.html

Osama Bin Laden“ por Michael Scheuer, Oxford University Press, 2011. Bom para conhecer a trajetória e as ideias de Bin Laden.

“Estado Islâmico: Desvendando o exército do terror” de Michael Weiss e Hassan Hassan, Editora Seoman, 2015. É uma introdução ok, com um estilo jornalistico de fácil leitura e em português, uns componentes interessantes de entrevistas, porém é o discurso oficial americano-britânico. O livro recorre muito a notícias questionáveis dentro desse discurso que culpam até Saddam e a República Islâmica do Irã. Dedica uma parte considerável a AQI. Hassan Hassan é um dos porta-vozes ideológicos desse discurso. Todos os links que postei acima te oferecem uma compreensão melhor do que a leitura deste livro.

“A fênix islamista: O Estado Islâmico e a reconfiguração do Oriente Médio”, de Loretta Napoleoni, Editora Bertrand, 2015. Gostei mais do que o livro de Weiss e Hassan, mesmo com menos páginas considero que de certa forma conta melhor a ascensão do grupo já como ISIS (sua relação com as tribos, por exemplo) e trás reflexões mais profundas. A autora, no entanto, paga pedágio para o discurso oficial e chega ao ridículo de se perguntar “oh mas como os EUA saberiam que as armas caíram nas mãos do Estado Islãmico, oh como eles não perceberam que essa estratégia de armar grupos marginais na Síria era armar o ISIS, oh como não viram isso?”. Pelo menos essa auto-flagelação que soa um pouco hipócrita é mais crítica do que o discurso oficial que quer culpar Assad por tudo e que se alia com a “Revolução Síria” intocável e irresponsável frente os islamistas – o intervencionismo é cobrado pela suas consequências, mesmo que indiretamente. Não sei o que dizer da edição em português pois li em inglês, a capa sem dúvida é chamativa.

“A Origem do Estado Islâmico: O Fracasso da ‘Guerra ao Terror’  e ascensão jihadista” de Patrick Cockburn, Editora Autonomia Literária, 2015. Situa de forma interessante a questão do sectarismo e da ideologia, no próprio título original que fala em “Revolução Sunita”.  Em geral já gostei mais do que o livro de Weiss e Hassan, até por ser mais crítico e colocar de forma mais nevrálgica a influência do intervencionismo na criação do ISIS. Cockburn é um grande jornalista e traça bem o panorama iraquiano, assim como o geopolítico. Também possui estilo fácil e envolvente, jornalistico.

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Você é a favor do impedimento?

Por André Ortega

Você é a favor do impedimento?

Não. Por que eu deveria ser?  Falando não do ponto de vista individual, mas como patriota, cidadão, pessoa comum: o que eu ganho com isso? Nem a nação e nem o trabalhador tem algo a ganhar com isso.

Pelo contrário, ao que tudo indica vai piorar. Tudo de ruim que o PT já faz contra a nação (entreguismo pra dizer o mínimo) e contra o trabalhador (austeridade pra dizer o mínimo) a chapa Temer-Cunha, a chapa que vai assumir o poder se a Dilma cair, vai fazer mais e pior. Não vão mudar nada nesse aspecto, ou melhor dizendo, vão piorar. O seu entreguismo e sua antipatia pelos direitos do trabalhador já é declarada, mais aberta ainda em José Serra, reconhecidamente um dos articuladores do processo. O que não veremos do mesmo, veremos do pior. Não há realmente nem uma preocupação nacional ou com o trabalhador da parte deles.

Eu ataco o governo e o condeno veementemente por entregar o nosso petróleo. A chapa Temer-Cunha se preocupa com o petróleo? Não, nem um pouco, estão ligados com o maior entreguista de todos que é José Serra, autor de uma lei que quer disponibilizar a totalidade do nosso Pré-Sal para estrangeiras.

Se não beneficia a nada de bom, não tem porque apoiar, isso é outro movimento, que representa outras forças e outros projetos que eu condeno.

Mas vai tirar esse governo corrupto do poder.

Grande parte das acusações de corrupção não passam de acusações vazias de mesa de bar e a maioria das pessoas que falam nisso estão nesse nível. Supondo que de alguma forma Dilma prejudique o país estando ali, como se sugasse, nada disso mudaria com a nova chapa no poder. Isso não muda também porque o sistema não muda. Temos que avaliar bem como funciona a corrupção e não vai ser Cunha-Temer que vão abalar as estruturas de poder.

O PT não é especial, não é uma organização criminosa e não é o partido mais corrupto da atualidade ou da nossa história. Isso é pura mitologia, mitologia com base em mentiras e enganações. Outros partidos como o PP e o PMDB costumam abrigar muito mais corruptos, pra não falar de toda corrupção que assola nosso sistema de cima à baixo. Eu digo “abrigar” porque dificilmente eu caíra na ignorância de tratar a instituição toda como feita para a corrupção (é o que fazem com o PT).

Se o problema é corrupção, esse processo de impeachment é uma farsa, um circo, uma fraude, desprovido de legitimidade ou confiança. É um processo moralizador conduzindo por um bandido do naipe de Eduardo Cunha e onde votam e se mobilizam pelo impeachment notáveis corruptos, grandes desonestos, fisiologistas, mutrequeiros, ratos de conchavo. Fica exposto também que o processo  está sendo conduzido no sentido dos corruptos salvarem a própria pele e deterem o descontrole do lava-jato, retomarem as rédeas da situação política, com o exemplo maior na figura do próprio Eduardo Cunha, um réu conduzindo um processo contra um presidente. Uma equipe de oligarcas e corruptos não só votou “SIM”, não só se prestam a beijar as mão de Cunha em salas fechas, como ainda por cima o ovacionam em público quando julgam necessário. É um espetáculo de falta de vergonha na cara, bem exemplificado pelo fato do prefeito de Montes Claros ter ganhado uma homenagem ontem na hora do “SIM” pra ser preso hoje mesmo pela manhã.

Isso é ridículo. Um impeachment conduzido por Cunha e de fraca base legal carece de legitimidade. Não somos um país parlamentarista, essa excrecência que é o ideal dos plutocratas do congresso, somos um país presidencialista. Essa carência dá um nome diferente para esse impedimento: golpe. É um golpe parlamentar.

Alguns que dizem que “se fosse o contrário, fosse com o Aecio, ai seriam a favor!”, por favor, tragam essas provocações estúpidas para o mundo real e veja o que sobra. Aécio ia ser impedido por esse congresso com essas motivações? O que nós temos é um congresso extremamente conservador, antipovo e antinação. São coisas diferentes, não adianta apelar para o fato do congresso ter sido eleito, porque isso é algo que diz respeito ao presidencialismo…. o cargo de presidente é mais popular, é plebiscitário e não essa piada que é a corrida eleitoral para o parlamento, essa distorção plutocrática que coloca em risco a própria estabilidade e viabilidade institucional.

Enquanto os que diziam “NÂO” falavam coisas razoáveis sobre democracia e legalidade, sobre o que era pertinente ao processo, o grosso dos que diziam “SIM” falavam de suas famílias, fazem tudo pela família, não é a toa que são mafiosos feito Eduardo Cunha – a primeira coisa que os corruptos usam pra se justificar é “familia em primeiro lugar”. Apelaram para Deus, para a religião, para a hipocrisia e o cinismo de corruptos que querem falar contra a corrupção abraçando o gangster Eduado Cunha. Quando muito, apelavam para o eleitorado, o que também é uma noção particularista, além de hipócrita, já que esse eleitorado não participou dos jantares com Cunha-Temer e não será beneficiado pelas falcatruas. Teoricamente a autonomia do mandato representativo serve pra evitar isso, mas esses senhores que pintam o cabelo não tem fibra moral e não querem perder a boquinha de jeito nenhum – eis um grande vício da democracia, existe uma lógica de mercado nesse mundo, mas não só um mercado eleitoral, já que os jantares Cunha-Temer também são práticas baixas e mercantis.

Esses acontecimentos mostram a verdadeira face da velha política e dos velhos políticos, essa minoria de vendilhões oligarcas. Nós temos é que atacar e superar, varrer da política esses velhos políticos, e são esses velhos políticos, oligarcas, conservadores, corruptos que fazem da política uma grande sujeira, são esses que conduzem o impedimento, então não vejo sentido algum nisso. Não é possível não enxergar um golpe desprovido de legitimidade, vindo de toda essa sujeira, de políticos conservadores e corruptos do congresso, é claro que se trata de um processo sem legitimidade alguma. Essa é a face política desse movimento (e mesmo que fosse contra o Aécio) e não vejo sentido em apoia-lo, pois é um movimento desses políticos conservadores e corruptos, é um movimento que não tem boas pautas e não vai trazer nada de bom.

Não se trata de defender o governo Dilma, mas de perceber que nada de bom sairá desse processo. Não existe nenhum procedimento criminal contra a presidente, existe sim contra os principais condutores do impeachment e vários de seus defensores, inclusive muitos deles condenados. Não é a toa que constantemente recorrem a argumentos que serviriam numa corrida eleitoral mas não no processo de destituição, como lamúrias sobre a situação da economia.

E me perguntam: mas e a economia?! A condução dela é em primeiro lugar assunto da Presidente, não do parlamento. Isso não é pauta de impedimento e Temer não é o salvador da economia, e ele, cínico, sabe muito bem disso e já faz discursos que tentam conciliar essa realidade com as expectativas ingênuas de muitos. Esta crise não é a crise do PT, é a crise internacional, uma crise que neste momento se abate sobre o mundo todo. O nome disso é capitalismo, são as limitações do nosso sistema capitalista atual. O remédio amargo do governo, o remédio amargo da austeridade, vai ser mais amargo ainda com a chapa que será alçada ao poder por esse movimento. É a chapa que faz os comentaristas da Globo News babar dizendo que “precisamos de um governo que tome medidas impopulares” (como a reforma da previdência), e o que melhor para isso do que uma junta golpista? Esses mesmos vão passar a falar da “sanitização da economia”, cantar loas que serão repetidas por papagaios idiotas pelo país, “ah olha só o país tá uma merda mas a economia está melhor”.

Esse é um movimento das forças mais reacionárias e plutocráticas do nosso país, dos senhores que tratam política como negócio, que tem a cabeça semi-feudal, não querem o país industrializado porque isso afeta seus senhores do agronegócio, velhos oligarcas para quem não importa o nível de oportunismo do PT, pra eles os petistas são aliens, não são oligarcas feitos eles, “tudo boa gente”.  É um movimento pela restauração conservadora, que quer destruir toda e qualquer traço de nacional e popular que exista na nossa vida pública. Não temos uma revolução no Brasil, mas vem a contrarrevolução neoliberal e conservadora, os fundamentalistas da “sanidade fiscal”, os que falsos profetas que se arrogam o título de paladinos de Deus, os jagunços de terno  e as viúvas do militarismo. É uma ofensiva perigosa e aventureira para tomar a presidência de assalto, eles querem pintar e bordar à revelia do povo e sobre os olhos brilhantes de seus senhores estrangeiros. Eles se dizem contra o desemprego mas acreditam em “desemprego estrutural para combater a inflação”, a solução pra eles é arrochar salários, cortar direitos, cortar programas sociais e entregar de forma definitiva as nossas riquezas nacionais. Muitos deles não querem poupar sequer o nosso Banco Central, dizem conceder a ele mais “autonomia”, autonomia que nesse caso é sinônimo de dependência do capitalismo nacional. Querem que a carteira assinada vá para o inferno, não querem o re-ajuste de pensões de aposentadoria e sonham em congelar o salário mínimo. Eles opõem que o BNDES cumpra sua função de banco do desenvolvimento nacional, querem fundamentar uma destituição com base no uso de fundos pelo governo para fins de programas sociais (!!!), querem austeridade mais profunda, mais radical, austeridade permanente. No geral e no histórico, isso é mais um subproduto da intensificação da crise mundial que deixa o imperialismo e os apostadores internacionais mais sedentos, uma situação que favorece esse tipo de golpismo de direita.

Quando falo em movimento, eu falo do movimento histórico, mas isso vale para o movimento de massas a favor do impeachment. Muitos se escondem atrás do discurso cínico e patético de que ” é tudo corrupto”, ao mesmo tempo que estão despreocupados com o congresso e todo mundo sabe que a maioria ali votou no Aécio Neves, detesta o PT há anos e só não se conforma com a derrota. Mesmo que existam pessoas bem intencionadas, é uma turma que quer terceiro turno, ou coisas bem piores que isso (militarismo ou monarquia, por exemplo). É óbvio para todos dentro e fora dele que o programa/pauta do movimento só se preocupa realmente com o PT e a Presidente, não existe nada de sólido contra a corrupção em geral ou contra os corruptos do congresso (que muitas vezes tomam parte das manifestações), é um movimento hiper-politizado (uma politização ruim) porém covarde na hora de estabelecer claramente quais são suas posições ideológicas. É um movimento de massas (e isso inclui dirigentes, como o MBL e VemPraRua) que não coloca as questões mais importantes para o Brasil, não questiona verdadeiramente a corrupção, não fala das perdas internacionais, não falam contra o massacre no campo e que acha que o Bolsa Família é o problema do país, não se importando nem um pouco com a farra dos banqueiros. O pior é que esses movimentos tem ligações diretas e até mesmo financeiros com órgãos norte-americanos, o que aumenta o seu caráter de serviçais do imperialismo. Eu não tenho nada que ver com essas massas, não me intimido e jamais me intimidarei com números – defendo princípios.

Voltando ao congresso, como vamos apoiar um movimento desses? É um movimento completamente desmoralizado, vindo da boca do lixo do congresso para os que dizem que detestam corruptos aplaudir esse circo de plutocratas? Bastava assistir a votação para pelo menos perceber algo estranho. Não vou legitimar essa farsa conduzida por verdadeiros defensores do atraso, de rabo preso nos interesses que mantém o Brasil no ciclo da dependência econômica, política e moral. Por mais que eu tire essas conclusões partindo de posições muito específicas a favor da independência de nosso país, contra o liberalismo corrupto, acredito que encaminho respostas que podem ser compreendidas por qualquer pessoa comum e bem intencionada. Não compactuar com a farsa é necessário para quebrar o canto de sereia emitido pelo impeachment como uma “boa mudança”, como algo que cria expectativas e esperanças falsas com aquilo que não passa de uma manobra de um usurpador, de uma nova chapa para a presidência articular por Cunha, Temer e Serra. Essas figuras formam um bando de conspiradores que querem um governo ilegítimo, arbitrário e entreguista. A única liberdade que defendem é a de ficar mais ricos num país repleto de pobres, guiados por uma ânsia desumana por riquezas, afinal pensam suas famílias e filhos antes do bem-estar geral. Estão há anos encastelados em suas posições, querendo conservar elas a todo custo e descontentes com os aspectos mais progressistas da nossa Constituição de 88. São agentes coloniais, já que servem ao domínio de corporações que impedem que nosso país seja verdadeiramente forte e independente. São os que não possuem só o controle da política (dos municipios, a escola básica do roubo e da dilapidação, ao congresso), mas que controlam as alavancas da grande imprensa, das finanças, do latifúndio e dos negócios internacionais. O domínio dessa minoria sobre a vida nacional não nos trouxe nada de grande ou sequer bom até hoje, eles só pensam em suas mansões e iates, a política é mais um negócio, um negócio pra se manter na calmaria, uma concepção ultra-conservadora de política como o negócio dos notáveis da alta sociedade.

(nota: o irônico é que, além de programas sociais focados pela mídia, um dos beneficiários das pedaladas foi o agronegócio, esse opóbrio paparicado pelo PT e que teve seus representantes declarando seus amores na votação de ontem, “pelos produtores rurais!”)

Legitimidade é algo que constrói. Realmente, o voto não tem propriedades mágicas, é só mais uma ferramenta de legitimação. Muitos reclamam da “crise de legitimidade do governo Dilma”, mas que legitimidade podemos esperar de uma junta emanada de um golpe? Não haverá paz e nem a tal “conciliação nacional” de Michel Temer. Eu me lavo de responsabilidades em relação ao impedimento e também me lavo de responsabilidades em relação ao governo do PT, mas certamente apoiarei e excitarei a resistência democrática – não aceitaremos a farsa. Essa ilegitimidade abrirá para todos os patriotas a possibilidade de lutar sem ressalvas para afirmar o programa da independência, das soberanias nacional e popular. Temos defender a nacionalidade com inconformismo, insubmissão e resistência.

Chega de ilusões e chega de barões! Eu não me enganei com o programa da Dilma nas eleições presidenciais e jamais me enganarei com as mentiras da chapa golpista!

ANEXO:

Vejam aí o tamanho da farsa, o tamanho da cara-de-pau e sem vergonhice. É essa a democracia parlamentar dos plutocratas. Eles querem RECOMPENSAR UM CRIMINOSO, partindo do pressuposto de que ele é um criminoso. QUEREM CASSAR UMA PRESIDENTE ELEITA COM VOTO MAJORITÁRIO SEM CRIME NENHUM, SEM ESTAR SENDO ACUSADA DE CRIME, MAS QUEREM SAFAR UM CRIMINOSO. Isto é obsceno:

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/18/politica/1460943585_924610.html?id_externo_rsoc=FB_CM

Entre seus correligionários, porém, já existe uma movimentação para que ele não perca o mandato. “O juízo da casa é um juízo político, de conveniência e oportunidade”, afirma o deputado Osmar Serriglio (PMDB-PR), para quem o processo no Conselho “não vai dar em nada, uma vez que o Cunha tem maioria lá”. De qualquer forma, o paranaense considera a cassação do mandato uma punição muito severa. Ele cita uma supostadecisão do Supremo segundo a qual “mesmo sob juramento você pode mentir para não se prejudicar”. “Logo é duvidoso ele ser condenado por mentir sem estar sob juramento”, diz Serriglio, que acredita ainda que o presidente da Casa tenha conquistado a simpatia de muitos parlamentares pela agilidade com que fez o processo de impeachment tramitar.

Levando em consideração que por muitos menos querem a cabeça de Roussef, o sujeito tem que ser muito cara de pau pra falar com naturalidade que Cunha mentiu fora de juramento, e mesmo que estivesse sob juramente, “tudo bem”. É ridículo, obsceno e criminoso, é uma dignidade digníssima de uma paredão.

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E se o impedimento não passar?

Dar qualquer credibilidade ao impedimento é cair numa ilusão armada por golpistas e criminosos. O problema do impedimento é justamente esse: ele é ativo, é uma ofensiva, um ataque, um movimento. Ele tem efeitos políticos. Nós já esperávamos os quatros anos de Dilma Roussef, não essa movimentação que possui sua própria natureza e somente fortalece as forças da reação.

No entanto, os patriotas, aqueles verdadeiramente comprometidos com a independência e o desenvolvimento do nosso país, com a emancipação das massas populares, e não com os interesses escusos do imperialismo, nós não podemos alimentar esperanças neste governo que se entranhará mais nos caminhos dos vendilhões e do anti-povo. Não cabe aqui discutir o passado já repleto de concessões e conciliações inaceitáveis e, às vezes, de dano irremediável, mas não adianta fazer como os governistas e unirem entorno de um programa que não cumpre nossas aspirações. Tenham em mente que, além dos problemas passados e já existentes do Partido dos Trabalhadores, as forças do golpismo já que conquistaram uma vitória com esse movimento e qualquer vitória do governo atual será uma vitória extremamente frágil e condicional, uma vitória que intensificará os cortes, a austeridade, que eleva as tendências de direita na nossa vida política. Tenham como máxima: medidas da austeridade estão na contramão do desenvolvimento da independência, não existe desenvolvimento sem investimento, não existe mais desenvolvimento dependente. O petismo se disfarça com o discurso da independência mas pratica o entreguismo para se manter no governo e manter a paz com os senhores – os produtos dessa política estão aí e geraram a própria morte do PT. Nós não estamos lidando somente com cabeças da política, mas com tendências do político. Essas tendências vão se manifestar no próprio governo do PT, tendências que nascem não só dessa tensão mas da crise internacional do capitalismo.

O PT não coloca as grandes questões, ele está apegado a um projeto tímido, apegados a uma noção de estabilidade incompatível com as necessidades de uma grande nação. É uma vergonha a forma como os governistas são tão pequenos em sua posição, a forma como se isolam em casulos defensivos, frágeis, ao invés de assumir uma postura altiva e militante – o choro corrente dos petistas na manifestação é prova disso e já anunciava que se depender deles seremos devorados pelos golpistas. O seu discurso é, sim, um discurso de formas conservadoras, um discurso quase desprovido de afirmação e dependente de ideias de manutenção da ordem. O PT foi dormir com as cobras golpistas todos esses anos, naturalmente amanheceu repleto de picadas. Nós não devemos só defender o voto majoritário que os golpistas odeiam e repudiam, não devemos ficar com o discurso tímido das “regras da brincadeira”, mas afirmar nossos ideias de justiça frente aos golpistas, aos fisiologistas, os hipócritas e os mentirosos. Não importa se o impeachment não passar, o que nós assistimos é a tragédia do peleguismo lulista pelas mãos dos criminosos que Dirceu no passado se dispôs a abraçar, os velhos oligarcas da politica brasileira, os senhores de terra, os mercenários do estrangeiro e os filhotes da ditadura. A justificativa deles é, no máximo, recorrer a dados sobre diminuição da pobreza, mas todos nós sabemos das limitações que existem por trás desse projeto. É incrível como o petismo se afastou até mesmo do discurso da exigência, do discurso da reivindicação, do discurso da conquista…. não reivindicam e mal se indignam, no máximo depositam suas energias em brigas eleitorais e em brigas com a mídia, de resto, é necessário manter a confiança no governo e conservar a paz social, “que tudo vai ficar bem”, “estamos caminhando bem”, é um discurso nacional-conservador dependente da ordem (parcialmente correto nos princípios) com uma pintura de esquerda, “ê que legal já temos um governo amigo dos pobres agora é só ficar quietinho que ano após ano somos mais parecidos com uma social democracia europeia, tamos no desenvolvendo, sem conflitos, vamos negociar com a reação pra ficar no poder, porque nós no poder somos a salvação dos pobres, o que importa é o poder, mesmo que custem compromissos e seja através das armas de outros”. Zé Dirceu é uma espécie de Bismarck da esquerda brasileira, mas sua Alemanha se desintegrou mais rápido que o esperado.

Tempos horríveis virão COM OU SEM IMPEACHMENT. Entendam isso – muita coisa está mudando e muita coisa vai mudar (para pior).

Não devemos reproduzir o discurso, a narrativa e a mitologia petista, eles são fracos. Não devemos atacar o golpe defendendo o governo e também não devemos atacar o golpe com um mero discurso formalista legal (que é uma discurso honesto e coerente, porém fraco), mas atacar o golpismo com posições firmes, consequentes e nacionais.

É essa firmeza que marcará os novos militantes, os militantes da nova história, a história do século XXI, porque o que estamos vendo agora é a morte dos anos 80, a morte da geração diretas já. Mesmo que a reação se fortaleça muito, haverão jovens feitos de aço.

No momento atual, falta uma mobilização sólida e verdadeira contra as medidas de austeridade, as medidas anti-povo. Mesmo a mobilização anti-golpe é mirrada, as pautas econômicas recebem uma atenção ainda mais precária – falta mobilização real, realmente pautar essa agenda de forma permanente.

As tendências de direita estão elevadas de uma forma ou de outra. Cabe aos patriotas e progressistas se preparem uma longa campanha de combates, para não depender da clemência de parlamentos e nem de negociatas políticas, mas conquistar as ruas e não aceitar o petismo frágil saído dessa situação. Somente se organizando nos diversos espaços (bairros, escolas, universidades e local de trabalho) e partindo para a luta será possível deter a onda de direita que serve aos interesses estrangeiros. O golpismo é maior prova de que não podemos aceitar as medidas neoliberais do governo. Temos que ressuscitar a combatividade e depois elevá-la a níveis novos, superiores. Estamos num momento de alta tensão e, talvez, de desfecho, e só nos organizando no curto prazo, elevando nossa moral (e não nos humilhando com o discurso tímido dos petistas) poderemos não só nos defender dos ataques dos velhos reacionários e golpistas mas buscar nossa libertação enquanto país.

A defesa da soberania e da independência deve ser nossa preocupação primária. Um país dependente, submetido, subjugado, que tem a economia espoliada por interesses internacionais (e seus capangas locais, que fica sobre a bota do capital financeiro, não é um país de verdade. Parte dessa luta inclui se livrar dessa corja de vendilhões que ocupam o nossa política, vivem das práticas mais escusas mas acima de tudo são agentes dessa condição de dependência, são os representantes da antinação. É daí que seguem as nossas outras pautas fundamentais: a industrialização, a reforma agrária, a reforma urbana e a urbanização racional; o fim da escravidão das dívidas e dos juros, contra o rapinismo financeiro e a especulação destruidoras. Esse é o nosso norte e a agressividade deve ser a nossa arma, o nosso dote e nossa via. É este o canto do momento – ocupar as ruas e não se submeter à ilusão do governo, assim como recusamos mentira dos gangsters do congresso, como recusamos o golpe da chapa Temer-Cunha.

Não é muito diferente da nossa postura para com um eventual governo golpista.

É hora de realizar a nossa independência.

ADENDO:

É possível que, se o impedimento for derrotado, tendências de direita também fiquem mais raivosas e exista uma escalada no conflito. É necessário se preparar para isto também.

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Como usar Hegel: o golpe de 64 na filosofia da história

Eu vejo pessoas de esquerda e que são acadêmicas (esse “e” é pra enfatizar a condição delas mesmo) questionando a necessidade de se estudar Hegel, se vale a pena, se é perda de tempo, se o próprio Hegel é rejeitável, esse tipo de coisa. Em princípio, digo que foi Hegel e o pensamento hegeliano que formou toda uma esquerda socialista do século XIX, entre eles Marx e Engels, além ser um estudo fundamental para pensadores diversos como Lenin, Lukács, Horkheimer, Adorno, Sartre, Merleau-Ponty, Althusser, Zizek e Losurdo. Lenin estudou Hegel profunda e entusiasmadamente, considerando-o necessário para uma compreensão mais completa do marxismo, chegando afirmar que é impossível entender completamente O Capital sem estudar a Lógica de Hegel. Realmente não existe O Capital sem Hegel, e não por uma “influência indireta”, “porque Marx foi influenciado por Hegel” simples, mas porque o hegelianismo ali é pujante, está no próprio método e seria a realização suprema do que Marx descreveu como pegar o sistema de Hegel e virá-lo de ponta-cabeça.

Tirando seu papel para o marxismo e a esquerda, Hegel por si só é uma espécie de patrono do progressismo, teórico póstumo da Revolução Francesa, um pensador revolucionário.

Geralmente o que me orienta nos debates dentro da esquerda (e frequentemente contra grosserias de direita) é o objetivo contrapor tendências ingênuas, idealistas (no mau sentido) e antipolíticas.  No entanto, faço isso não só por um senso de realismo, um toque maquiavélico ou pragmático (como sugere o título do blog), mas por uma questão de perspectiva histórica. Essa falta de perspectiva faz com que as pessoas percam a medida do real, se regojizando num idealismo absoluto que não concilia o ser com o dever ser, mas se contenta com com o absolutismo do dever ser que se coloca acima dos dados reais e constrói um tipo de sentimento de superioridade moral baseado no mundo interior do sujeito. Outro problema é o dogmatismo do sujeito tão comum na atualidade e que quer apagar a ideia de totalidade, ideia que nos permite desenvolver um conhecimento mais substancial a respeito da história – esse dogmatismo muitas vezes é acompanhada pela ideia não-redutibilidade dos fatos a conceitos, de maneira que existe uma variedade infinita, inclassificável e, portanto, incognoscível. A filosofia anda de mãos dadas com a política que, mesmo que não a primeira vista, também trás a tona questões epistemológicas. Partindo de um ponto de vista filosófico, o concreto é só uma manifestação particular de uma universalidade, um “momento” dessa universalidade. Isso não é nenhuma grande viagem metafísica: é o que fazemos quando articulamos conceitos como “democracia” e “ditadura” para melhor entender regimes reais. Ter um sistema ou um método pode nos ajudar nessa tarefa, o que historicamente a esquerda já sabia, mas isso não vem se confirmando na prática atual. A grande sacada é enxergar totalidade, devir, movimento, necessidade e o entrelaçamento dos fenômenos, não pensar nem em termos de indivíduos e tão pouco de moralidade, mas pensar em história.

Ter uma noção de Hegel/dialética facilita a busca de uma perspectiva histórica. É possível ter uma compreensão geral dos acontecimentos reduzindo-os a lógica. Podemos usar como por exemplo o golpe e regime militar brasileiro. Dentro da esquerda existe uma ênfase a totalidade cósmico-histórica e essa ênfase provém de Hegel.

A história não é uma marcha gradual e em linha reta, mas um zigue-e-zague de processos contraditórios. Quando falamos do golpe militar de 1964 não estamos falando de um acontecimento acidental mas da explosão de um conjunto de contradições. O mesmo pode ser dito de outras maneiras e em relação aos acontecimentos que o antecederam – os fatos não são acontecimentos acidentais e o regime militar não é produto do encadeamento de acidentes ou escolhas livres, ele possui sua própria lógica histórica. Existe uma certa visão liberal ou simplista sobre os acontecimentos daquela época que procura

Essa visão que eu chamo de liberal (e é compartilhada por muitos esquerdistas, especialmente do PT) trata o golpe como um acidente histórico ou produto de condições bem específicas, como se o golpe não tivesse acontecido não fossem circunstâncias muito especiais e sem a participação daqueles indivíduos. Daí o golpe aconteceu porque Couto e Silva pensava de tal maneira, porque Jango fez isso e aquilo, porque certo parlamentar fez aquela manobra, porque Brizola botava muito medo, porque a direita temia o crescimento do Partido Comunista, porque os militares quiseram, porque General Kruel recebeu x maletas de dólares dos Estados Unidos, etc. Acontece que todos esses acontecimentos individuais estão dentro de uma lógica histórica – os indivíduos são só atores dentro de uma peça maior,  Kruel ter recebido um suborno dos norte-americanos não é, obviamente, determinante, mas só um epifenômeno de um fenômeno histórico muito maior.

Tenham como axioma: positivo e negativo  aqui se referem principalmente a afirmação/construção e negação/destruição, não a bom e mau; não se trata de uma avaliação moral, mas um afastamento dela.

O Brasil entrou nos anos 60 com a escalada de algumas contradições fundamentais que acabaram explodindo em 64. O período varguista havia inaugurado um novo período na política brasileira, com a ampliação do espaço público, a ascensão das massas na política (num sentido moderno) e uma maior autonomia do poder público. Essa autonomia implica numa maior universalização, ele reforça seu caráter burocrático e profissional. Ocorreu um processo que podemos chamar de consolidação nacional (sugestão: artigo de Bresser Pereira no livro citado no fim do texto sobre a Era Vargas), o que faz as pessoas participarem ou se sentirem parte de uma ideia de nação; dentro disso, se ampliou a vida política, com a redemocratização se ampliou a vida eleitoral. Se difundiam as ideias do trabalhismo e, em menor escala, do comunismo (ideias socialistas). No campo mais amplo, certas ideias ganhavam terreno na realidade ao ser gradualmente introjetadas por membros do povo. Ideias de que “eu”, como pessoa, sou parte de uma coletividade nacional, então sou parte da vida política e digno de certos direitos, eu posso lutar por esses direitos e pensar sobre os rumos da coletividade nacional. Não sou só uma pessoa pequena, posso até ser,  mas isso não me exclui da vida nacional. Se eu sou um trabalhador, e isso era particularmente forte, eu me vejo depositário de um grande potencial político (até um empoderamento subjetivo) e me vejo digno de direitos sociais e trabalhistas. A própria história recente e o discurso do trabalhismo (entre outros discursos menores, como o dos socialistas ou dos comunistas) reforçavam essas ideias. Essas ideias ganhavam sua penetração no mundo concreto através da luta de classes que se acirrava, principalmente no campo, onde organizações camponesas como as Ligas ficavam cada vez mais combativas e suas demandas se relacionavam com partidos políticos como o PC e o PSB (o PSB de Julião e Arraes, que teriam lá seus conflitos nesse mesmo campo).

O país se desenvolvia, é razoável pensar no militarismo . Ao mesmo tempo e entre as maiores contradições, o país havia acabado de sair de um “ciclo” de independência e de um novo ciclo de dependência, com a expansão do imperialismo norte-americano, este último que se tornou um fator crucial para nossa política. Então existia um campo de confronto. No cenário internacional, existia um campo revolucionário (mesmo que termidoriano), não que o Brasil fosse “se tornar comunista”, que esse fosse o ideal, mas isso exercia um campo de atração já que implicava na superação de certas mazelas e contradições, especialmente as nossas contradições sociais, influenciava a “marcha da liberdade”, criava um campo de atração e influência que estimulava movimentos revolucionários de caráter diversos, era uma força de oposição ao conservadorismo. Aos Estados Unidos, não importando o quão progressivo fosse em suas fronteiras, liderava a reação internacional, estimulando todo tipo de regime criminoso, particularista, regimes em geral iguais ou muito piores do que o brasileiro em seu caráter, sem função histórica a não ser conter o progresso e defender privilégios com uso de gorilas mercenários (quanto a isso, penso que é só ver a relação da URSS com o movimento anticolonial em contraposição aos “Contras” neocolonialistas apoiados pelo mundo livre). Forças conservadoras oligárquicas ligadas ao imperialismo buscavam conter tendências populares e nacionalistas desde os anos 50. Em 1961 um momento de ruptura acabou sendo só mais uma grande contradição explosiva, com os militares conservadores e a UDN tentando impedir a posse de Jango (que estava voltando da República Popular da China) através do golpismo, golpismo que foi detido principalmente por um forte movimento popular no Rio Grande do Sul liderado pelo Governador Leonel Brizola, que comandava cerca de 30 mil homens, muitos deles voluntários (a resistência ocorreu em outros estados também). Daí pra frente se reforçou mais ainda a confiança no povo e para os setores reacionários Brizola virou o temido “General Comunista”, o caudilho dos pampas. Depois desse acontecimento houve um salto do nacionalismo de esquerda no Brasil, com o fortalecimento da Frente Parlamentar Nacionalista, a Frente Nacional de Libertação, a Frente de Mobilização Popular e o Grupo dos Onze (Comandos Nacionalistas)… figuras como Brizola e Arrais (mas principalmente Brizola) se destacavam, ao mesmo tempo as forças conservadoras buscavam se entrincheirar no parlamentarismo, para depois ampliarem seu desespero com a ampliação da bancada trabalhista em 62 e a construção de uma maioria. No campo das contradições, não podemos deixar de pensar também que o levantamento de Brizola acabou “terminado pela metade” porque Jango assinou o parlamentarismo em primeiro lugar e Brizola não marchou em direção ao norte. Essas contadições envolvendo o campo de esquerda com Brizola no lado oposto de Jango ficaram ainda maiores às vésperas do golpe com Jango tentando segurar as coisas e Brizola viajando o país numa campanha pelas reformas de base, “na lei ou na marra”(como dizia a FMP).

O golpe de 64 foi o triunfo de uma negatividade/negação histórica, então todo eu elemento afirmativo/positivo é em função de uma negatividade fundamental: a reação, a redução/supressão do espaço público, a degradação da ideia desse espaço, a contenção, a defesa dos privilégios, contra os avanços iminentes, como a reforma agrária e ampliação da arena pública, surge como “anti”, anti trabalhista e anti Comunista. Foi a insurreição contra a “república sindicalista”, com sua grande expressão prática na alta política institucional como cassação, proibição. Precisaram da força para destruir o trabalhismo, o comunismo e até carreiras políticas bem moderadas, além de ter recorrido a essa força para reverter processos sociais, recuar na legislação trabalhista (ex. fim da estabilidade do emprego e da política de reajuste do salário mínimo). O regime mal se valeu da legalidade (outra expressão de universalidade), não tinha consenso dos civis, tentou apelar para a autoridade do congresso pisando em cima do mesmo, de seus parlamentares, mesmo daqueles conservadores que foram de alguma forma cúmplices.

Lemos no Ato Institucional Nº 1:

“ a fim de que este possa cumprir a missão de restaurar no Brasil a ordem econômica e financeira e tomar as urgentes medidas destinadas a drenar o bolsão comunista, cuja purulência já se havia infiltrado não só na cúpula do governo como nas suas dependências administrativas”

O Ato segue com disposições que dizem respeito a cassação de cargos.

O seu aspecto negativo/destruidor tem uma força por vir dessa negatividade do principio – o caráter em tese positivo afirmador do regime militar é por si só uma negação, ele nasce como negação histórica. Esse é o fundamental, x obras de infraestrutura qualquer governo pode fazer, é preciso ter perspectiva histórica, e é uma negação justamente de um processo oposto de afirmação, superação e positividade. O problema do processo positivo que foi negado pelo golpe militar é que ele mesmo não conseguiu manejar suas tendências negativas, isto é, o novo não usou os recursos da destruição contra o velho.

Isto aconteceu na particularidade do concreto, por exemplo, nos momentos de vacilação de Jango frente o golpismo ou no próprio recuo de certos setores do trabalhismo.

Só é possível ganhar a verdade encarando a necessidade da morte e destruição, isto é, o aspecto negativo do desenvolvimento. Ignorar isso é anti-histórico. A negatividade não é simples produto de sujeitos (os sujeitos estão mais para atores dentro de uma peça-sistema maior), mas é algo presente na objetividade da matéria, isto é, no próprio desenvolvimento objetivo do processo histórico, como uma reação química ou algum outro fenômeno da natureza. Claro que, se exacerbado, o polo negativo pode sobrepor o polo positivo de um fenômeno e temos que ter isso em mente (para Hegel isso teria acontecido na Revolução Francesa durante o Terror).

Como descrevemos antes, o positivo se afirma no fortalecimento do movimento operário sindical, sua participação ativa na política, bem como a participação ativa do campesinato na política em modelos como as Ligas Camponesas, a possibilidade de terra para os que não tem, somada a expressão eleitoral de interesses antes não contemplados, apontava para uma expansão ou afirmação do princípio de universalidade. Nesses também vemos uma afirmação de um princípio de liberdade positiva, assim como vemos no direcionamento da política externa do Brasil para caminhos não aprovados por Washington (que tinha uma posição susserana). Como colocamos antes, a questão do desenvolvimento gerou certas contradições e creio que podemos até pensar no dilema dos 60 como o confronto entre vias distintas para modernização do Brasil, apesar de não podermos nos alongar nesse tema aqui, é razoável ver o militarismo como um projeto de enquadramento da modernização para que esta não acabasse varrendo o status quo e seus velhos senhores – uma alternativa conservadora, aterrorizada pela perspectiva de subversão e fim dos privilégios, do que era o estado atual das coisas.

Frente a isso, a marcha da negatividade é tão intensa que o regime entra numa escalada do negativo, não bastando o golpe militar foi necessário um Ato Institucional Nº 5 anos depois. A própria ideologia da Doutrina de Segurança Nacional é em função de reação e negatividade – é preciso se subordinar aos EUA até a “batalha final contra o comunismo” e combater a subversão interna. Ora, a noção de subversão parte justamente de uma elevação moral do status quo, das coisas como elas são e então devem permanecer – não querem o “caos”, não querem a mudança, não querem que a ordem social mude, passe por grandes alterações ou seja colocada em risco.

Alguém pode opor que essa noção progressista é arbitrária. Não, ela não é puramente arbitrária, porque esses conceitos (inclusive mais gerais como liberdade) encontraram não só eco como dimensão na realidade. Se vocês querem ter qualquer noção de avanço e dimensão histórica, olhem para o que significou a Revolução de 1930 em comparação ao Golpe de 64. 1930 e o Varguismo foram um salto revolucionário, uma mudança permanente, com um legado construtivo, o Brasil efetivamente entrou numa nova fase a partir de um momento de crise em que a ruptura foi um salto adiante – tarefas realmente de dimensão histórica foram cumpridas, não tarefas de vigia noturno (no caso do regime militar um vigia com sede de sangue, mas ainda assim apenas um vigia) [recomendo novamente o artigo de Bresser Pereira e acredito que o de Angela de Castro no mesmo livro também tenha pontos úteis]. O “legado” de 64 é o tipo de legado que só esses fenômenos reacionários e essencialmente negativos deixam, só gera mais problemas e mais negatividade, o puro imobilismo e reação. Serviu para degenerar, para gerar uma cultura da negatividade nas forças militares (policiais inclusos) e na política, deixar uma terra arrasada na nossa vida política. Somente o final do regime você teve uma tímida tendência positivadora em Geisel, que somente por ensaiar políticas de corte mais nacional despertou a fúria de outras tendências internas, .justamente essas que tinham mais apego e sacralizavam a ordem social, os que temiam a subversão acima de tudo e defendem a conservação dos privilégios, das coisas como eram, da “bela sociedade burguesa brasileira”, com suas noções próprias de cidadão de bem, ordem e propriedade. No mais baixo, temiam qualquer coisa que arriscasse os jantarees nas casas de velhos oligarcas, que mexesse no status dos senhores rurais (esses inimigos da verdadeira industrialização) ou até suas próprias dragonas – a utopia liberal-c0nservadora filo americana porém brasileirissima é a que imperava e ainda inspira o ethos da direita brasileira.

(Eu busquei ser simples nesse texto, fazendo um verdadeiro esboço que caberia bem para, por exemplo, uma postagem no Facebook, mas desperta uma reflexão, um interesse por um tipo de análise, por Hegel e pelo materialismo dialético marxista. Acredito que ele realmente incentive as pessoas a pensar em termos históricos e recuperar o pensamento filosófico para a política, especialmente para o contexto de esquerda  - no futuro posso me aprofundar mais recorrendo mais a bibliografia, deem uma olhada nas nossas sugestões, se comprarem usando estes links vocês ajudam nosso site. Obrigado.)

Leia também:

Vargas, corporativismo e espectro político no Brasil
Antipolítica, democracia e conflito

Bibliografia sugerida:

(* indica o quanto eu recomendo; observo que com exceção de Filosofia da História a leitura de Hegel pode ser pesada)

Filosofia da História, Hegel *
Fenomenologia do Espírito, Hegel
A Ciência da Lógica, Hegel (ou, em inglês, no Marxists Internet Archive) [discutir a lógica no cerne da própria realidade, o que vai influenciar nossa concepção de história]
A Hipocondria da Antipolítica,  Domenico Losurdo * [bom para introduzir uma discussão de Hegel na política]
Fuga da História?, Domenico Losurdo [menos recomendado, só acho que aqui Losurdo, ele mesmo um estudioso de Hegel, estica e flexibiliza os músculos da filosofia da história ao discutir socialismo e revolução]
Stalin – Hstória Crítica de uma Lenda Negra, Domenico Losurdo [o mesmo que acima]
A Era Vargas,  Pedro Paulo Zahluth Bastos e Pedro Cezar Dutra Fonseca (orgs.) [ótimo para a discussão que vimos brevemente sobre o papel do Varguismo e pra se discutir as origens do trabalhismo e do nacionalismo no Brasil]

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Antipolítica, democracia e conflito

Eu recebo bem toda essa efusividade política e conflitiva no Brasil, gosto do ar e do frescor dos acontecimentos. O que me incomoda é que existam faladores e griteiros que até pra se envolver em política se reivindicam “apolíticos” ou são adeptos de um apartidarismo que faz parecer tomar partido criminoso. Me lembro de um caso que talvez trate dos antecedentes desse fenômeno.

Na Licenciatura foi necessário fazer uma disciplina chamada Políticas Organizacionais na Educação Pública do Brasil.  Dentro desta disciplina nós, os alunos, tivemos que fazer como um dos trabalhos finais um seminário sobre certos temas  pré-determinados e divididos entre grupos. O tema destinado ao meu grupo foi “Educação do Campo”.

“Educação do campo” é uma concepção político pedagógica que nasceu do encontro de uma pedagogia progressista (Florestan  Fernandes, Paulo Freire) com as lutas políticas e demandas dos camponeses. É um conceito, é um nome, e não simples  ”educação no campo”, seu nome é especialmente pensado como uma contraposição a “educação rural”, é produto de uma  pedagogia democrática que pensa no sujeito camponês em contraposição a noções pedagógicas que seriam autoritárias e  externas a essas territorialidades (uma noção socio-política e cultural) que chamamos de “campo” (pensando em sentido  amplo – pequenos proprietários, trabalhadores rurais, sem terra, quilombolas, entre outros).

Não pretendo explicar aqui o que é a Educação do Campo, mas foi o que eu fiz junto de meus colegas de grupo para a plateia composta pela professora e os outros colegas. Depois soube de um colega que reclamou da apresentação por estar “politizada”, como se fosse “tendenciosa”.

Antes de adentrar na discussão, acho que já é claro que, em primeiro lugar, dada as origens do conceito e sua prática enquanto política pública (envolvendo o MST, por exemplo) era simplesmente impossível não esbarrar na política. Eu naturalmente forneci um contexto geral que recuava aos precursores da educação do campo no governo do Rio Grande do Sul  de Leonel Brizola, com a experiência do MASTER e das brizoletas rurais.

Ignorando essas particularidades, eu pergunto: e daí se o discurso foi politizado?

Eu poderia estar usando uma camiseta do PDT que ainda não vejo nenhuma grande ofensa, poderia ter dito efetivamente que  aquilo era o bom, o certo, o belo e o necessário (o que eu não fiz). Ainda assim, não vejo problema nisso.

Aquele é um ambiente universitário e num contexto de discussão política, numa disciplina que efetivamente os alunos são chamados a refletir sobre políticas públicas, se familiarizando com políticas públicas contrárias que surgem de setores  diversos e contraditórios da sociedade civil. Além disso, suponho que ninguém ali seja idiota, desprovido de opiniões, e se tratava de uma discussão num lugar adequado e entre pares (não cabe, portanto, nenhuma acusação de “doutrinação”).

É algo esquizofrênico manter “pedestais” para Darcy Ribeiro, ou Florestan ou Paulo Freire e se esforçar para esconder as filiações políticas que determinaram sua obra, principalmente no caso de Freire (o mais apolítico dos outros dois
deve estar no campo da antropologia).

Não é democracia? Não é o debate político, a liberdade de expressão, não é a discussão entre o povo que vai guiar os rumos políticos….? Não é o não sei o quê? É assim mesmo então, vão existir diferentes filiações políticas, suas manifestações e seus embates. Não só um aluno, mas um professor, um jornal, uma figura, um trabalhador, irão se posicionar e se organizar se assim quiserem. Não se trata afinal dos rumos da nação? Não se trata afinal de uma das coisas mais importantes e mais virtuosas? É essa a natureza da disputa política. Não é pra nascer e morrer na casinha da urna.

Essa disputa política vai se disseminar pelo tecido social e não existe mal absoluto em um defender as políticas de um governo e outro condenar, não existe mal em proferir uma opinião. Assim como eu digo que Brizola fez uma coisa boa, outro pode dizer que não e outro pode levantar uma coisa que julgar má.

Tenho na memória também que em algum momento, mas possivelmente em outro dia, numa aula, surgiu uma discussão em que eu mencionei o governo de Brizola e seu vice Darcy Ribeiro no Rio de Janeiro, onde ocorreu a experiência dos CIEPS. Nesse caso, acredito que devo ter efetivamente elogiado a política do governador.

Para alguns, aparentemente, isso é um absurdo até em situações que deveria ser natural. É um absurdo tomar posição, ter alguma posição, alguma opinião, o certo é agir de forma hipócrita e/ou suprimir qualquer debate. O mais cômico é que isso acontece muitas vezes em ambientes hegemonicamente de “esquerda” ou “progressistas”. Devo dizer também que a pusilanimidade é imperante e a falta de posição é um problema ético mais amplo, que gera discussões inúteis e infinitas, “democracia” vazia.

Mesmo estando eu em formas não-partidárias de política, detesto o apartidarismo de senso comum que se desenvolve no nosso país que tem horror de alguém ligado a algum partido e que trate a própria política como um crime em si…. Para a política institucional, não há muito fora da estrutura de partidos, na prática os partidos são a base de nossa democracia e teoricamente essa estrutura seria base da democracia em geral e o que lhe confere uma certa vida e dinamismo. Os partidos são a parte política fundamental da institucionalidade. Se é para ser assim, que todos estejam organizados e se confrontem, disputem os espaços, as comunidades. Que todos se filiem, tomem posições e até se odeiem por isso, que “Udenistas” e “Petebistas” se cruzem com desprezo na mesma comunidade e se organizem para disputá-la. Cito UDN e PTB porque acredito que os anos 50 foram um período de grande agitação democrática. O partido serve para isso mesmo, são órgãos distintos do Estado porém parte integrante do sistema, dão a cor na vida política, mesmo que deva existir também uma “neutralidade nacional e republicana” (o exige que partidos se unam num esforço de guerra, por exemplo).

Aqui falo de princípios, claro, porque a vida partidária no Brasil beira ao rídiculo. É um monte de fisiologista, um monte de legenda de aluguel, pouca penetração, pouco debate, pouca ideia e pouco programa. No entanto, acredito que esses princípios estejam na verdade das concepções mais liberais (à Revolução Americana) e nas mais republicanas (que ficaram tão populares em contraposição ao neoliberalismo recentemente) de democracia. Mesmo que eu seja plenamente capaz de cobrir as democracias liberais de críticas e seja capaz de ver virtudes em sistemas distintos, o que cabe aqui é tratar as coisas pelo seus fins e natureza. A disputa é que nos permite pensar a democracia no seu aspecto mais vivo, vivaz, ativo, vigoroso e virtuoso. A ideia de democracia não é só ter a variedade e o confronto de ideias para gerar o melhor, mas justamente para canalizar os conflitos e diferenças, como um tipo de resolução de uma guerra, ou uma guerra por outro meios. Então que confrontem, disputem e conquistem espaços, criem seus próprios espaços políticos sólidos, lutem por cada voto, que se enfrentem as máquinas de governar. Para os revolucionários americanos, quanto mais conflito e variedade melhor, melhor para o que entendiam como “liberdade”. Na lógica mais milenar dos atenienses, o conflito trazia vigor e liberdade, já que a tirania era pensada como felicidade suprema ao mesmo tempo que todos temiam não ser o tirano mas estar abaixo de um – dessa maneira faziam de tudo para evitar que alguém conseguisse essa dádiva e era justamente o confronto entre diversos homens e grupos na sua busca pelo poder que gerava o equilíbrio e a paz social. A disputa, a “Éris boa”, era fundamento do Estado democrático grego. Existia uma certa “vontade de poder”, e é de uma lógica parecida que alguns trazem uma possibilidade de “democracia tolerável” para o alemão Nietzsche, este mais afim de arranjos aristocráticos – o conflito, a variedade (querida do perspectivismo, mesmo que hierarquize essa variedade) e a vontade de poder. Se é pra ser assim, então o pau tem que comer mesmo, assim vamos ter algo bom, assim temos uma prática nobre e recompensadora, a política sai do feio e pacato, nos tira da gregariedade e obediência, nos aflora a agressividade. A guerra é uma escola de liberdade e o homem livre é um guerreiro. Quanto mais conflitos, mais temos dedicação e disposição política. Se algum triunfar e essa realidade de disputas acabar, pelo menos estará provido de grande energia, certamente. O fato, porém, é que nossa realidade não é de unificação mas de fragmentação, então insisto nos “fins e natureza”.

Repudio as concepções democráticas que geram seres acomodados e pacíficos, não existe direito ou liberdade que não se CONQUISTE (nada se “recebe”). Não quero um “sedamento europeu”, tranquilidade liberal, que aspiremos a uma República agitada, conflitiva, jacobina por assim dizer. Se existe algo que redime a democracia é o conflito e não a segurança. Todo o resto já foi desmistificado de várias maneiras, como pelo marxismo por exemplo, que expõe os tentáculos das classes dominantes. Jacques Ranciére crítica em seu “On the Shores of Politics” as ilusões criadas por setores dominantes sobre democracia, desmistifica o discurso ideológico do “fim da política”, mostra que o “realismo consensual” é só uma utopia usada para controlar a política. Ranciere tenta trazer seu significado original de política “organização da discordância”, da dissidência, política como conflito. O discurso da democracia pacífica serve para encobrir os males e o domínio, resistindo as polêmicas contra si como “violência simbólica” e apelando para o fantasma de outros males e da ruptura total para se justificar, mas o que não passa da articulação de postulados democráticos pra justificar desigualdades e dominação. Não pode existir uma calmaria permanente que não seja o domínio de uma situação, “democracia” aqui só pode ser em movimento, não como estado de repouso – a “democracia” e mais ainda a liberdade se faz, acontece, é um movimento ou o próprio conflito. Isso tudo pode assustar os “pacifistas”, mas o poder é mau e a realidade é conflitiva, não cabe aqui trazer a cordialidade do cafézinho da tarde.

As ideias antipolíticas estão no campo da pior política, só servem para maquiar a realidade e cimentar as piores injustiças, as injustiças silenciosas e as elites mais corruptas, os burocratas sem rosto e os senhores sem responsabilidade. Provavelmente isso é herança do regime militar, que espalhou o silêncio, quis “botar cada um em seu lugar”, despolitizante, destruiu o tecido político e os direitos políticos, criou uma cultura muito própria de despolitização do espaço público. A lógica da democracia seria justamente a de politizar o espaço público, ainda mais se estamos falando em multipartidarismo. A lógica do silêncio é aquela da impotência, na forma de resignação e obediência, quando não autotirania. Manifestação de falta de instinto político, sintoma de fraqueza, essa lógica apolítica ou antipolítica cai como uma luva para burgueses, dirigentes, burocratas controladores e para a era neoliberal. É perfeita para amansar as pessoas, para reduzir tudo a instrumento e função, e por isso a “grande direita” gosta tanto da “política como técnica”, do discurso tecnocrático, do “culto a competência” e ao “profissional”. É uma visão boa, de fato, para quem gosta de ser parafuso, os mansos que não se metam em política, que façam como aqueles “jovens liberais” que difundem textos de conservadores falando de como “a política é horrível” e o ápice da humanidade está na vida pessoal, no conforto, na prestação, no juntar porcarias, no homo economicus, no “enriquecer” e ter “sucesso” (ideologia burguesa pra ser vendida para as massas em geral), é o adequado aos escravos. Mas nem todos precisam ir por esse caminho e nós temos a oportunidade de levar uma nova energia para a política.

A “cordialidade” só nos imobilizou, chega de imobilidade, chega de deixar política na mão de burocratas, chega de ser colocado na condição de quem não pode falar nada – os idiotas que se calem. Eu falei muito de um ponto de vista institucional aqui, mas pensem no geral, pensem no todo, no COSMOS histórico. Me sinto bem no conflito. O conflito é bom, belo, humano e saudável, dele nascem frutos e ele é parte da natureza – a história anda e anda agora! Se não vamos construir, se não há um projeto único, que lutemos e conquistemos! Que a política seja um combate, pois é essa a natureza do momento e da sociedade em que vivemos, e esse é o melhor que podemos tirar dela – o pior é nos acomodar.

André Ortega

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Um abismo marcado pelo Estado: Hegel e Engels, por Luís Carlos Valois

Engels

Engels

Luís Carlos Valois é Juiz de direito, mestre e doutorando em direito penal pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, membro da Associação de Juízes para Democracia – AJD e porta-voz da Law Enforcement Against Prohibition (Associação de Agentes da Lei contra a Proibição) LEAP.

Hegel ou Engels? Na verdade, não interessa, para quem tem um bom salário no bolso no fim do mês, para quem as instituições estão acima das pessoas, do homem, porque a própria história, para eles, já teve decretado o seu fim. O mundo é isso mesmo que está dado e não adianta reclamar.

Hegel, aliás, sua obra, ajudou Marx a entender o mundo. Engels ajudou Marx a mudar o mundo.

Entendendo o mundo por intermédio de Hegel, Marx percebeu o quanto o trabalhador é destruído pelas coisas que ele mesmo produz, e que uma sociedade verdadeiramente racional só de daria com a superação desse estado de “alheamento”.

Só que, enquanto para Hegel as coisas se resolveriam por intermédio do Estado, para Marx a solução estava na conscientização do proletariado e na revolução. A simples existência do proletariado, sua exploração e falta de liberdade, constituir-se-ia na prova cabal da incoerência do termo “sociedade humana”.

Marx percebeu que o Estado de Hegel, e seus organismos, se sustentam na da ideia de um ser supremo, com espírito próprio, o Estado devendo intervir para que tudo continue como está, uma realidade forjada.

Judiciário, polícia, administração, ganham vida própria, com espírito e tudo, separada da sociedade. Tentando olhar através dessa construção realizada à força, Marx viu os conflitos sociais camuflados, nunca resolvidos, pelo Estado. O Estado respira por si mesmo e se vira contra a sociedade, onde as contradições são reais, transformando-se no seu oposto.

Por isso o segredo, os procedimentos que ninguém entende, a não ser aquela pessoa engomada do outro lado do balcão, o mistério das reuniões e deliberações superiores. Tudo para dar um ar de que sabem o que estão fazendo, quando o objetivo principal é a manutenção do status quo, ou, para ser mais claro, a manutenção de certas poltronas.

Hegel, ele próprio um funcionário público, acreditava na superioridade desses entes burocráticos, repertórios da cultura e da “consciência jurídica”, mas, mesmo assim, alertou para o perigo de se transforarem em uma espécie de aristocracia.

A obra “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel”, escrita por Marx, diz muito do propalado respeito às instituições, capaz de ser fundamento do pedido de prisão de uma pessoa. A palavra crítica já é algo desconhecido dos livros manuais de direito, que chamam de repertórios, mas deviam ser chamados repetitórios, de jurisprudência.

E, se não existe pensamento que não seja crítico, porque o resto é imitação, concordância, submissão, o direito anda carente de pensamento e, por isso, de bom senso, o qual sempre prescinde de uma certa reflexão.

No texto citado, Marx lembra o quanto o burocrata acaba confundindo a sua vida real com a sua vida institucional. Os mecanismos hierárquicos e de valores da instituição são incorporados na pessoa do burocrata. Ele, o representante do Estado vira um ser híbrido, meio instituição meio pessoa, mas mais instituição do que pessoa, daí o descaso para com o homem comum.

“Para o burocrata tomado individualmente a finalidade do Estado transforma-se na sua finalidade privada (…) A ciência real parece vazia, assim como a vida real parece morta”1 , disse Marx.

E Engels? Acabou-se não se falando de Engels. Textos destinados à internet, pela falta de espaço (já está comprovado que textos longos, na tela de um computador, são chatos e ninguém lê) não devem servir como instrução, mas, no máximo, para aguçar a curiosidade.

Engels, como Marx, também via o Estado em oposição à sociedade, tendo resumido algo que pode perfeitamente nos deixar encerrar:

“As classes possuidoras – a aristocracia rural e a burguesia – mantêm a população trabalhadora na servidão não só mediante o poder de sua riqueza, pela simples exploração do trabalho, mas também pelo poder do Estado – pelo exército, pela burocracia, pelos tribunais”2 .

É, definitivamente, não dá para confundir Engels com Hegel, e nem vice-versa.

1. MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Lisboa: Editorial Presença, 1983, p. 73-74.
2. ENGELS, Friedrich. Sobre a importância da luta política. In: Trabalhadores Uni-vos: antologia política da I Internacional. São Paulo: Boitempo, 2014.

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Um relatório anual de mulheres em cargos de liderança de 2015 – Rússia e Leste Europeu na frente

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A GrantThornton em 2015 lançou seu relatório anual que investiga a proporção de mulheres em cargos de liderança no mundo corporativo em vários países do mundo. No ranking lidera a Rússia, com 40%, representando uma tendência de toda Europa Oriental e provavelmente impressionante alguns com sua posição superior a Suécia (28%) e a Alemanha (14%).

A pesquisa também acompanha as mudanças nas proporções, e ao mesmo tempo que o Leste Europeu  mantém a liderança, a América Latina passa por uma queda, dentro de uma queda anual no contexto global e uma estagnação geral no que diz respeito ao quadro dessa última década. De qualquer forma, a AL bateu um record com uma queda geral de 18%. O Brasil também sofreu com essa queda e possui uma proporção de 15%, igual a Índia, esta que por sua vez presenciou um aumento, e maior que a Alemanha, que também sofreu queda. Mesmo assim, a União Europeia como um todo bateu um record de crescimento.

Francesca Largerberg, uma das líderes globais da empresa, disse que as empresas “falam, mas não fazem”. Falou da necessidade de um esforço conjunto entre corporações, mulheres e os governos, que deveriam tomar medidas no sentido de aumentar o número de mulheres em cargos de liderança empresarial. Ela aponta não somente medidas de apoio a mulheres, mas medidas no sentido de, por exemplo, combater a estigmatização de homens que ficam em casa (um passo para isso, segundo ela, seria ampliar licenças paternidade e esse tipo de coisa). No que diz respeito a liderança do leste da Europa, Largerberg comenta que isso se deve a uma complexidade de fatores que incluem história, cultura e demografia. “Essa cultura de liderança feminina é um legado do ideal Comunista de igualdade de oportunidade e isso se estender ao amplo campo de disciplinas que as mulheres estudam na região”. De fato, o período comunista não só tinha uma tendência ideológica, como em geral tinha um grande interesse na formação técnica e científica, levando em consideração até mesmo a “produção de estudantes” em seus planos (“é preciso formar no mínimo y engenheiros….”). Esse interesse na formação ampla se casava perfeitamente com sua visão do papel da mulher, da construção da família e a “libertação do trabalho doméstico”. Largerberg continua: “Consequentemente, nós achamos mulheres bem representadas nas indústrias de serviços também; e não só nos setores com números tradicionalmente altos como a saúde (…) mas setores emergentes como de serviços financeiros e tecnologias”. No entanto, ela também observa que na Rússia pesa um fator demográfico, são 120 mulheres para a cada 100 homens.

“O que o resto do mundo pode aprender com o leste europeu? Claro que não existe varinha mágica, mas algumas das recomendações estão no nosso relatório – incluindo mudar normais societárias sobre o papel da mulher e erradicar o preconceito de gênero – são diretamente feitos a partir do que está funcionando bem na região.”

A GrantThornton possui um vínculo sólido com o mundo corporativo e realiza pesquisas diversas dentro do mesmo, sendo que a quinta maior rede de consultoria e contabilidade do mundo inteiro. Essa sua pesquisa anual é de grande interesse para aqueles que (como eles) buscam promover uma maior inserção de mulheres em cargos de liderança, no entanto, eu sempre procuro alertar os outros para que não se curvem aos números. Porque são enganosos? Não, acredito que sejam confiáveis, no entanto podemos interpretar e discutir de diversas maneiras – certamente não é certo querer fazer algum tipo de medidor do machismo sueco, que isso determina a posição das mulheres suecas, seu nível de inserção, auto-afirmação, condição cultural, etc (talvez elas prefiram ser acadêmicas ou gestoras públicas?). Claro, isso também deve despertar em nós a percepção de que existem vários contextos culturais e econômicos que operam de maneiras distintas, sendo impossível falar num “medidor de machismo” ou assumir posições unilaterais. Não deixam de ser dados relevantes e, certamente, interessantíssimos.

Ranking

Fonte (com o documento do relatório):

http://www.grantthornton.global/press/press-releases-2015/women-in-business-2015/

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Vargas, corporativismo e espectro político no Brasil

VARGASMEME

Essas são anotações de um estudo do texto de Angela de Castro Gomes,  ” Autoritarismo e Corporativismo no Brasil: O legado de Vargas”  a partir dos quais eu pretendia escrever um breve artigo. No entanto, tomado por ocupações e deixando o texto de lado, tive algumas dificuldades para o seu fechamento, portanto encarem-no como incompleto – publico-o assim mesmo (as citações que não tem observação são do texto dela, as que só possuem página a mesma coisa).

(o texto ainda está sujeito a alterações, principalmente em sua formatação – ainda vou acertar as referências e colocar links para os livros)

Esses comentários buscam tratar de coisas como a história política do Brasil, o pensamento autoritário brasileiro e a apropriação de Getúlio Vargas no atual cenário político. No começo, faço observações sobre a direita brasileira e seus elementos que tentam co-optar Vargas. No meio dele, falo bastante sobre o conceito de liberalismo e sua influência na política brasileira, principalmente na política de esquerda. É mais nos apontamentos finais que descrevo o pensamento autoritário e corporativista, o que foi (em parte, já que eu não falo nem de desenvolvimentismo e nem de trabalhismo) o varguismo, ou melhor dizendo, o estado-novismo. Que tipo de ideias se articulavam no entorno de um novo “contrato social”? Como elas se relacionavam com a realidade política e o que é a figura de Vargas? Faço também algumas observações históricas, articulando a minha opinião e mostrando algumas ideias da época. É uma série de apontamentos rápidos, sem grande refinamento mas que considero de alguma relevância.

OUTRA DEMOCRACIA (NACIONAL E SOCIAL?) x AS DIREITAS BRASILEIRAS

“É importante entender que, devido à montante internacional do antiliberalismo, foi possível para o pensamento autoritário do período capturar a bandeira da democracia, preenchendo-a de sentidos inteiramente novos e encontrando ampla recepção, tanto junto às elites, como nas camadas populares da população.”

O seguinte vai descrever como essa apropriação da palavra democracia se dá em função de um eixo mais social do que político, isto é, voltado para consecução de certos direitos e transformações sociais, tendo uma ideia de modernização como referência. É interessante notar este fato no contexto da atualidade em que existem elementos de direita, completamente desligados do enquadramento mais convencional da memória de Vargas e do trabalhismo, procuram se apropriar da figura de Getúlio como um símbolo direitista relacionado a ideologias de “ordem e autoridade”, “um líder firme contra a vagabundagem”, retirando o conteúdo histórico do getulismo e colocando uma falsificação em seu lugar. Isso acontece quando, por exemplo, defensores do regime militar ou seguidores do deputado Jair Bolsonaro (legado ideológico desse mesmo regime) reivindicam de alguma forma a figura de Vargas. Muitos inclusive mantém em si o “senso comum neoliberal” ao lado de uma dose de autoritarismo, o que é um absurdo já que Vargas é um antípoda desse senso comum (para reforçar a ironia auto-vexatória alguns também homenageiam a figura de Eneias Carneiro), com uma concepção completamente distinta de “modernização” para o Brasil, mais próxima dos preconceitos pró-americanos de grandes facções das classes dominantes do Brasil. Outros, um pouco mais espertos e mais anti-liberais, quando não fascistas, homenageiam a figura do “grande líder Vargas” ao mesmo tempo que compartilham do discurso da direita brasileira hegemônica – isto é, é varguista por fora mas é um lacerdinha por dentro, desses que balbuciam grunhidos intespetivos contra o governo do PT. Esse tipo de coisa, porém, não é impressionante dada a dimensão titânica da figura de Vargas e sua importância para o Brasil, que é contraposta a carência de figuras históricas na direita brasileira – a reação no Brasil sempre poupou a direita de construir um tradição sólida e constituir sua trajetória, dependendo assim de coisas como a politicagem oligárquica ou a existência durante décadas do regime militar entreguista de 64. Ao mesmo tempo que alguns tentam se apropriar da figura de Vargas, ninguém fala nada sobre o pulha golpista e vendilhão Lacerda, mesmo que ele também tenha sido um grande político, de grande peso histórico, pro-ianque notável e importantíssimo articulador das hostes golpistas no nosso país. De qualquer forma, a incompatibilidade de Vargas com a nossa direita acontece devido a oposição desta a mudanças sociais (alguns podem argumentar que isso é ser de direita por definição), que, quando é autoritária, acredita num Estado que mantém a “ordem”, que não faz grandes mudanças, mas mantém as coisas em seu lugar – os ricos podendo usufruir de suas benesses, uma classe média tranquila e a pobreza controlada administrativamente para não incomodar os ricos (nem mesmo com sua presença – higienismo), se aproximando no máximo de uma utopia liberal-conservadora voltada para o mercado, onde o Estado garante com punho forte o individualismo econômico contra a horda de criminosos comuns e políticos (sim, porque a forma como tratam os “movimentos sociais vagabundos” é estabelecer um crime político), quer dizer, que TEORICAMENTE aprecia o liberalismo econômico mas despreza o liberalismo político, principalmente nos seus meios e formas (o Estado de direito pode ser um incoveniente para a realização da ordem que demanda ação enérgica contra um “povo vagabundo” que dá frutos horríveis). Qualquer adepto desse discurso de direita que aprecia Vargas corre o risco de estar fazendo um distorção enorme, sem perceber que na sua alergia a transformação social ele provavelmente manteria posições anti-varguistas, mais próximas da UDN e demagogos de direita, revoltados com os “vagabundos populistas e sindicalistas”.

Dito isso, voltemos ao texto:

“O significado histórico da palavra democracia, particularmente no caso da experiência brasileira, esteve associado à dimensão social e não política, o que permitiu a construção de um conceito aparentemente paradoxal: ‘democracia autoritária’. O Estado brasileiro pós-1930 pôde então se proclamar, franca e claramente, um Estado forte, centralizado e antiliberal, sem perder a conotação de democrático, isto é, justo e protetivo.”

A definição de democrático aqui, então, é “justo e protetivo”. O papel específico de Vargas aqui pode ser entendido não só através de influência das teses da direita anti-liberal no Brasil e no mundo (que foram bem recebidas dentro de sua sólida convicção jurídica no positivismo), mas através de seus diálogos com o socialismo e seu autor favorito, o socialista utópico Saint-Simon. O saint-simonismo vai aspirar a justiça social através da direção centralizada de uma elite de esclarecidos, cujo componente moral é importante, mas acima de tudo deve ser formada por técnicos e cientificos; uma elite de tecnocratas. Fortemente influenciado pelo evolucionismo e precursor das ideias positivistas (duas coisas que também seriam caras a Vargas), Saint Simon vai situar essa elite numa cultura de culto a ciência – a ciência como solução dos problemas do mundo (o que bem sabemos difere das ideias conservadoras, tanto as mais refinadas como aquelas vomitadas pelo senso comum). A formação do desenvolvimentismo no Brasil, bem descrito por Pedro Cezar Dutra Fonseca, também é crucial aqui, já que ao Estado cabe o papel não só de realizar alguma forma de redistribuição, mas a responsabilidade de superar o atraso.

Neste caminho, a autora prosseguirá expondo que essa constituição ideológica se dá em oposição ao liberalismo, expondo do que se trata esse liberalismo. Nesse momento, é possível trazer uma outra lição importante, urgente nos atuais debates políticos no Brasil, tanto na esquerda como na direita, que é entender corretamente o sentido da ideia liberal. Historicamente, liberalismo tem um sentido amplo, geral, que implica num conjunto de ideias formadas principalmente a partir da Revolução Americana e da Revolução Francesa. Apesar dele estar relacionado ao liberalismo econômico, podemos chamá-lo de liberalismo político para ter uma distinção mais clara. Possui uma infinidade de influências, especialmente do Iluminismo, o francês (Diderot, Voltaire, Montesquieu), o escocês (Hume), bem como seus desenvolvimentos posteriores, como Bentham, Mill e Kant (Hegel também, em parte); dentre os mais próximos da atualidade eu não poderia deixar de citar Kelsen e Bobbio como exemplos. Tem como ideias centrais a liberdade, a igualdade, a felicidade mundana, a representação, a soberania nacional (entendida aqui também como soberania popular), a divisão dos poderes, o fortalecimento da sociedade, o império da lei, a razão, a abolição dos privilégios, o indivíduo e o direito natural. Também é recorrente a ideia de bem maior para o maior número, desde que este não viole o direito natural ou os direitos do homem. Claro, nem todas essas ideias são exclusivas do liberalismo – o jusnaturalismo e a ideia de representação já podem ser encontrados antes dele. Alguns podem argumentar com a ressalva de que dentro desse fluxo de pensamento (ou uma parte dele) surge uma outra corrente mais ligada a Revolução Francesa, um republicanismo que não pode propriamente ser chamado de liberal (mais fiel a Rousseau e ao jacobinismo). A parte dessas ressalvas, o importante é a forma política que essas ideias vão tomar.

Descreve a nossa autora:

“…se pode dizer que, entre a década final do século XIX e aproximadamente os anos de 1920, um projeto de Brasil liberal, desenhado pela Constituição de 1891 e pactuado pela forma da política dos governadores (de 1902), ganhou concretude. Nele, a forma política idealizada dava precedência ao poder de um Estado, impessoal e racional-legal, fundado numa arquitetura institucional com partidos e parlamento, em que o indíviduo cidadão participava do poder e o limitava por meio do voto.” (pg. 72)

Sobre os problemas:

“As dificuldades para a consecução desse projeto foram rápida e fartamente proclamadas, sendo identificadas,segundo inúmeros diagnósticos, tanto na força do poder privado e na fraqueza do público, como na falta de educação e saúde do povo, aliás, por culpa das elites.”(ibid.)

(O atual discurso da direita debocha de críticas às elites, “culpa dazelite”, crente nos pilares do que chamam de meritocracia.)

LIBERALISMO

Explica que, de início, o modelo liberal vigente não sofreu grandes abalos e manteve-se ancorado no “paradigma clássico de moderna sociedade ocidental, e lançando suas raízes nas concepções políticas de fins do século XVIII, democratizadas ao longo do século XIX, amplamente aceitas internacionalmente”(ibid.). Depois de um tempo, no entanto, os pensadores param de tratar das “dificuldades” do projeto para falar da sua impossibilidade e indesejabilidade para o Brasil. O paradigma liberal “sofria críticas de uma nova orientação científica, traduzida quer pelos postulados de uma teoria elitista que desmascarava as ficções políticas liberais, quer pelos enunciados keynesianos”(pg. 73).

“Embora permanecesse de pé o ideal de autoridade racional-legal e de economia urbano-industrial, como signo de uma sociedade moderna, os instrumentos operacionais, vale dizer, as instituições políticas para construí-la e materializá-, sofreram mudanças substanciais. “(ibid.)

Ocorreu um afastamento do paradigma liberal clássico, “crescia o descompromisso com os procedimentos e valores liberais”, que podem ser descritos como:

“…a ideia de igualdade liberal, fundada na equidade política do indivíduo-cidadão portador de opinião/voto, foi contestada pela desigualdade natural dos seres humanos que, justamente por isso, não podiam ser tratados da mesma maneira pelo Estado e pela lei. Esse cidadão liberal (…) era uma ficcção, como eram os procedimentos a ele associados: eleições, partidos políticos, parlamentos, etc.”(ibid.)

O significado de liberalismo para a direita brasileira não é nem social e nem político, mas restrito a um campo econômico. A rigor, grandes setores da esquerda no Brasil que são os maiores representantes da ideologia liberal, não a direita, que geralmente representa modalidades distintas de pensamento reacionário O PSDB, de fato, também é construído em função dessa ideologia liberal, mais até do que o PMDB (mais genérico, oportunista e, de certa forma, conservador, ainda que historicamente seja preenchido por algumas alas de esquerda), porém ele continua sendo um grande repositório de votos e eco do discurso do senso comum de direita no Brasil, ou seu discurso hegemônico, supra-partidário – o discurso que estamos acostumados a ver de diversas formas, que manifesta, por exemplo, um ódio ou uma grande alergia por movimentos sociais e até por organizações coletivas em geral, desconfia de uma série de características de um Estado democrático de direito e acredita na repressão como solução para problemas sociais. O PP de Maluf (um gestor que representa bem a ideia de conflito social = questão administrativa-policial), casa de Bolsonaro, representa bem esse discurso, é a “extrema direita” da política institucional, é um partido que vê os Estados Unidos com olhos brilhantes, mas que sabe o nosso “povo humilde” precisa de uma mão firme (provavelmente enxergam o povo como macacos), que precisamos de homens de terno formados em Chicago no governo, mas ao que mesmo tempo reconheçam o valor do populismo e o recurso sagrado da força policial (“ROTA na rua!”) – tem um estilo muito similar daqueles ditadores militares de repúblicas bananeiras que mantinham uma relação próxima de amizade com os Estados Unidos (especialmente com figuras do meio corporativo). O PSC, casa do famigerado Pastor Feliciano e muitos outros, mistura o discurso social-repressivo com a fé na repressão religiosa, sem se importar com os incômodos do secularismo. Como dissemos anteriormente, a grande experiência que engendrou a ideologia direitista do Brasil foi o regime militar de 64, além do papel desempenhado por gurus midiáticos, figuras públicas mal intencionadas e a formação norte-americana de alguns dirigentes. Por mais que os direitistas comprometidos adorem o Partido Republicano dos EUA e reproduzam animados nas redes sociais os discursos de seus candidatos, eles não tem nada a ver com o esse partido, assim como não tem nada a ver com o Tories ingleses, menos populares (em parte talvez pelo caráter menos demo-republicano e menos espetacular da política britânica).

Ainda que possam criar ressalvas apontando, por exemplo, fontes variadas na formação do PT (a nova esquerda, a doutrina social católica…) ou a influência do marxismo, o discurso hegemônico que a esquerda reformista vem construindo no Brasil, o discurso supra-partidário, é o discurso da realização dos preceitos básicos do Estado de direito, de realizar a “utopia democrática liberla”. Não é por acaso que existe uma grande ênfase no exemplo das sociedades europeias, como quando um certo comediante declara que “na sociedade em que o sujeito não lava a própria privada, ele também não pode abrir o notebook no metrô” – é essa esquerda que aspira singelamente a “poder abrir o notebook no metrô”, “como fazem na Europa”, “como eu fazia quando estive em Paris”, que enxerga as hipocrísias do sistema brasileiro, que quer corrigir essas hipocrisias, de maneira que o poder público “junto com a sociedade civil” possa contribuir para a superação das mazelas sociais através do direito e de certa forma alcançar um pacificação social, que é a grande motivação dessa esquerda no fim das contas. Não me impressiona que isso seja tão verdade no caso da esquerda carioca, mas é um discurso que ultrapassa fronteiras partidárias e geográficas, é o discurso favorito da esquerda para disputar o “espaço público”, para argumentar contra a direita, basta ler algum site, semanário ou noticiário na esquerda (desde Carta Capital até Pragmatismo Político, Diário do Centro do Mundo, Leonardo Sakamoto, etc). Quer dizer, eles acreditam no liberalismo, ou no liberalismo político, ou no demo-liberalismo, acreditam no reto caminho do direito para realizar a tal utopia individualista liberal, fiéis a todos os princípios e instituições do liberalismo. Mais do que isso, existe toda uma rejeição da esquerda socialista e/ou revolucionária com base em fidelidades liberais, tendo como ótimo exemplo o discurso público do parlamentar Jean Wyllys, do PSOL. Os petistas acreditam que estamos no caminho de ser um país próspero, uma democracia consolidada, apontam para a Europa como nosso futuro, versam sobre direitos políticos e comemoram a ampliação do consumo. O petismo é o nosso ordoliberalismo. Outra demonstração de compromisso liberal é quando dizem que Jair Bolsonaro é uma aberração numa democracia que será superada quando “nossa sociedade ficar mais madura e perceber essa incompatibilidade”. Se antes a Europa vinha a nós, agora nós vamos até a Europa! Mas se antes era a Europa dos reis e das pragas, agora sonhamos com uma Europa de paz social, educação pública de qualidade e consumo conspíscuo! Na verdade, no mundo todo (ou melhor dizendo, no Primeiro Mundo?) podemos dizer que uma grande parcela da esquerda institucional é formada pelos “verdadeiros defensores do liberalismo”, pelos fundamentalistas liberais, crentes numa ideologia de democracia, igualdade e liberdade. A direita porém aparece muitas vezes como o grupo daqueles dispostos a sujar as mãos, a dar um jeitinho para realizar algum objetivo (menos quando governa em períodos estáveis ou, sendo a situação, lutando contra o fantama da oposição esquerdista que quer violar as liberdades econômicas de forma autoritária para realizar projetos distributistas). Ainda assim, nos concentremos no Brasil, já que aqui isso é mais claro já que você tem um outro tipo de direita e onde a distância entre o discurso liberal e a realidade são muito maiores, o que aumenta a convicção dos esquerdistas.

Voltando para Vargas, diferentemente dos esquerdistas de hoje, as discrepâncias entre o discurso liberal e a realidade brasileira não reforçou as convicções liberais, mas o que se passou a colocar-se em jogo é a ideia de construção de uma modernidade alternativa através de mecanismos que fortaleciam o Estado. Diferindo da dogmática liberal e num ponto de semelhança com a esquerda que discutimos até então, mas de total oposição a nossa direita, o Estado deveria intervir diretamente nos assuntos econômicos e sociais, porém indo um pouco além do que chamaríamos de uma gestão de políticas públicas, assumindo um papel mais decisivo e diretor dos processos sociais. Ao mesmo tempo nós temos um processo de modernização básica da máquina institucional, a começar pela centralização.

PENSAMENTO AUTORITÁRIO

“Tratava-se, pela primeira vez no Brasil, de edificar uma arquitetura de Estado nacional moderno que ampliava suas funções de intervencionismo econômico e social; ao mesmo tempo que montava uma burocracia tecnicamente qualificada e impessoal, segundo moldes weberianos. Porém, no mesmo movimento, esse Estado se personalizava na face de Vargas, a figura carismática encarregada de conduzir o processo de mudança e assumir as novas tarefas que cabiam ao Executivo, antes as crescentes críticas ao Legislativo. (…) o Estado autoritário e democrático dos pós-1930 é tanto uma ‘modernização’ das tradições do poder privado e do personalismo caros à sociedade brasileira, como uma afirmação do poder público, por meio de uma burocracia (impessoal e técnica) e de um modelo alternativo de representação política: o corporativismo.”(pg.71)

Mal compreendendo o imperativo de um Estado forte e centralizado no seu contexto, alguns jovens de esquerda falham em ver o papel modernizador e progressivo do varguismo (erros que esquerdistas mais velhos nem sempre cometem). A intervenção servia para suprir o abismo existente entre a vigência da lei e a ideia de justiça, justiça que o Estado deveria assegurar mas não fazia – a lei servia para encobrir uma série de injustiças, estas que eram especialmente promovidas e praticadas por elites locais, agrárias e oligárquicas.

“Dito nos termos das análises do período, era preciso romper com o artificialismo político republicano, que postulava normas inaplicáveis à realidade brasileira e, o fazendo, combater o arbítrio expresso no caudilhismo e em seus derivados: o clientelismo e o personalismo de nossa organização política. Era preciso ultrapassar a dicotomia entre Brasil legal e Brasil real, sendo a centralização do Estado o caminho para a nacionalização e a modernização do poder público no Brasil.”(pg. 74)

A autora observa que existia um ambiente muito rico de ideias antiliberais no Brasil e no mundo, corretamente situando a sua análise nos pensadores autoritários brasileiros vinculados ao Estado Novo, e é partir desses que ela vai falar em corporativismo. “Antiliberalismo” não deve ser tido como sinônimo de fascismo, então. A autora ainda pontua que outros antiliberais que se apresentavam no Brasil daquele tempo: o da Ação Integralista Brasileira de Plínio Salgado, o do Partido Comunista Brasileiro e o da Aliança Nacional Libertadora (dirigida por este último partido, mas um projeto político a parte). Quando ela fala em “corporativismo”, ainda que seja um conceito com direito a um existência independente e abstrata, não está falando nem de Salazar, nem de Mussolini, está falando de Oliveira Vianna, que vai fundamentar o corporativismo brasileiro a partir de uma análise da história do Brasil.

Ao buscar características fundamentais do Brasil, Oliveira Vianna formulará o conceito de insolidarismo. Essas características atrapalham a formação de um espaço público no Brasil e cabe ao Estado cumprir sua função modernizadora de maneira centralizante, neutralizando os caudilhismos, e para isso era necessário romper com artificialismo político-jurídico do liberalismo que confrontava diretamente nossas tradições, dando vazão para suas manifestações mais negativas. Dentro de um país dominado pelos caciques locais, pelos caudilhos para usar o termo de Vianna, o liberalismo só poderia reduzir a governabilidade do Estado e ampliar suas fragilidades institucionais, impossibilitando a realização de um projeto nacional. Os atores privados (as oligarquias), além de muito poderosos, não cooperavam e nem eram forçados a tal, não abandonando seus interesses de curto prazo em prol de um horizonte mais amplo no tempo e no espaço. As instituições políticas eram fracas, esses fatores impediam a formação de um verdadeiro espaço público e se carecia de uma autoridade centralizadora incontestável.

Essas demandas vão servir de referência para Vargas e de forma mais radical para o Estado Novo, que irá enquadrar as elites locais, privar as oligarquias de seus mecanismos de poder político e feudos locais. A resposta de Vargas é, obviamente, distinta de uma resposta mais radical como a comunista, que implicaria num processo revolucionário de extirpação dessas classes, a começar pela sua expropriação (e possivelmente em muitos casos prisão ou fuzilamento como formas de justiça por males cometidos contra a população). O que Vargas vai fazer é buscar integrar elementos das elites no seu novo quadro institucional mais centralizado, mesmo que isso nem sempre aconteça e esses elementos locais devam se contentar com seu poder econômico e social, o que o varguismo vai endereçar as enfraquecendo socialmente através do processo de industrialização (há um fortalecimento das elites urbanas – na verdade, de todas as classes urbanas, operárias, médias e burguesas). A perda dos mecanismos politicos do poder “caudilhesco” também contribuíram, claro, para o enfraquecimento social dessas elites, já que esse poder político cimentava seu poder econômico – é interessante dar uma olhada em como as elites agrárias de Pernambuco dominavam o parlamento daquele Estado, conseguindo todos os privilégios possíveis e melando até as tentativas mais tímidas de criar-se mecanismos de crédito para fomentar o desenvolvimento industrial (isso pode ser aprendido lendo a biografia de Francisco Julião escrita por Cláudio Aguiar). Em contrapartida, é importante ressaltar que, ainda que na política Vargas atacasse elites essencialmente rurais no seu projeto centralizador e obrigasse as elites burguesas a ceder maior parte do produto social para o proletariado, Vargas não alterou praticamente nada das estruturas rurais do país, o que gerou um desenvolvimento distorcido e dificulta falar em “revolução burguesa no Brasil”. O campesinato, a época maioria suprema e inquestionável da população brasileira, antro dos maiores miseráveis e dos mais dependentes, não foram contemplados no esquema corporativo que descreveremos em mais detalhe a frente. Não se beneficiaram dos direitos trabalhistas e eram no máximo considerados enquanto uma massa de futuros operários num Brasil em constante industrialização (como se depois disso pudessem deixar de ser cidadãos de segunda classe) ou possivelmente repositórios de projetos de educação, beneficiários indiretos de um “novo Brasil”. O varguismo, na medida em que marginalizava os opressores do campo, também dispensava os oprimidos rurais, só mais um elemento de uma parte atrasada da economia brasileira (o setor rural era visto como fardo para os desenvolvimentistas).

Eram necessárias formas novas de representação, a constituição de um Estado forte, capaz de afirmar o público em seu confronto com o privado. Aqui entram outros dois grandes autores antiliberais do Estado Novo: Roberto Campos e Azevedo Amaral. É importante notar que ambos representam em alguns momentos algumas das ideias mais radicais do autoritarismo antiliberal brasileiro, nem todas adotadas pelo Estado Novo e até combatidas por outros componentes, entre eles moderados provenientes da velha política oligárquica e ideólogos das Forças Armadas.

“O irracional é o instrumento de integração política total, e o mito, que é a sua expressão mais adequada, a técnica intelectual de utilização do inconsciente coletivo para o controle político da nação. (…) Somente o apelo às forças irracionais ou às formas fundamentais de solidariedade humana tornará possível a integração total das massas em um regime de Estado.”(Campos, 1940, p. 12) pg. 275

” O único partido admissível no atual regime é o partido do Estado e, como este se acha identificado com a coletividade nacional esse partido é constituído pela própria Nação.

(…)

Outro corolário decorre das configurações especiais do novo Estado brasileiro. Se a Nação e a organização estatal formam um todo indissolúvel e se o Estado é o órgão de expressão da consciência e da vontade do corpo nacional, e claro que dele deve partir a direção da política. Mas, no Estado autoritário, o eixo da sua organização estrutural e o foco de irradiação do seu dinamismo é o próprio Chefe da Nação.”

A grande nova forma de representação seria o presidencialismo plebiscitário. A autoridade do Presidente deveria se converter na autoridade máxima de todo país e o cargo deveria incorporar toda a representação, responsável pela coordenaçãode toda iniciativa política do Estado. Os partidos políticos e os parlamentos eram vistos como lentos, custosos, corruptos, ineptos e manifestações de conflitos sociais, mais precisamente oligárquicos, materialização do “insolidarismo”. Eliminavam-se corpos intermediários, mantendo-se somente formas de representação técnicas e profissionais (corporativismo). Os representantes então teriam “a verdadeira vivência do mundo social” e poderiam passar para o presidente sua experiência direta do mundo do trabalho.

Podemos dizer, então, que não há liquidação total de mecanismos de representação, mas a substituições dos velhos mecanismos liberais por outros, corporativos. O povo não estaria sujeito nem a “divisões políticas” mas estariam integrados no Estado através de associações profissionais, sindicatos, que se converteriam em instituições de direito público, ganhando recursos de poder, legitimidade política e atuando por delegação estatal. A consequência lógica é a existência de um monopólio da representação por sindicatos estatais integrados numa estrutura única e hierárquica. A tutela e a unicidade são essenciais para criar um mecanismo não da classe, mas do “povo”, dessa maneira todos sem exceção deveriam pagar o imposto sindical. Obviamente, há uma expansão do espaço público, porém como canalização de interesses privados, que não deveriam ser propriamente “unificados” ou “suprimidos”, mas deveriam ser organizados numa estrutura e estar sujeitos a um arbitrio estatal. Não havia espaço para competição política e há um grande nível de hierarquia. É importante ressaltar, também, que ainda que os empregadores tenham sido obrigados a fazer concessões nos direitos trabalhistas, eles desfrutavam de uma maior autonomia e espaço de influência que os empregados, inclusive não perdendo suas antigas associações – os empregados foram mais sujeitados e enquadrados na tutela, mais dependentes do Estado, ainda que tenham reconhecido nele um defensor de seus direitos.

Voltando ao presidencialismo maximalista ou imperial, uma das grandes preocupações de Campos para formular sua posição é a ascensão da sociedade de massas, das grandes concentrações urbanas. Para ele, essa nova realidade e as crise que ela implicava liquidava, por si só, o liberalismo enquanto possibilidade. Essa crise se caracteriza pelo grande poder das massas que vem aliado de uma grande irracionalidade. Essa sociedade tendia a problemas que iam desde ao caos a inércia provocada. Ao mesmo tempo falamos de uma sociedade industrial é cada vez mais complexa e precisa de uma boa administração técnica, gerando uma contradição fatal aos olhos de Campos. Junto desses problemas mais gerais da civilização, Campos também pensava nos problemas da formação brasileira conforme descrevemos acima (falando em Oliveira Vianna). Numa sociedade de massas sensível a imagens e mitos, era necessário criar um mito unificador através do Estado, isto é, recorrer a uma imagem de grande carga emocional. Campos cita abertamente Sorel e dá um nome a esse imagem poderosa de mito (isto é, ele mesmo usa a palavra enquanto conceito). Essa imagem seria reconhecida pelas massas e neutralizaria seu potencial negativo. O mito da nação, tão querido do século XIX, enfraquecera e deveria ceder um mito solar da personalidade. Ele argumenta que isso ocorre porque o mito da personalidade é constituído por um portador concreto e elementos de sua experiência imediata, portanto com maior expressão simbólica do que mitos que dependem de maiores abstrações ou de construções mais intelectuais de inferências. “A política de massas é a mais pessoal das políticas”, “não é possível nenhuma participação ativa das massas na política na qual não resulte a aparição de um César”(Campos em 1940, citado por Ângela de Castro).

O poder é forte, concentrado e pessoal. Na República Velha existia um presidente, mas ele era “fraco”, só depois de 1930 cria-se a mística do Chefe de Estado com materialização do poder público diretamente apoiado pelo povo. Aqui chegamos num ponto crucial a ser refletido: apesar do elã modernizador e publicista do varguismo, não existe uma oposição total entre moderno e arcaico, na verdade, “público e privado, moderno e tradicional podiam se combinar de forma vigorosa e efetiva”. A expansão do espaço público conforme pregada por Oliveira Vianna poderia se dar e provavelmente se daria através de lógicas privadas (como vemos na personalização do presidente e no estabelecimento do corporativismo). Campos via em recorrer aos poderes do irracional e do passional como a melhor garantia para o estabelecimento daquilo que era racional e técnico. A tradição do poder pessoal era recuperada em prol da modernização.

“Tal possibilidade resolvia um impasse crítico, colocado tanto pelos diagnósticos sociológicos da natureza da formação nacional brasileira, como pelas complexas questões filosóficas do século XX: (…) racionalismo e irracionalismo, objetividade e subjetividade, legalidade e realidade, governo e povo, elites e massas. (…) não era necessário desistir da razão para se comungar com a vida social. Entre a frieza e o impessoalismo dos procedimentos legais burocráticos – o absolutismo da razão – e os excessos personalistas da ambição e do desejo – o despotismo da emoção – situava-se o Estado Novo. A obra do governo Vargas, com o destaque para o social-trabalhista, era apresentada como testemunho desse equilibrio perfeito.” (pg. 88)

Vargas encarnava o mito do herói político no tempo dos grandes estadistas, com sua intervenção e seu gênio sendo fundamentais para a obra do Estado. Vargas teria liquidado as ficções liberais ao se juntar a própria índole do povo brasileiro, assim como ao mesmo tempo era povo e patriciado – ele mantinha as qualidades dos “grandes homens” que até então não se dedicavam a obra nacional, porém também se identificava com o “homem brasileiro” simples e dotado de sabedoria de rua (o que era bem traduzido em marchinhas e piadas bem humoradas envolvendo a pessoa do presidente, sabiamente manipulados pelo Departamento de Informação e Propaganda). Mais do que isso, ele seria o “primeiro verdadeiro estadista” e, para alguns, dotados de noções elogiosas de monarquia, o primeiro monarca. O tipo de sociedade “estabelecida” ou melhor dizendo aspirada, pelo menos conforme se desenhava nesse novo contrato, era um que não era nem hierárquica tradicional, verticalista, nem “libera, individual, racionalista e materialista”. O que permitia essa harmonia era uma comunicação direta e afetiva entre povo e presidente. Vargas, além de “chefe”, era o “pai”; o Estado-Novo recorria constantemente a imagem da nação como família (uma imagem tradicional), onde, é importante ressaltar, os chefes sindicais eram como “irmãos mais velhos”. A política devia ser dominada por um laço afetivo, onde todos compartilham um destino comum.

“…encontro entre lei e justiça, força e temperança, (…) separadas na história do povo brasileira mas presentes no novo chefe da nação. A relação política (…) funcionava como um sistema de prestação total, troca generalizada, que não distinguia entre o interesse e a obrigação moral. Dessa forma, a política não era definido como negócio de mercado, em que tudo tem um preço e, no limite, não há valor ou ética”. (pg. 90)

A essas considerações, se assomam ressalvas contra o totalitarismo (similares a outras ressalvas conservadoras mas com características brasileiras), pensadas especialmente em função do fascismo (contra o comunismo não seria necessário “alertar” porque entre os autoritários já haveria um consenso de que este “suprime a personalidade humana” através da supressão da propriedade, arrasa o tecido social com violência, eleva “instintos ruins nas massas”, etc). A ênfase no caráter familiar, na figura da autoridade paternal, deveria afastar as tendências militantes e totalitárias, que “submetessem o indíviduo” ou exigissem algum tipo de mobilização. A sociedade deveria desfrutar de uma “normalidade” conforme costumamos entender (em termos conservadores) e o Estado deveria respeitar o “conteúdo humano da sociedade brasileira”. A sociedade não deveria ser um projeto político, mas uma comunidade de valores culturais e espirituais, que conseguisse abarcar diversidades regionais e individuais sem destruí-las. Assim como recorriam ao “caráter brasileiro” e sua “mentalidade ibérica” para atacar o liberalismo, falando da forte presença de valores espirituais para além da preocupação com dinheiro (o que, aliás, teria nos salvo da experiência de uma modernização violenta e da cupidez extrema), essa mesma lógica seria utilizada contra o argumento antiliberal que rejeitava o individuo, “expresso no poder absoluto da necessidade coletiva e da nação como supersujeito totalizador”(pg.90). “Se o individuo não imperava, também não se tratava de fazer o elogio do Estado totalizador, tão em voga na década de 1930″ (pg. 91). Na nova coletividade nacional não caberia a lógica do individualismo, o individuo deveria perder atributos egoístase maximmizadores (atributos que estariam relacionados mais com “fenômenos cosmopolitas” e nas políticas de luta de classes de empregados e empregadores), “sem perder a possibilidade de se expressão como pessoa humana”. Há uma forte diretriz católica aqui e essas ressalvas seguem a mesma lógica do catolicismo de direita ao fascismo, mas curiosamente esses autores não fazem parte da política católica* e parecem ter seguido um caminho próprio. Seria algo mais próprio, talvez, de uma “mentalidade” católica. Vargas, de qualquer maneira, seria a resolução desses conflitos, como “pessoa maior” que encarna o Estado e a nação, mantendo as hierarquias ao mesmo tempo que possui um caráter “familiar”.

*Existe uma presunção burra de alguns europeus de achar ou sugerir que houve algum “seguidismo brasileiro” em relação a Portugal no que concerne ao Estado Novo daqui ser uma “cópia” do Estado Novo de lá. Semelhanças entre as lógicas corporativas existem, assim como existem diferenças abismais e não houve propriamente uma emulação. Uma das grandes diferenças é a relação de Salazar com o catolicismo. O caso mais estapafúrdio dessa presunção europeia foi quando alemães lançaram um “super trunfo de ditadores” em que Vargas era chamado de “clerical-fascista”.

A visão presidencialista plebiscitária é um capital político tão grande que se mantém até hoje na mentalidade e no sistema político brasileiros.

——–

Vargas privou essas elites de seus órgãos de poder, de seus direitos políticos, suas organizações, tirou delas seus parlamentos regionais, seus poderes estaduais. A compensação foi que muitos de seus intervetores diretamente nomeados transitavam com facilidade nos meios oligárquicos, que agora tinham que acessar o interventor, dependendo de sua relação com este que concentrava os poderes a nível estadual e respondia ao Presidente Vargas. Desta forma, ainda que tivessem uma situação favorável de acesso aos espaços de poder, deveriam se subordinar a um poder público, burocrático e centralizado; Vargas de certa forma canalizou a lógica clientelista em função de um único funcionário público do executivo, ela que antes era pervasiva e multi-direcional, florescendo em vários pontos principalmente graças ao poder legislativo e sua multiplicidade de posições. Enquanto procurava domar as elites, Vargas procurou um contato com as massas populares para assentar seu poder em maiores garantias, o que era uma novidade e deu a estas um novo espaço dentro da sociedade, inclusive do ponto de vista político. Dessa maneira, ele também buscava conter as explosões revolucionárias que poderiam nascer do seio do povo, aquelas mesmas que o Partido Comunista poderia muito bem explorar.

Naturalmente, essas pressões e coerções do varguismo geraram um sentimento de desconfiança e revanchismo por parte de diferentes espectros das elites, que viram em Vargas seu algoz. O discurso seria o de defesa da democracia, da liberdade e do republicanismo, contra o tirano Vargas – “César deve morrer”. Quem melhor representava esse discurso era a UDN. O estrago foi tanto, que mesmo o PSD criado por Vargas pra abrigar os elementos oligárquicos que foram ligados ao Estado Novo e, claro, produto da intenção de Vargas de manejar a nova política democrática, se voltou contra o seu criador e seria um adversário sério do PTB, também filho de Vargas, esse mais querido pelo pai, feito para ser o “partido do povo” e casa do getulismo. A intenção de ter no PSD uma criação subordinada e fisiológica falhou logo de início, como ficou demonstrado no comportamento de Dutra. O Presidente Dutra seria fundamental numa “americanização” de quadros das Forças Armadas, e ele junto com as elites militares seriam fundamentais nas duas quedas de Getúlio.

A volta dessas elites para seus poderes locais e prerrogativas nacionais dentro de uma democracia “pluralista” (que Vargas tentou, em vão, administrar com métodos como o clientelismo de um lado e o populismo de outro). Certamente podemos dizer que foi uma derrota para o projeto corporativo. No entanto, Vargas conseguiu impor algumas vitórias após 1945, integrando massas que anteriormente não faziam parte da política, obrigando as velhas elites a fazer uma nova forma de política num novo tipo de Estado – eram outros tempos, e bem ciente disso a direita criou seus ídolos populistas como Lacerda. Existia um espaço público mais forte e consolidado do que aquele que existia antes de 1930. Acredito que o reforço de movimentos populares, o Partido Comunista e o papel desempenhado pelo Partido Socialista se relacionem com essas mudanças na vida política. Além disso, o elemento corporativo, considerado isoladamente, se mantém na constituição de 1946.

Nós podemos pensar antes do fracasso representado pelo PSD e verificar se não é o próprio Estado Novo que fracassou nas suas pretensões corporativistas, de conciliação de classes, controle das classes dominantes e enquadramento dos conflitos sociais. Não vimos o Estado Novo ruir por causa de uma pressão vinda das classes populares (como o fator Segunda Guerra pode sugerir), mas principalmente por causa de uma mobilização das classes dominantes. As elites queriam assumir o poder político e se ver finalmente livres daquele César, daquele Bonaparte. A imagem de tirano populista só aumentou no imaginário direitista na medida que Vargas, provavelmente motivado por essas razões, flutuou para uma política mais popular e trabalhista. Paulo Schilling argumenta que o próprio Vargas, pessoalmente, em suas ideias, superou gradualmente Se pensarmos no grande oportunista supremo maquiavélico que alguns dizem que Getúlio era, ele corretamente viu que suas esperanças políticas e suas ambições de poder agora repousavam mais na capacidade dele de apelar para os trabalhadores do que em qualquer tentativa fútil de ser aceito entre as elites. Em nome do poder era necessário atuar a partir do trabalhismo e conciliar sempre que possível, ceder na medida que seus adversários entendessem que Vargas era um incoveniente inevitável (e isso de certa forma não vale só para a direita, mas para os comunistas). Mesmo assim, as elites reacionárias estavam tão inconformadas com a presença de Vargas na política que sua articulação por um golpe culminou no suícidio do estadista em 1954.

A parte das considerações sobre a inviabilidade ao longo prazo do projeto estado-novista e sobre os inexoráveis fatos que a história nos mostra (o Estado Novo não durou muito e o próprio Vargas superou o estado-novismo), temos que ter em conta que o corporativismo e a ideologia autoritária buscam justamente solução para esses conflitos.

Angela de Castro Gomes, Autoritarismo e Corporativismo no Brasil: O legado de Vargas em “A Era Vargas, Desenvolvimentismo, economia e sociedade”, org. Bastos, Pedro Paulo Zahluth e Fonseca, Pedro Cezar Dutra. UNESP, São Paulo, Edição 1.

Azevedo Amaral, “O Estado Autoritário e a Realidade Nacional” http://bdjur.tjce.jus.br/jspui/bitstream/123456789/118/1/AMARAL,%20A%20O%20estado%20autorit%C3%A1rio.pdf

“Os Intelectuais do antiliberalismo: alternativas a modernidade capitalista” , Limoncic, Flávio e Martinho, Carlos Palomares, Civilização Brasileira….

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Jean Wyllys e o “jornalismo de esquerda” que não sabe fazer polêmica (uma resposta ao DCM)

Por André Ortega

Saiu no Diário do Centro do Mundo um texto assinado por seu diretor editorial, Paulo Nogueira, com o título: “Por que tanta indignação contra Jean Wyllys?” (que foi para Israel)

Ele já começa apontando que existem pessoas melhores que Jean Wyllys para se indignar, figurões da “direita”, mas que mesmo assim os “revoltados” atacam Jean Wyllys injusta e quase que gratuita, recriminando seus críticos.

Ele começa:

“Os ataques a JW derivam de sua visita a Israel, a convite de uma universidade local.”

Antes de ir mais fundo, já que os ataques não derivam só disso, vamos explicar melhor de onde veio esse convite. Jean Wyllys, apesar de ter furado um boicote acadêmico em plena Jerusalém ocupada, não foi simplesmente “a convite de uma universidade local” (por acaso financiada pelo Estado de Israel). Vamos ver o que os sionistas tem a dizer sobre isso em uma postagem da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro e um artigo no Menorah nos informam (e o que, na verdade, não é segredo):

FIERJ
Link da postagem: https://www.facebook.com/fierj.federacaoisraelita/photos/a.567020183426897.1073741825.567020110093571/792623254199921/?type=3&theater

“Iniciada e custeada”. A iniciativa vem sim de setores sionistas interessados em co-optar Jean Wyllys para a causa israelense, nesse caso “sionistas de esquerda” que são próximos ou atuam dentro do PSOL, contradizendo o discurso inocente do parlamentar reproduzido pelo diretor editorial. No Menorah, o direitista cospe-chamas Victor Grinbaum explica a estratégia de co-optação cultural dos sionistas, cita a FIERJ e acrescenta:

“Seu cicerone é o jovem Guilherme Cohen, um militante do PSOL que vem despontando em algumas entidades judaicas com pretensões políticas.”

E prossegue com uma verdade relevante:

“Existe uma facção de judeus brasileiros, todos militantes de partidos da esquerda BRASILEIRA, que faz um mishmash entre as políticas brasileira e israelense. E que adotam esse discurso – eles juram que isso é pacifismo e progressismo – cretino de que a culpa do Conflito Árabe-Israelense é todinha do atual gabinete de centro-direita que governa Israel.”

Conclui, muito corretamente, que o conflito árabe-israelense tem raízes MUITO MAIS PROFUNDAS do que o atual gabinete. Na sua intenção de exorcizar o espírito de Wyllys de dentro do sionismo, o texto exagera e diz que no passado este compartilhava o discurso de “igualar sionismo e fundamentalismo islâmico”, chegando a sugerir ironicamente que Wyllys achava que sionismo e nazismo eram a mesma coisa. Vamos lembrar que, além de já ter a proximidade dos sionistas cariocas do PSOL e um sionista (ou filo-sionista?) entre seus assessores (o famoso Bruno Bimbi), Jean Wyllys já lançou em sua página, no dia 8 de Agosto de 2014, posições não muito distantes das que repete hoje.  Nesta ele inclusive diz que “jamais cometeria a burrice de chamar de ‘nazista’ um Estado fundado por judeus”(bom, judeus já fizeram isso porque sabem o valor de uma comparação – vide Filkenstein – ou podemos lembrar de quando o líder da Haganah, Eliahu Golomb chamou em dezembro de 1944 os partidários do Irgun de “nazistas judeus”), mas nos concentremos no que nos dá uma prévia daquilo que ele gritaria durante sua viagem:

“Eu Jamais poderia ‘unir forças’ com o Hamas ou me solidarizar com ele, já que considero o Hamas uma organização terrrorista, criminosa e assassina que oprime seu próprio povo e usa as crianças palestinas, sim, como escudos humanos, da mesma forma que usa hospitais e escolas para esconder mísseis e armamentos.

(…)
Para quem divide a vida em preto e branco, deve-se estar do lado do Hamas ou do lado do Netanyahu. Eu não penso assim, logo, não estou do lado de um nem do outro — e acho que eles, de certa forma, estão do mesmo lado, que é o lado da manutenção da guerra até a eliminação total do outro.”

Início da postagem de 2014 de JW.

Início da postagem de 2014 de JW.

Lembremos que uma das críticas dirigidas por Milton Temer a JW é por ter cedido a “lavagem cerebral conservadora” quanto ao Hamás. JW repete os discursos que mais criminalizam um dos maiores partidos políticos e movimento de resistência da Palestina, repetindo o discurso que os israelenses usam para justificar a morte de crianças palestinas e o bombardeio de escolas e hospitais (talvez por lembrarem de seus tempos de Haganah em que de fato escondiam armas em escolas, como relembra Shimon Peres em suas memórias). Essa coincidência é inconsequente e cabe lembrar que o Hamás não é considerado organização terrorista pelo Estado brasileiro, o que se agrava a situação de se ter um parlamentar “de esquerda” disposto a prejudicar a resistência palestina e prejudicar uma parte dos refugiados e descendentes de palestinos no Brasil. Jean Wyllys não faz falta como sionista – nós já temos um deputado sionista nervoso que transita há anos nas nossas comissões parlamentares ligadas a defesa nacional, e o nome dele é Jair Bolsonaro.

Aqui já começamos a ir mais além e vemos que Jean Wyllys não é tão inocente em suas posições. Não estou dizendo que “é necessário apoiar o Hamás”, estou dizendo que a questão não é tão reduzida como Paulo Nogueira dá a entender. Diz o fundador do DCM:

“JW foi a Israel apoiar o governo local? Não. Foi criticar os palestinos? Não. Foi defender a ocupação? Não.”

Será que não? Paulo Nogueira omite o debate e as posições lançadas por Jean Wyllys durante sua viagem, sugerindo que os críticos são cães raivosos guiados por motivos escusos (como fez o próprio Jean Wyllys). Não é preciso estudar teorias da comunicação (como fazem os jornalistas) ou semântica para saber que discursos implicam num mundo de significados e merecem atenção. Uma coincidência do discurso de Jean Wyllys com o discurso de uma parcela do sionismo, dos defensores do Estado de Israel, não pode ser “só uma coincidência” livre de implicações políticas e ideológicas, não acontece por acaso e não é livre de consequências, como demonstramos ali em cima no exemplo do Hamás.

Como diz um dos críticos, Alessandre Argolo, explicando o que há por trás desse debate:

“ De forma surpreendente em sua megalomania, pretende afirmar a verdadeira situação a partir de parcas experiências que remetem à mais manjada propaganda sionista que distorce os fatos (marca tradicional dos argumentos sionistas beligerantes é sempre ter uma explicação “aceitável” ou “justificativa” sobre os massacres e crimes que perpetram). Jean Wyllys é sionista (defende a existência do Estado de Israel no Oriente Médio, como pregava os sionistas seminais) do tipo que enxerga legitimidade na ação “defensiva” israelense. Ele apoia essa ideia e está difundido isso entre os seus leitores no Facebook.”

Como observa Alessandre Argolo, o discurso de JW é o mesmo de sionistas beligerantes que militam na Internet recorrendo exatamente aos mesmos argumentos do “direito a existêcia de Israel”.

Não adianta fazer como Jean Wyllys em 2014 que condena “o Exército de Israel e seus bombardeios” ao mesmo tempo que difunde os memes ideológicos que justificam essa ação e justificam o próprio sionismo, reduzindo o problema a uma “política de governo” da direita israelense, e não a contradição fundamental entre uma força colonizadora opressora e uma nacionalidade oprimida. A posição de “nem-nem” desse Jean Wyllys de 2014, que mal distingue um movimento de resistência do exército israelense, vai se aprofundar e se agravar em 2016 em sua visita a Israel que se traduz num confronto nos movimentos de solidariedade com a Palestina.

Jean Wyllys ao ser criticado por furar um boicote, já reagiu apelando para o fantasma do Hamás, da mesma maneira que segue a estratégia sionista no Brasil de, quando em debates, diluir a crítica a Israel numa demonização desse movimento palestino. Dessa maneira, Jean Wyllys fugia dos debates fundamentais, como a questão da da existência Estado de Israel como Estado colonizador e etnocrático, e a questão da legitimidade e utilidade do boicote (esta que em algum momento ele iria endereçar parcialmente). Ao invés de discutir os problemas do sionismo, que é o que está em questão, ele jogou uma cortina de fumaça, deslegitimou os críticos e manifestou sua simpatia com o sionismo “bonzinho” (“vários sionistas tem uma posição igual a minha”). Do que adianta apelar para o fantasma do Hamás se vários adeptos do boicote são contra essa organização?

É natural que surja um debate, um confronto de posições. Esse confronto se acirrou mais com a postura de Jean Wyllys, que desrespeitou e atropelou as principais vozes e lideranças pro Palestina aqui no Brasil e quer falar de “diálogo”, pois pelo visto ninguém sabe de nada. Vamos lembrar que a organização LGBT Palestinian Queers for BDS se dedica a denunciar a estratégia de “pinkwashing” (lavar a rosa; usar a causa LGBT pra parecer bonzinho) israelense e pedir o boicote especialmente para figuras LGBT do mundo a fora, colocando o problema da resistência contra a ocupação em primeiro lugar – não fingindo que isso depende da boa vontade da “esquerda israelense”. A judia lésbica Sarah Schulman, grande autora, pesquisadora e ativista LGBT, aderiu ao boicote (não foi a uma conferência de estudos LGBT em Tel Aviv) dando visibilidade justamente para as posições palestinas e denunciando o pinkwashing, que é monitorado pelo http://pinkwatchingisrael.com/ (Jean Wyllys quando foi conversar com uma entidade que faz parte do boicote fez um discurso tendencioso dizendo que queriam “ensina-lo”, que foi “subestimado” e chamou o pinkwashing de “teoria da conspiração” – nesse caso acho que ele só é totalmente ignorante).  Por acaso, s LGBTs palestinos não são exatamente “pro Hamás” , são dentro do universo do Jean Wyllys, porém, já que denunciam o discurso dele como o discurso oportunista de cúmplices do massacre em Gaza, e reconhecem o movimento, especialmente no seu caráter de resistência, ao mesmo tempo que atacam seu conservadorismo – eles inclusive lembram que o que gera apoio para o Hamas na população em geral não é o conservadorismo, mas seu comprometimento com a resistência. Isso não existe no universo de Jean Wyllys, que não vê movimento político no grupo “terrorista e criminoso”, implicando praticamente que a resistência em geral e a Segunda Intifada em específico são terroristas (pra daí chegar a conclusões similares as que tiraram elementos da esquerda israelense: a de que é legítimo meter bala, a de que não existem interlocutores).

Paulo Nogueira, como Jean Wyllys, despreza o boicote e usa de refúgio uma verdade irrelevante: a de que os Estados Unidos são uma potência criminosa. Sim, pode ser, mas um sólido movimento de boicote existe é contra Israel, sua política colonialista e genocida (para Jean Wyllys não podemos falar de nenhuma das duas coisas – mais um ponto para o conflito). Paulo Nogueira então rejeita os recursos que a Palestina usa, que estão em voga e não são só ações individuais – ele faria o mesmo com a África do Sul do apartheid? Ele só não é tão louco quanto JW que comparou o boicote com o bloqueio norte americano a Cuba. O Comitê de Solidariedade à Palestina do ABC disse muito bem: Jean Wyllys chegou agora e quer discutir a validade de uma estratégia que os movimentos palestinos discutem há mais de dez anos.

Paulo Nogueira, como uma boa caixa acústica do parlamentar, ecoa a arrogância e presunção de Jean Wyllys. Aparentemente, todo mundo que se indignou com JW, incluindo os movimentos pro palestina, Pinheiro, Temer e outros, são burros ou mal-intencionados. Paulo Nogueira vai além e julga com o que essas pessoas e organizações devem se preocupar ou não – elas não sabem o que estão fazendo. Mas quem é Paulo Nogueira quem é ele para julgar os posicionamentos seríssimos em uma questão política tão importante e tão grave como a questão Palestina?

O que os Paulos Nogueiras têm que entender, é que quem está em posição de ser acusado de ser ou burro ou mal intencionado, é Jean Wyllys. E as pessoas que fazem isso, estão promovendo o debate e indo para a briga, estão botando questões reais. Os Paulos Nogueiras, no entanto, quando lançam suas contra-acusações, não estão enfrentando nenhuma questão verdadeira, estão jogando cortinas de fumaça e botando panos quentes – querem suprimir o debate porque “existem coisas mais importantes”.

Mas, se eu não sei quem é Paulo Nogueira, eu sei que pelo visto ela não sabe o porquê de tanta indignação, por isso vou tentar resumir alguns pontos:

- JW furou o boicote.
- JW fez um discurso similar ao dos sionistas.
- JW aderiu ao Pinkwashing.
- JW foi para Israel e reclamou mais da Síria, do Hamás e do Irã do que de Israel.
- JW criminalizou em termos gerais a resistência de forma desonesta.
- JW falou muito pouco sobre a resistência.
- JW ignora a história de Israel e sua formação baseado no colonialismo, massacre e expulsão, “admira” o sionismo.
- JW atacou o uso do termo genocídio e reduziu a dimensão do termo colonialismo. (ambos depois do artigo do DCM, em entrevista ao Conexão Israel)
- JW chamou “O Muro” de contenção contra ataques terroristas.
- JW comparou antissionismo com antissemitismo e sugeriu que seus críticos são homofóbicos e/ou antissemitas.
- Israel acabou de atacar o Líbano.
- Israel ocupa a Síria (Golã). Israel bombardeou a Síria na atual guerra civil, recebeu rebeldes radicais islâmicos em seu território e provavelmente é co-responsável pelo conflito.
- Defender um “Estado palestino” até os Estados Unidos estão e mesmo Israel está disposta a ceder se isso acabar com a discussão sobre o direito de retorno.

Tudo isso (o que não é tudo) no contexto de uma viagem financiada por sionistas. Não é coincidência.

Vejam esses pontos como os pontos colocados pelos críticos de Wyllys, independentes de estarem certos ou não, pois minha intenção principal aqui não é, infelizmente, desmontar cada posição de Jean Wyllys, não é entrar no debate, pois o DCM não quer o debate, Paulo Nogueira nega o debate então sou obrigado a debater o debate, discutir a discussão – fazer a meta-discussão. No entanto, creio que isso responde a pergunta de Paulo Nogueira, que pelo visto acha que é todo mundo idiota, que “não existe motivo” para isso. Só faço questão de observar aos incautos como o Jean Wyllys que acham que genocidio é só a eliminação física de um todo povo (vão ler as convenções internacionais!), que se a expulsão de árabes que estavam naquelas terras, o massacre de comunidades e a demolição de casas, com aquela quantidade de refugiados não é “genocídio” ou limpeza étnica (e é), então nem pensem em falar em “genocídio da juventude negra” no Brasil.

O diretor editorial do DCM acusa os que fazem a justa crítica do parlamentar de algo como “sabotagem” ou “deserção”. Mas adivinhe só? Os outros acusam os erros de Jean Wyllys – porque simplesmente é assim que se constituí uma contradição – Paulo Nogueira é consumido pela própria lógica, pois dentro dela não caberia a ele julgar se pode ou não pode se indignar com Jean Wyllys.

Você diz que atacar Wyllys é inconsequente? Eles dizem que Wyllys é inconsequente. 
Você diz que é fazer o jogo da direita? Jean Wyllys não faz só “o jogo da direita”, Jean Wyllys faz o jogo do sionismo. Se você não acha, entre na polêmica e assuma uma posição aberta, ao invés de se esconder atrás de panos quentes e lançar só mais uma cortina de fumaça em cima das posições do parlamentar. Paulo Nogueira representa um “jornalismo de esquerda” avesso a polêmica, ora, justamente dentro da esquerda onde já ocorreram grandes debates, verdadeiras batalhas políticas, teóricas e ideológicas, por se valorizar o confronto dialético entre as ideias em busca do correto e não a postura fisiológica de jornalistas que querem ser uma extensão da assessoria de imprensa do “parlamentar bonitinho”, que tratam a crítica justa como sabotagem e querem suprimir o debate. Jean Wyllys, na sua rejeição arrogante dos que foram critica-lo (e suas recomendações de “se aproximar da esquerda israelense”, mais cheirosinha que a resistência palestina), também suprimiu o debate tão necessário para se esclarecer e avançar posições, ainda que por outro método, o de saturação e a máscara de “defesa do diálogo”(as pessoas que dizem defender o debate – aonde só elas falam o que quiser sem consequências). Jean Wyllys não está confrontando as críticas diretamente e estabelecendo posições claras, está é fazendo uma propaganda de Israel através da suavização do sionismo. O texto de Paulo Nogueira não contribui para a discussão, não aprofunda em nada, não se trata de avançar uma discussão para aprimorar uma posição, não passa de um “abafa-caso”, uma tentativa de salvar a imagem do parlamentar, o único e verdadeiro “desserviço” .

“Ora, ora ora!”

Nota: recomendo uma leitura do exame feito por Alessandre Argolo, que aborda ponto por ponto e dá uma resposta mais completa a pergunta do DCM. Está logo no fim de nossas fontes e referências.

Fontes e referências 

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/por-que-tamanha-indignacao-contra-jean-wyllys-por-paulo-nogueira/

http://socialistreview.org.uk/376/israelpalestine-and-queer-international

http://www.pqbds.com/

http://www.pinkwatchingisrael.com/

https://www.menorahnet.com.br/artigo-quanto-durara-o-sionismo-de-jean-wyllys/

https://www.facebook.com/fierj.federacaoisraelita/photos/a.567020183426897.1073741825.567020110093571/792623254199921/?type=3&theater

https://alessandreargolo.wordpress.com/2016/01/11/a-captura-de-jean-wyllys-pela-propaganda-sionista-israelense/

 

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Resumo e comentário de “Fascismo – Passado, Presente e Futuro” de Walter Laqueur

Walter Laqueur é um autor judeu israelense de origens europeias conhecido por escrever dentro da chamada Escola Totalitária (falando muito de comunismo) e com algum nome em estudos fascistas (não é mais um dos principais, mas aparentemente é respeitado como um precursor). Seu livro “Fascism – Past, Present and Future” de 1996 que pretende ser uma obra que compilar, atualizar e superar o que o autor produziu sobre o assunto nos anos 70 e 80 levando em conta as novas realidades após a queda do bloco soviético.

O livro se divide em três partes – Fascismo, Neofascismo e Pós-Fascismo. O texto é uma prosa bem escrita, mas lembra um livro juvenil ou semi-didático bem escrito e muitas vezes o estilo sacrifica o conteúdo. Fala coisas mal fundamentadas, informações imprecisas ou que faltam fontes, ou mesmo comete erros crassos – como o de igualar budismo e hinduísmo (aparentemente a origem na Ìndia gerou essa conclusão).

A primeira parte é, comparativamente, a melhor, serve como introdução a ideia de fascismo genérico, o que seria fascismo, pode servir como referência. A segunda parte tem alguns pontos bons quanto a definição, mas é superficial para seu tamanho (o livro fala pouco dos “pequenos fascismos” da década de 30, muito pouco, e menciona alguma coisa nessa parte). A terceira parte é onde o autor tenta ser mais crítico e soltar a criatividade, além de se politizar mais.

As características do livro não tem nada a ver com um tratado, mas sim com um artigo jornalístico, só que um artigo de pouco mais de 200 páginas. O que ele fez foi fazer uma “versão própria da história do fascismo”, pegando tudo que já é dito e considerado sobre “fascismo” genérico e escrevendo do jeito dele, sem fazer uma grande contribuição original. Ele não acrescenta nada de especial e pode ser dispensado em prol de outras obras, como “Anatomia do Fascismo” de Robert O. Paxton ou Stanley G. Payne.

Essa limitação poderia ser aceita se fosse restrita a parte do “velho fascismo” da década de 30, porém ela não é compensada no momento em que ele fala dos neofascismos e “fascismos da atualidade”, pelo contrário, parece que o trabalho se torna mais superficial, menos acadêmico e mais emocional. A obra cita por cima os movimentos neo-fascistas e pós-fascistas, grupos que oferecem uma riqueza considerável de discussão. Nesse momento a obra também se mostra desatualizada e obsoleta, presa no seu tempo – não aprofundando nos movimentos em questão, sua visão geral simplesmente não serve na atualidade. O Front Nationale é citado, mas não é explicado e atualmente é uma força importante na política francesa. O Jobbik húngaro sequer existia, a Ucrânia recebe alguns parágrafos, nada de Grécia… já se passaram quase vinte anos e muita coisa mudou, radicalmente. O autor parece mais preocupado em discutir a posição dos ex-comunistas nas antigas repúblicas socialistas. O livro está preso ao tempo – existem livros da mesma época que mantém maior relevância (como o sobre fascismo russo Stephen D. Shenfield).

Ele até desenvolve um argumento interessante sobre a impossibilidade de se definir fascismo precisamente e cita vários lados desse debate; ele tem um cuidado que eu admiro ao expor que está fazendo um exercício mental, “bom, realmente podemos dizer que fascismo foi só italiano, porém”, “eppur si muove”… Ao mesmo tempo que ele tem esse cuidado e não expõe claramente um mínimo fascista, aparentemente ele tem como certo que é “uma coisa muito ruim” e isso dá uma certa inconsistência. Essa característica emotiva se extende nos comentários sobre o comunismo e aflora mais ainda na hora de falar do Irã, onde ele faz seu serviço patriótico como israelense.

Eu não considero impossível ou absurdo relacionar o movimento clerical-xiita dos iranianos com o fascismo e mesmo Laqueur usa uma dose de razão, porém seu principal objetivo é demonizar o país e colocá-lo como uma grande ameaça, uma grande prisão obscurantista. Seu esforço em demonizar o Irã e colocá-lo ao lado do xiismo político como a força mais radical e obscurantista da região soa ridículo para qualquer um que observa o Oriente Médio hoje. O Irã, bem como o o Hezbollah, é uma das principais salvaguardas contra o radicalismo na região, que tem suas versões mais obscurantistas no terrorismo sunita. Seu argumento relacionando o radicalismo religioso com o fascismo chega a dar a impressão que o fascismo pode ser “qualquer coisa muito má que não gostamos”, mesmo que seja possível articular um argumento sobre movimentos religiosos populistas e fascismo, o autor está escrevendo um bestiário dos “inimigos do bem”.

O autor também tem um problema notável que é de tomar análises do hitlerismo que são mais estruturalistas ou de esquerda, “culpando algum desenvolvimento do capitalismo”, chamando-as de “revisionismo de esquerda” com uma naturalidade que chega ser desonesta, realizando uma comparação com o “revisionismo de direita” que não pode ser considerada razoável – ele mesmo toma algum cuidado por saber que na sua categoria de “revisionismo de esquerda” se encontram pesquisadores de alto calibre (diferente do ataque destrutivo que ele faz contra o “revisionismo de direita”). Isso é especialmente problemático numa obra em tal formato didatista. Aparentemente o autor, que é judeu e com cidadania israelense, tem uma preocupação de que análises estruturais do nazismo falhariam em ver sua imoralidade fundamental e o papel desempenhado por certos valores e ideias que seriam “fundamento de qualquer nazismo”.  Ele segue uma espécie de “ideologia da anti-difamação” e procura purgar qualquer ideia que possa ter consequência num holocausto – quem não faz isso inevitavelmente faz um desserviço e merece etiquetas negativas como “revisionista”, mesmo que não seja cabível ou que não se trate de verdadeiros revisionistas. Ele não iguala, ele dá o devido “respeito acadêmico”, mas é claro o tipo de operação ideológica que ele está realizando.

A todo momento, ele que é um restante da “Escola Totalitária”, procura introduzir “críticas” e “cotucadas” sobre comunismo, muitas vezes falando besteiras que não pode fundamentar, que ficam como “verdades” e poluem o livro sobre fascismo. Ele “compensa” isso no final rejeitando qualquer hipótese de influência do comunismo sob o nazi-fascismo (ele só preserva sua posição quanto a “semelhanças práticas” em comparação com a democracia liberal). A maioria das comparações são vulgares ou completamente errôneas. Em muitos momentos ele cede em palavras aos que já refutaram comparações, mas somente para depois introduzir algum “porém”. Ele insiste que as diferenças são de origem ideológica, que o comunismo tem o componente revolucionário francês, humanista, universalista, igualitário, democrático etc (o que sempre foi evidente, são coisas bem diferentes de raízes distintas, mas que agora é borrado por certos elementos da “nova direita brasileira”; enquanto o fascismo italiano e o nazismo alemão entram num mesmo tipo de fenômeno político apesar das diferenças ideológicas, esse não é o caso do comunismo e da União Soviética. É irônico que esse esforço acaba expondo seus comentários sobre comunismo durante o texto – são todos esforços ideológicos, “educativos”, afastando o estudante do outro mal que é o comunismo, mesmo que explique que esse não seja tão bárbaro quanto o nazismo em específico (fala muito de Stalin também; então fica aquela coisa, “bom, talvez eu não tenha nada pra falar de relevante aqui, mas mesmo assim vou alerta-los sobre os perigos do comunismo por garantia”).

A conclusão deixa claro que o livro é uma espécie de cartilha da democracia liberal alertando contra o sua “ameaça da direita”, além do comunismo, ameaça da esquerda também muito perigosa. O tom juvenil é óbvio.

Elementos relevantes da obra posso expor em outras postagens.

Citações (Oxford University Press, 1996):

“Será que uma tal abordagem subjetiva, “impressionista” abrir a porta para todos os tipos de julgamentos arbitrários e interpretações incorretas? Não necessariamente. Presidente Franklin Roosevelt foi chamado de fascistas, e também foram os social-democratas (por Stalin) e Stalin (pelos anticomunistas). Mas Roosevelt, Stalin, e os social-democratas não eram fascistas, e não há nenhuma boa razão para levar a sério todas as alegações excêntricas sobre o que é fascismo. ” (pg. 6)

“No entanto, o termo genérico fascismo tem continuado a ser utilizado, principalmente por razões práticas: Uma única palavra é necessária, em vez de vários parágrafos.” (pg. 7)

“Nazismo parece, em retrospecto, uma versão hiper-radical, exagerada de uma nova idéia implacavelmente perseguindo suas conclusões lógicas.” (pg 13)

“(Neofascismo) Todas estas versões compartilham certas características importantes, tais como um nacionalismo raivoso, uma crença no poder do Estado e na pureza do povo, um ódio da ordem liberal-parlamentar e uma oposição ao comunismo, por um lado, e ao capitalismo, por outro. [mas sem ideias econômicas claras, podendo ser mais ou menos intervencionistas] (…) Tendo percebido que a agressão militar e conquista já não é viável são, neofascismo optou pela defesa da Europa. ”(pg 93)

“Os princípios básicos do fascismo eram (e são) auto-evidentes: o nacionalismo, o darwinismo social, – racialismo, – a necessidade de liderança, uma nova aristocracia, e obediência, – e a negação dos ideais do Iluminismo e da Revolução Francesa. “(pg. 96)

“O neofascismo se apresenta principalmente como uma forma de vida alternativa.” (pg 121)

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