Resumo e comentário de “Fascismo – Passado, Presente e Futuro” de Walter Laqueur

Walter Laqueur é um autor judeu israelense de origens europeias conhecido por escrever dentro da chamada Escola Totalitária (falando muito de comunismo) e com algum nome em estudos fascistas (não é mais um dos principais, mas aparentemente é respeitado como um precursor). Seu livro “Fascism – Past, Present and Future” de 1996 que pretende ser uma obra que compilar, atualizar e superar o que o autor produziu sobre o assunto nos anos 70 e 80 levando em conta as novas realidades após a queda do bloco soviético.

O livro se divide em três partes – Fascismo, Neofascismo e Pós-Fascismo. O texto é uma prosa bem escrita, mas lembra um livro juvenil ou semi-didático bem escrito e muitas vezes o estilo sacrifica o conteúdo. Fala coisas mal fundamentadas, informações imprecisas ou que faltam fontes, ou mesmo comete erros crassos – como o de igualar budismo e hinduísmo (aparentemente a origem na Ìndia gerou essa conclusão).

A primeira parte é, comparativamente, a melhor, serve como introdução a ideia de fascismo genérico, o que seria fascismo, pode servir como referência. A segunda parte tem alguns pontos bons quanto a definição, mas é superficial para seu tamanho (o livro fala pouco dos “pequenos fascismos” da década de 30, muito pouco, e menciona alguma coisa nessa parte). A terceira parte é onde o autor tenta ser mais crítico e soltar a criatividade, além de se politizar mais.

As características do livro não tem nada a ver com um tratado, mas sim com um artigo jornalístico, só que um artigo de pouco mais de 200 páginas. O que ele fez foi fazer uma “versão própria da história do fascismo”, pegando tudo que já é dito e considerado sobre “fascismo” genérico e escrevendo do jeito dele, sem fazer uma grande contribuição original. Ele não acrescenta nada de especial e pode ser dispensado em prol de outras obras, como “Anatomia do Fascismo” de Robert O. Paxton ou Stanley G. Payne.

Essa limitação poderia ser aceita se fosse restrita a parte do “velho fascismo” da década de 30, porém ela não é compensada no momento em que ele fala dos neofascismos e “fascismos da atualidade”, pelo contrário, parece que o trabalho se torna mais superficial, menos acadêmico e mais emocional. A obra cita por cima os movimentos neo-fascistas e pós-fascistas, grupos que oferecem uma riqueza considerável de discussão. Nesse momento a obra também se mostra desatualizada e obsoleta, presa no seu tempo – não aprofundando nos movimentos em questão, sua visão geral simplesmente não serve na atualidade. O Front Nationale é citado, mas não é explicado e atualmente é uma força importante na política francesa. O Jobbik húngaro sequer existia, a Ucrânia recebe alguns parágrafos, nada de Grécia… já se passaram quase vinte anos e muita coisa mudou, radicalmente. O autor parece mais preocupado em discutir a posição dos ex-comunistas nas antigas repúblicas socialistas. O livro está preso ao tempo – existem livros da mesma época que mantém maior relevância (como o sobre fascismo russo Stephen D. Shenfield).

Ele até desenvolve um argumento interessante sobre a impossibilidade de se definir fascismo precisamente e cita vários lados desse debate; ele tem um cuidado que eu admiro ao expor que está fazendo um exercício mental, “bom, realmente podemos dizer que fascismo foi só italiano, porém”, “eppur si muove”… Ao mesmo tempo que ele tem esse cuidado e não expõe claramente um mínimo fascista, aparentemente ele tem como certo que é “uma coisa muito ruim” e isso dá uma certa inconsistência. Essa característica emotiva se extende nos comentários sobre o comunismo e aflora mais ainda na hora de falar do Irã, onde ele faz seu serviço patriótico como israelense.

Eu não considero impossível ou absurdo relacionar o movimento clerical-xiita dos iranianos com o fascismo e mesmo Laqueur usa uma dose de razão, porém seu principal objetivo é demonizar o país e colocá-lo como uma grande ameaça, uma grande prisão obscurantista. Seu esforço em demonizar o Irã e colocá-lo ao lado do xiismo político como a força mais radical e obscurantista da região soa ridículo para qualquer um que observa o Oriente Médio hoje. O Irã, bem como o o Hezbollah, é uma das principais salvaguardas contra o radicalismo na região, que tem suas versões mais obscurantistas no terrorismo sunita. Seu argumento relacionando o radicalismo religioso com o fascismo chega a dar a impressão que o fascismo pode ser “qualquer coisa muito má que não gostamos”, mesmo que seja possível articular um argumento sobre movimentos religiosos populistas e fascismo, o autor está escrevendo um bestiário dos “inimigos do bem”.

O autor também tem um problema notável que é de tomar análises do hitlerismo que são mais estruturalistas ou de esquerda, “culpando algum desenvolvimento do capitalismo”, chamando-as de “revisionismo de esquerda” com uma naturalidade que chega ser desonesta, realizando uma comparação com o “revisionismo de direita” que não pode ser considerada razoável – ele mesmo toma algum cuidado por saber que na sua categoria de “revisionismo de esquerda” se encontram pesquisadores de alto calibre (diferente do ataque destrutivo que ele faz contra o “revisionismo de direita”). Isso é especialmente problemático numa obra em tal formato didatista. Aparentemente o autor, que é judeu e com cidadania israelense, tem uma preocupação de que análises estruturais do nazismo falhariam em ver sua imoralidade fundamental e o papel desempenhado por certos valores e ideias que seriam “fundamento de qualquer nazismo”.  Ele segue uma espécie de “ideologia da anti-difamação” e procura purgar qualquer ideia que possa ter consequência num holocausto – quem não faz isso inevitavelmente faz um desserviço e merece etiquetas negativas como “revisionista”, mesmo que não seja cabível ou que não se trate de verdadeiros revisionistas. Ele não iguala, ele dá o devido “respeito acadêmico”, mas é claro o tipo de operação ideológica que ele está realizando.

A todo momento, ele que é um restante da “Escola Totalitária”, procura introduzir “críticas” e “cotucadas” sobre comunismo, muitas vezes falando besteiras que não pode fundamentar, que ficam como “verdades” e poluem o livro sobre fascismo. Ele “compensa” isso no final rejeitando qualquer hipótese de influência do comunismo sob o nazi-fascismo (ele só preserva sua posição quanto a “semelhanças práticas” em comparação com a democracia liberal). A maioria das comparações são vulgares ou completamente errôneas. Em muitos momentos ele cede em palavras aos que já refutaram comparações, mas somente para depois introduzir algum “porém”. Ele insiste que as diferenças são de origem ideológica, que o comunismo tem o componente revolucionário francês, humanista, universalista, igualitário, democrático etc (o que sempre foi evidente, são coisas bem diferentes de raízes distintas, mas que agora é borrado por certos elementos da “nova direita brasileira”; enquanto o fascismo italiano e o nazismo alemão entram num mesmo tipo de fenômeno político apesar das diferenças ideológicas, esse não é o caso do comunismo e da União Soviética. É irônico que esse esforço acaba expondo seus comentários sobre comunismo durante o texto – são todos esforços ideológicos, “educativos”, afastando o estudante do outro mal que é o comunismo, mesmo que explique que esse não seja tão bárbaro quanto o nazismo em específico (fala muito de Stalin também; então fica aquela coisa, “bom, talvez eu não tenha nada pra falar de relevante aqui, mas mesmo assim vou alerta-los sobre os perigos do comunismo por garantia”).

A conclusão deixa claro que o livro é uma espécie de cartilha da democracia liberal alertando contra o sua “ameaça da direita”, além do comunismo, ameaça da esquerda também muito perigosa. O tom juvenil é óbvio.

Elementos relevantes da obra posso expor em outras postagens.

Citações (Oxford University Press, 1996):

“Será que uma tal abordagem subjetiva, “impressionista” abrir a porta para todos os tipos de julgamentos arbitrários e interpretações incorretas? Não necessariamente. Presidente Franklin Roosevelt foi chamado de fascistas, e também foram os social-democratas (por Stalin) e Stalin (pelos anticomunistas). Mas Roosevelt, Stalin, e os social-democratas não eram fascistas, e não há nenhuma boa razão para levar a sério todas as alegações excêntricas sobre o que é fascismo. ” (pg. 6)

“No entanto, o termo genérico fascismo tem continuado a ser utilizado, principalmente por razões práticas: Uma única palavra é necessária, em vez de vários parágrafos.” (pg. 7)

“Nazismo parece, em retrospecto, uma versão hiper-radical, exagerada de uma nova idéia implacavelmente perseguindo suas conclusões lógicas.” (pg 13)

“(Neofascismo) Todas estas versões compartilham certas características importantes, tais como um nacionalismo raivoso, uma crença no poder do Estado e na pureza do povo, um ódio da ordem liberal-parlamentar e uma oposição ao comunismo, por um lado, e ao capitalismo, por outro. [mas sem ideias econômicas claras, podendo ser mais ou menos intervencionistas] (…) Tendo percebido que a agressão militar e conquista já não é viável são, neofascismo optou pela defesa da Europa. ”(pg 93)

“Os princípios básicos do fascismo eram (e são) auto-evidentes: o nacionalismo, o darwinismo social, – racialismo, – a necessidade de liderança, uma nova aristocracia, e obediência, – e a negação dos ideais do Iluminismo e da Revolução Francesa. “(pg. 96)

“O neofascismo se apresenta principalmente como uma forma de vida alternativa.” (pg 121)

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O acerto de contas de Brizola com o jornalista raivoso

David Nasser

David Nasser foi um jornalista raivoso de extrema-direita da década de 60, líder do grupo de extermínio Scuderie Le Coq (Esquadrão da Morte) e que era uma espécie de carro chefe da cadeia dos Diários Associados, que era um conglomerado jornalístico gigante, que contemplava impressos, o rádio e a televisão (escrevia o artigo principal do O Cruzeiro, de 700 mil exemplares; a cadeia tinha 31 jornais, cinco revistas, 21 emissoras de rádio, três de televisão e uma agência de notícias). Um representante sessentista de muita porcaria que há atualmente, num monopólio que lembra os de hoje – e ainda hoje é “referência” no jornalismo, até porque ainda por cima era premiado como “grande e bravo jornalista”. Um do seus alvos favoritos era o líder nacionalista de esquerda, Leonel Brizola.

Nasser durante anos conduziu uma longa e sórdida campanha de difamação contra Brizola, reproduzindo acusações falsas de corrupção e de tudo que se possa imaginar, passando também para a ofensa direta (“potro dos pampas”, “analfabeto vitalício”). Nasser usava seu espaço especial para atacar direta e implacavelmente Brizola, que até chegou a eventualmente intima-lo na justiça depois de alguns anos de resistência, o que não cessou os ataques. O jornalista chegou a desafiar publicamente Brizola pra sair no braço várias vezes, como num artigo de 29 de junho de 1963:

“Existe em Porto Alegre um prato que todos conhecem: churrasco à Brizola, isto é, muita farofa e pouco peito. Ora essa, Pangaré, você sabe onde ando, onde trabalho, onde moro. Porque não vem ajustar contas? Porque é um covarde.”

Um dos vários artigos em que Nasser ataca Brizola. “Eu tenho medo de dentista, mas não tenho medo de você.”

Na manhã de 26 de dezembro de 1963, após o natal, veio o tal do acerto de contas. Brizola, que tinha 1m70cm, corpo forte e troncudo, além de fama de coragem física, se deparou com Nasser no Aeroporto Santos Dumont, a quem disse imediatamente:

- Prepara-te pra apanhar!

Ao mesmo tempo, Brizola desferiu um soco no ouvido e outro no queixo até nocautear o detrator, que ainda cambaleando ouviu que “Da próxima vez, terás que engolir o artigo inteiro!”.

O jovem Brizola

Não é difícil supor que Brizola foi posteriormente retratado como um bárbaro. Toda a mídia tomou partido de Nasser. Mesmo assim, a opinião pública se posicionou ao lado de Brizola; popularmente só se falava da sova levada pelo jornalista e as respostas de Nasser só tiveram repercussão em meios conservadores. De certa forma, as bofetadas de Brizola também atingiram o poder de persuasão do jornalista. Brizola no futuro diria estar arrependido, talvez por sua natureza geralmente afável, alegando que se envergonha do que fez com Danton Coelho* e David Nasser, e que até estenderia a mão em desculpas, isso em confissão a um outro adversário, Rafael Almeida Magalhães, em 79 no Tribuna de Imprensa, dois anos antes da morte de Nasser que agonizava no câncer.

*Brizola brigou com Danton Coelho, do PTB de SP, por “entregar” o partido a Adhemar de Barros. Em meio a troca de impropérios, Brizola avançou rapidamente na direção de Danton Coelho, que levou a mão ao coldre de pistola. Foram separados por outros políticos e jornalistas. Brizola não estava armada. 

Essa anedota não é só uma demonstração da destreza física de Brizola, de um caso de um falador recebendo uma lição ou um inválido moral sofrendo o que merece. Essa anedota é para nos lembrar de certas criaturas que habitam a mídia brasileira e a cultura de direita que floresce a partir da mesma – um tipo torto de direita, dedicada a política do tosco e a escrotização da política, uma excrecência ideológica de facínoras de classe média, mas  ligada aos elementos mais entreguistas e mais criminosos da política brasileira. No Brasil, hidrófobos como Nasser transmitem sua doença ao espumar nas páginas de revistas e canais de televisão, criando uma forma de movimento político pouco refinado, mas energizado por ideias direitistas mal concebidas. Esses articulistas de direita são, em certo sentido, os maiores demagogos populistas do Brasil, pois procuram inflamar as massas com um discurso raivoso, emocional, simplista. Eles criaram a impressão em seus seguidores de que bravado, ataques histéricos e xingamentos são sinônimos de intelectualidade –  daí temos toda uma cultura de direita que pratica uma afetação de inteligência repetindo esse métodos. É um quase um costume geral pensar que falar merda é sinônimo de falar bonito. Não lendo nada ou somente literatura de baixíssima qualidade (Leandro Narloch, “História Politicamente Incorreta”), o seu repertório se reduz a truísmos, ofensas de baixo calão e desqualificações pessoais – o debate se vence xingando o outro.

A Internet está repleta desses miseráveis. Me recordo que uma vez brotou um “católico tradicionalista” do Rio de Janeiro me atacando por causa das minhas posições sobre a Ucrânia, mas não discutia a Ucrânia, só dizia que eu era um merda e que isso e aquilo. Este mesmo apareceu depois exposto numa página de humor dando em cima de um adolescente – pedindo fotos e demonstrado um certo fetiche por pés (“Já tirou o tênis? Meninão, tem que ficar descalço mesmo”). A própria realidade parece fazer justiça, às vezes.

Frente a uma imprensa que é dada à mentira, chegada à falsidade e que difunde o ódio para fabricar zumbis políticos, frente aos zumbis que servem de massa de manobra para articulistas demagogos, nós devemos nos posicionar com firmeza e nocauteá-la com os golpes aonde for necessário, em seus pontos fracos – um soco no ouvido, outro no queixo.

É realmente um cenário desconsolador, mas essa anedota demonstra precisamente que podemos nos consolar, pois aqueles que difundem o barbarismo também haverão de sofrer a barbárie – há de endurecer-se.

A história da briga foi retirada do livro “El Caudillo – LEONEL BRIZOLA – um perfil biográfico” de FC Leite Filho. Comprando no link você colabora com nosso blog.

BRIZOLA

 

 

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A Petrobras é sugada por parasitas financeiros

O Le Monde Diplomatique Brasil lançou na sua atual edição (Ano 9, Número 98) uma boa matéria sobre o desmonte do maior patrimônio do povo brasileiro, a Petrobrás. Não é novidade – o processo é denunciado há algum tempo e me lembro de meus amigos falarem do domínio do capital estrangeiro sobre a “estatal”.  O economista Adriano Benayon, esse campeão da soberania nacional, já denuncia e expõe o processo de desnacionalização da Petrobras há anos. Por ser uma discussão emergencial e considerar a matéria relevante, decidi trazer um trecho em especial.

É uma desgraça política que nem dentro de setores “politizados” se leve a sério o domínio de interesses estrangeiros na economia e na política brasileira – um problema que diz respeito a questões últimas de soberania, de paz e guerra, vida e morte. Todos falam de um “país do futuro”, mas nessas condições não verás país nenhum.

O circo já está todo armado. Enquanto José Serra espuma no Senado, Dilma Roussef entrega o patrimônio do planalto. Governistas capitulam frente a alienação de 40% das ações preferencias e silenciam frente ao plano de vender 60% do sistem Petrobras, assim como defenderam (feito legítimos hipócritas e traidores) as rodadas do petróleo de Luiz Inácio. Menos para a Petrobrás, mais para as empresas. Mais tarde veio o Leilão de Libra, também defendido pelos fanáticos, que entregou 60%, com o estrangeiro pagando 3 bilhões de dólares por um patrimônio de 300 bi. Ainda fomos humilhados em rede nacional por uma presidente que falava confiante que “leilão não é privatização”, mentira! Os governistas sequer defenderam o próprio programa na hora que seu governo recuou quanto a construção de refinarias. O governo reduz 37% dos investimentos e vende metade do patrimônio. A “oposição” é pior ainda, claro, o que poderíamos esperar daqueles que de certa forma começaram a grande corrida da privatização? José Serra quer mostrar que tudo que é ruim pode piorar, que ele é um servo mais leal do que Dilma Roussef, por isso nos presenteia com a PL 131/2015, pra dar 100% ao invés de “só 70″ para as multinacionais.

Na verdade, a Petrobrás já é uma fortaleza assaltada, posição estratégica para um ataque mais profunda da rapina contra o Brasil. A Petrobras é pilar da soberania nacional, de nossa força e de nosso desenvolvimento. Não são só milhares de empregos (cada vez mais cortados e substituídos por terceirizados – trabalhadores explorados num modelo que favorece a corrupção no setor público). A Petrobras não é ineficiente e não é deficitária, é sim uma enorme potência econômica, que controla recursos vastíssimos, uma das mais valorizadas do mundo e que produz barris com custo mais baixo que as multinacionais. Do ponto de vista da produção, a empresa é uma potência e seus “prejuízos” são na esfera da especulação (somando com a contabilização de propinas projetadas).

O trecho a seguir da matéria fala de capital financeiro – esse todo-poderoso na tal fase imperialista do capitalismo. É preciso retomar a Petrobras e com um ela um projeto nacional – a Petrobras deve servir o povo e não parasitas financeiros. Os parasitas financeiros sugam a Petrobras, sugam o Brasil, não estão contentes e querem sugar mais, querem que o Brasil seja um exportador de óleo cru e playground de grandes capitalistas. Para isto, contam com governantes fracos no executivo e servos no legislativo.

Diz Nazareno Godeiro:

“De acordo com o Relatório da Administração da Petrobras 2014, a propriedade do capital total social da Petrobras se dividia em abril de 2015, com 54% sob posse privada, a maior parte de origem estrangeira (36% do total): Bank of New York Mellon, BNP, GAP, Credit Suisse, CItibank, HSBC, L.P. Morgan, Santander, BlackRock. Ao governo cabiam os demais 46%.

Uma pesquisa para averiguar os donos desses bancos leva às duas famílias mais ricas do capitalismo mundial: Rockefeller e Rothschild. Isso significa que a maior parte dos lucros da Petrobras serve ao enriquecimento de bancos internacionais, e não para re-investir na própria empresa, obrigando a companhia a se endividar.

[RP: GOVERNO SERVO DE CREDORES E ESCRAVO DOS JUROS - OU COMO SE NÃO BASTASSE A DÍVIDA PÚBLICA]  4. O alto endividamento da Petrobras com os bancos internacionais

A Petrobras tem uma dívida de R$ 319 bilhões, representando o valor da produção de cinco anos da empresa. Esse alto endividamento gera uma bola de neve, obrigando a companhia a exportar óleo cru barato para arrecadar dólares e pagar a dívida – um círculo vicioso e destrutivo.

Esse crédito deveria ser garantido pelo BNDES. Porém, mais uma vez inexplicavelmente, o Banco Central, dirigido pelo PT, proibiu o BNDES de emprestar dinheiro a Petrobras. Caso o governo Dilma quisesse de fato defender a companhia, pararia de emprestar somas bilionárias aos grandes empresários nacionais e internacionais para bancar o crescimento da estatal.

 

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Os fascistas ucranianos não gostam de estudar história (breve trecho)

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Estudar um pouco de história, bem pouco mesmo, já pode ser o suficiente para questionarmos algumas situações atuais. Com o início da Guerra Civil na Ucrânia em 2014, com uma revolta acontecendo no leste do país e trazendo a questão do separatismo e do vínculo da Rússia com a região. O nacionalismo ucraniano historicamente trata a Ucrânia como um país especial que resistiu a católicos, venceu os tártaros muçulmanos e resistiu as hordas orientais. Dentro da história nacionalista também existe a ideia, repetida por alguns “especialistas ocidentais”(como Usland que foi assessor no processo de estruturação capitalista nos anos 90) que o povo ucraniano é simplesmente descendente dos cossacos da região. O leste da Ucrânia e seu vínculo com a Rússia (ao ponto de ter sido chamado de Novorrussyia) é apagado e as vezes completamente vulgarizado com acusações de que “aquelas eram terras ucranianas, os ucranianos foram mortos por Stalin e substituídos por russos”.

O trecho a seguir vai falar brevemente dessa história.  Ele vem da biografia de Pedro O Grande escrita pelo historiador estado-unidense Robert K. Massie e publicada em 1980, ou seja, completamente desinteressado nos problemas atuais (ora, a União Soviética ainda estava de pé!). A editora Amarilys publicou em 2015 uma versão em português, que pode ser adquirida aqui (comprando através do link você também ajuda nosso site).

O nacionalismo ucraniano fala em ascendência cossaca como se os cossacos fossem simplesmente “velhos ucranianos” e não esclarecendo quem são estes, mesmo que até hoje eles tenham uma identidade étnica própria e, no caso dos cossacos do Don, um vínculo com a Rússia. A rigor existe uma confusão do Atamãnato que dominava de Baturin com os cossacos da Zarapozhia, esses chamados de “cossacos ucranianos” geralmente em contraposição a seus vizinhos do Don (que também já eram uma entidade autônoma, que no futuro seria uma das 11 hostes cossacas oficiais do Império Russo) . O que não se deixa claro logo para início de conversa é a existência já no passado de diferentes grupos cossacos e que tinham uma auto-referência que dificilmente pode ser chamada de “Ucraniana” ou “nacional ucranian”. Quanto ao leste, ali existiam vilas russas – e o processo de ocupação populacional ganhou força especialmente depois que os russos derrotaram o Khanato da Crimeia (o que ainda não tinha acontecido no momento tratado pela citação) e passaram a colonizar a chamada Novorrússia. Ali também teve um pedaço de território do Império Russo controlado pela Hoste cossaca da Zarapozhia. Posteriormente, boa parte daquela região junto com partes de atuais províncias russas formavam uma única província cossaca que perduraria até meados da década de 20 do século XX. O processo de concentração populacional continuaria no período soviético no processo de industrialização.  A insistência dos nacionalistas de se vincular aos cossacos (mesmo que exista alguma base para isso), se deve para suprir fragilidades na hora de se discutir a existência de um Estado ucraniano no passado.

Falam em cossacos “defendendo as terras ucranianas” ao se referir a uma hoste exigindo o controle de pastagens na Zarapozhia ou a um Atamã com a base de seguidores mutilada tentando manter seu poder em alianças arriscadas. Devido ao fato da região se chamar Ucrânia (“fronteira”), a confusão é natural, porém ela é forçada pelos ecos da historiografia nacionalista.

O trecho se refere aos cossacos como um “povo ortodoxo”. É muito difícil falar numa “ortodoxia ucraniana” naquela época, a não ser que consideremos um certo nível de descentralização dos serviços e possíveis diferenças regionais, no entanto, assim como quando nos referimos ao povo Rus e as dinastias russas, estamos falando de uma religião nasceu em Kiev e que naquele momento tinha sua fase madura em Moscou – a ortodoxia eslávica (mais corretamente chamada de russa?) assumiu autonomia em relação a Constantinopla em Moscou. A ortodoxia eslava ganhou autonomia de Constantinopla através dos russos. Quando o Atamã Khmeneltsky liderou uma revolta cossaca contra os poloneses especialmente por causa da opressão católica, com seu triunfo a ortodoxia ucraniana se vinculou oficialmente ao Patriarcado de Moscou. A revolta de Khmeneltsky pode ser chamada com algum esforço de “primeira revolta ucraniana”, de uma unidade política ucraniana. Não existiam a Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Kiev e a Igreja Autocéfala da Ucrânia, produtos do século XX de corte nacionalista e com forte elemento fascista em seu estabelecimento (a segunda foi reconstituída em 40 pelos alemães e em 90 pela UNA-UNSO). Nenhuma dessas duas igrejas tem reconhecimento canônico da ortodoxia mundial (a Autocéfala tem a vantagem do Patriarca Ecumênico reconhecer duas igrejas da diáspora nos EUA e no Canadá que acabaram se filiando a mesma). Hoje em dia uma grande parcela dos cossacos é de “crentes antigos” ou cismáticos, já que massas destes migraram para o Don e fundaram comunidades na época da Grande Cisma. O que é interessante notar também é que a maior parte da ortodoxia ucraniana segue os termos da ortodoxia reformada que causou a Grande Cisma.

Foi a Rússia que lutou contra os cruzados católicos do norte, assim como seria o principal inimigo ortodoxo do poloneses e lituanos. Também foi a Rússia que derrotou o domínio dos mongóis muçulmanos da Horda Dourada e que eventualmente acabaria com as incursões tártaras também citadas no texto. Enquanto nacionalistas ucranianos insistem em se glorificar como “campeões da ortodoxia” (as vezes do cristianismo para co-optar os católicos) ao mesmo tempo que acusam os russos de ter prosperado graças aos mongóis, esquecendo que seu herói Ivan Mazepa aderiu aos luteranos suecos e em última instância aos católicos poloneses, para depois da derrota se exilar junto a um sultão muçulmano. Mazepa, apesar de ter sido formado na alta sociedade polonesa, também não era exatamente um filo-ocidental assim como não era um nacionalista – Mazepa se preocupava em conservar seu poder no confronto entre a Rússia e a Suécia, mesmo tendo obrigações para com o Czar. O seu poder era o atamãnato que contemplava uma parte do Dniper, especialmente centros urbanos e representava especialmente uma nova classe de ricos proprietários de terra que substituíram os antigos senhores poloneses e racharam aquela parte da sociedade cossaca. Mazepa não liderou uma rebelião propriamente dita, o que ele fez é mais corretamente chamado de deserção. Escondeu suas intenções de se juntar a Carlos da Suécia até o último momento. Mazeppa fugiu com 2 mil cavaleiros quando um pequeno grupo de russos foi encontra-lo pacificamente em sua capital Baturin, orientados pelo Czar Pedro I (que acreditava na mentira de Mazeppa de que estaria “em seu leito de morte”; Mazeppa soube do grupo russo e deduziu que sua farsa tinha sido descoberta, entrando em pânico). O comandante do grupo russo retornou rapidamente para informar ao czar a deserção. Enquanto isso o Atamã se juntava ao Rei Carlos da Suécia, e quando voltou ao lado das tropas nórdicas a cidade já havia sido completamente destruída – um comandante russo havia vencido a corrido por Baturin (as tropas russas haviam negociado sua entrada, mas os cossacos pediram mais tempo do que os russos achavam necessário, o que gerou um desentendimento e uma ofensa para os cossacos que culminou no confronto – aparentemente o cerco teve uma conclusão rápida pois o portão foi aberto por um cossaco descontente). Mazeppa ficou desprovido de sua principal base e ficou relegado a condição de conselheiro do rei sueco, mas não de “chefe de revolta”. Os anciãos e oficiais cossacos logo se reuniram em assembleia e elegeram um novo Atamã, se aliando aos russos. “Em vez de Mazeppa liderar todo o povo ucraniano em direção ao campo sueco”, diz K. Massie, “houve uma divisão entre a minoria que o seguia e a maioria que permaneceu fiel a Pedro”. O historiador americano explica que a promessa de Carlos de proteger os cossacos surtiu pouco efeito e o leva o leitor a ver que se nesse período houve algum “sentimento nacional ucraniano”, ele se voltou contra a Suécia e a favor da Rússia. “O povo ucraniano [sic] permaneceu ao lado do czar e seu novo hetman, escondendo os cavalos e os mantimentos dos suecos e entregando errantes inimigos em troca de recompensa”. O próprio czar Pedro ficou surpreendido com a lealdade dos “pequenos russos”, “mais fiel do que seria possível esperar”, rejeitando as cartas e “propostas atraentes” do lado sueco. (pg. 552)

O grande fator de identidade dos cossacos na hora de se relacionar na grande política era justamente sua religião ortodoxa, o que os afastou dos poloneses e os identificou com a Rússia. O governo que tinha a responsabilidade de conter os ataques era o governo de Moscou, tanto na visão internacional como na sua consciência (isto é, era uma vergonha em Moscou), e foi este que repeliu os tártaros, não um Estado ucraniano que não existia, bem como não existia um antecessor sólido de tal Estado.  Isso, claro, não contempla só os cossacos, mas a população que vivia naqueles territórios ucranianos de uma maneira geral (muitos deles russos e outros que a historiografia quando reluta em chama-los de ucranianos tratam pelo nome de “locais”, que posteriormente desenvolveriam suas identidades nacionais). “Ucrânia” era um termo geográfico pra denotar fronteira (tanto no russo como no polonês) e antes de tal identidade nacional lá já era chamado de “Sul da Rússia” ou “Pequena Rússia”, especialmente o leste (na verdade a partir de Kiev). Na verdade, não só a Polônia e a Lituânia tinham suas próprias “ukrainas”, como a Rússia tinha mais de uma.

Segue K. Massie, que se refere às décadas finais do século XVII:

“A oeste e a sul, a Russia era cercada por inimigos que lutavam para conservar o gigante encravado e isolado. A Suécia, então reinando como Senhora do Báltico, mantinha a guarda desse caminho marítimo para o ocidente. A oeste estava a Polônia católica, antiga inimiga da Rússia ortodoxa. Apenas pouco tempo antes, o czar Aleixo havia reconquistado Smolensk da Polônia, embora essa cidade-fortaleza russa a apenas 250 quilômetros de Moscou. Posteriormente em seu reinado, Aleixo receberia de volta da Polônia o grande prêmio: Kiev, a mãe de todas as cidades russas e terra natal do cristianismo russo. Kiev e as regiões férteis tanto a leste quanto a oeste do Dnieper eram território dos cossacos, um povo ortodoxo, originalmente composto por vagabundos, saqueadores e fugitivos que haviam deixado para trás as duras condições de vida na antiga Moscóvia para formar bandos de cavalaria não oficiais, tornando-se depois desbravadores, estabelecendo fazendas, vilas e cidades por todo o norte da Ucrânia. Pouco a pouco, esses assentamentos cossacos foram se espalhando também para o sul,  mas os limites ainda permaneciam entre quinhentos e seiscentos quilômetros acima da costa do Mar Negro.

O espaço que os separava – a famosa estepe de terra negra da parte baixa da Ucrânia – permanecia vazio. Ali, a grama crescia tanto que às vezes somente a cabeça e os ombros de um homem a cavalo poderiam ser vistos de movendo acima da vegetação. Nos tempos de Aleixo, essa estepe era terra de caça e pastoreio de tártaros da Crimeia – descendentes islâmicos dos antigos conquistadores mongóis e vassalos do sultão otomano que viviam em vilas ao longo das encostas e encravadas nos rochedos da montanhosa península da Crimeia. Nas primaveras e verões, eles levavam o gado e os cavalos para pastar no capim da estepe. Com frequência, carregavam arcos, flechas e cimitarras, por vezes invadindo a paliçada de madeira de uma cidade e levando toda população como escrava.  Esses enormes ataques – que despejavam milhares de russos anualmente no mercado otomano de escravos – eram uma fonte de constrangimento e angústia para os czares no Kremlim. Todavia, até então,  não havia nada que alguém pudesse fazer a respeito.  De fato, por duas vezes (em 1382 e em 1571) os tártaros chegaram a saquear e queimar a própria Moscou. “

(Pedro O Grande – SUA VIDA E SEU MUNDO, K. MASSIE, Robert, 2015, Amarilys, Barueri, São Paulo, pg. 15)

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Mariategui, a educação laica e o mito

O balanço da “escola laica” não justifica, por outro lado, um entusiasmo excessivo para esta velha peça do repertório burguesa. George Sorel, vários anos antes da guerra, já havia denunciado a sua mediocridade. A moral laica, como Sorel com profundo espírito filosófico observava, carece dos elementos espirituais indispensáveis para a criação de caracteres heroicos e superiores. Ela é impotente e inválida para produzir valores eternos, sublimes. Não atende necessidade de absoluto que existe no fundo de toda inquietação humana. Não responde a nenhuma das grandes interrogações do espírito. Destina-se a formação de uma humanidade laboriosa, medíocre e dócil. Educa-a no culto dos mitos insignificantes que naufragam na grande maré contemporânea: a Democracia, o Progresso, a Evolução, etc. Adriano Tilgher, crítico italiano afiado, alimentada nesta linha da filosofia soreliana, faz em um de seus ensaios mais penetrante uma revisão substancial das responsabilidades da escola burguesa. “Agora que a crise formidável, desencadeada pelo conflito global, está lentamente a revolucionar a partir de suas bases o Estado moderno, a escola do Estado chegou ao momento produzir para a opinião pública títulos que legitimem o seu direito de existir. E devemos reconhecer que se há o espetáculo de uma guerra em que estão empenhados os maiores povos do mundo, não se revelou ainda, no entanto, qualquer um desses indivíduos heroicos, mestres da energia, que revelaram em grande número nas guerras passadas, insignificantes em comparação, isto é quase inteiramente devido à Escola Estadual e seu espírito de quartel, cinzento, nivelador, asfixiante”. E, considerando a própria essência da escola burguesa, acrescenta: “A escola do Estado é uma das três instituições, que destruiu o Estado moderno, caracterizado pelo monopólio econômico, centralismo administrativo e absolutismo burocrático, é subvertida em suas fundações. Os quartéis e burocracia são as outras duas. Graças a eles, o Estado conseguiu anular no indivíduo a liberdade do querer, a espontaneidade da iniciativa, a originalidade do movimento e reduziu a humanidade a um docilíssimo rebanho que não sabe pensar ou agir sem sinal de acordo de seus pastores. É, acima de tudo, na escola onde o Estado moderno tem o rolo compressor mais forte e irresistível com que é achatada e nivelada toda a individualidade que se sente autônoma e independente”.

(….)

A nova geração Ibero-americana não pode se contentar com uma fórmula fixa e cansada da ideologia liberal. A “escola laica” -escola burguesa, não é o ideal dos jovens possuidores de um poderoso afã para a renovação. Secularismo, como um fim [último], é uma coisa má. Na Rússia, no México, nas aldeias que se transformam material e espiritualmente, a virtude criativa e transformadora da escola não está em seu caráter secular, mas em seu espírito revolucionário. A revolução é dá para a escola seu mito – sua emoção, seu misticismo, sua religiosidade.

José Carlos Mariategui em “INTRODUCCION A UN ESTUDIO SOBRE EL PROBLEMA DE LA EDUCACION PUBLICA”, publicado em “Mundial”, 15 de Maio de 1925

Mariategui não é contra a escola laica, pelo contrário, inclusive situa a mesma com importante conquista histórica. Crítica, no entanto, a transformação da escola laica numa espécie de “bandeira revolucionária máxima”, que irá resolver todos os problemas e que se instituí como mito mobilizador. O problema é que o secularismo escolar não é forte o suficiente pra ser um mito político, e revolucionários e reformadores de sua época estariam fazendo uma aposta errada ao se agarrar a semelhante bandeira. Atualmente, surgem várias bandeiras simplistas e milagrosas de caráter semelhante, a ressurreição de alguma – a educação segue sendo seara favorável pra esse tipo de coisa, “essa educação vai transformar o Brasil”, “vai mudar o mundo”, “se os alunos sentarem em roda o mundo se tornará um lugar melhor”. Claro que podemos pensar em centenas de outras coisas (entre elas o voto distrital, o veganismo, o ateísmo político, poli-amor, pan-sexualidade, drogas, participação digital, new age, auto-ajuda, kindle, geração google, micro-bloggin, fraseologia solidária, micropolítica, sustentabilidade…. nossa, a “política verde”, como não lembrar dela e a peça que já pregou especialmente nos jovens europeus? Antes que eu me esqueça, os valores de merda da Geração Y também estão contemplados). Lembrem-se disso não só quando olharem para certas palavras novas, levando em consideração que citei uma dúzia de “coisas progressivas”, mas também quando verem a re-edição pomposa de palavras velhas, quando encherem a boca pra falar de “cidadania” como algo revolucionário, por exemplo. Sabe essas coisas que excitam as crianças, que mobilizam escolares, aquelas “mobilizações” que vemos na televisão aberta sob boas cores? É ridículo ver na mídia e no dia-a-dia a articulação de um discurso genérico de anti-corrupção + virtude civil como profecia do Brasil perfeito. Esse tipo de discurso cola muito bem em situações institucionais, neutras ou na boca de empresários engajados. O poder mítico delas é inversamente proporcional a seu abuso. Naturalmente também estou contemplado quase todo o dicionário conservador, que são especialistas em pegar coisas passadas para torna-las na grande solução.

Mariategui também fala da fraqueza dos grandes mitos modernos. Hoje essa falência parece mais evidente no noticiário e o niilismo mil vezes mais profundo.

Sua referência a educação revolucionária não é única em sua obra – ele manifesta admiração pela educação soviética em outros textos, especialmente em outro concernente a essa questão do mito, onde cita algum visitante ocidental impressionado com o “clima religioso” das escolas soviéticas ao tratas da Revolução, do comunismo e da figura de Lenin, ao que Mariategui responde com aplauso.

A. D.

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Fidel: “Não há nada pior do que dar as costas ao inimigo”

“Se aprendi uma lição, em todos esse anos que tive de desafiar a morte, desarmado muitas vezes, é que o inimigo respeita os que não teme, os que o desafiam.”(Fidel em FURIATI, 2003, pg. 691)

Em 2003 o governo Bush havia incrementado as tradicionais ações anti-castristas, ampliando o número de transmissões de rádio contra o regime para a ilha e os estímulos para a imigração ilegal. Num período de sete meses até abril de 2003 ocorreram sete sequestros de aeronaves e barcos com o objetivo de tomar rumo a Flórida, onde os sequestradores armados e violentos às vezes eram presos mas sempre acabavam liberados e com uma permissão de residência.

A representação diplomática dos EUA em Havana (que não é uma embaixada) intensificou e radicalizou sua função de organizar uma rede de dissidentes. Como foi exposto posteriormente, o escritório entregava diretamente os financiamentos de operações de grupos opositores, incluindo os 22 milhões de dólares que o USAID havia enviado para estes grupos (valor citado por Adolfo Branco, coordenador do USAID para a América Latina, no Congresso Americano no dia 27 de Fevereiro de 2003).  O chefe da representação, James Cason, reuniu 17 chefes de oposição em sua casa no ano de 2002, além de promover reuniões em Havana e outras províncias para ratificar apoio moral e financeiro a grupos diversos, além de recrutar novos dissidentes (entre criminosos e figuras com algum potencial de influência pública, como atuação no campo cultural). Os contatos foram alardeados publicamente e eram articulados em conjunto com a Fundação Cubano-Americana

Fidel Castro, perante a publicização desses fatos e o alarde no congresso americano, chegou a advertir o chefe da representação, que seguiu com as reuniões mesmo assim. Mesmo que em Cuba não se exercesse um controle ideológico extremo, prisões de consciência e até exista algum espaço para visões muito discrepantes contra o sistema (e essa liberdade política vem aumentando), a articulação de uma oposição organizada pelos Estados Unidos era um sacrilégio duplo contra a Revolução – uma oposição organizada ao sistema é inadmissível, pior se essa organização é direta e desavergonhadamente realizada pelo imperialismo. Nos dias 18 e 19 de março foram detidos pela polícia cubana 65 participantes dessas reuniões, posteriormente se totalizariam 75 presos – as penas variaram entre seis e 28 anos de prisão, com os julgamentos focando na rota do dinheiro e nos testemunhos de agentes infiltrados.

O último sequestro dessa onda foi horas antes do julgamento desses dissidentes. Três homens sequestraram uma barca com cinquenta pessoas a bordo, incluindo algumas crianças e turistas estrangeiros. Ficaram sem combustível e, encurralados pela guarda costeira, exigiram uma outra lancha para seguir a viagem rumo a Miami, caso contrário começariam a matar reféns. Os Estados Unidos que tinham o compromisso de colaborar (intercepção de necessário) devido a uma declaração conjunta de 1995 sobre a questão migratória, mas o Departamento de Estado lavou as mãos. Foi depois do resgate que ocorreriam os julgamentos, com quatro cúmplices punidos com prisão perpétua e os três sequestradores com a pena de morte – duas penas excepcionais (os fuzilamentos foram característica do início da revolução, só tendo reaparecido num episódio dos anos 80 em que funcionários de alto escalão foram fuzilados por alta traição e outros crimes, o caso Ochoa-LaGuardia).

O governo Bush havia desencadeado uma ofensiva renovada contra Cuba, cortando todas as linhas de intercâmbio estabelecidas por políticos e empresários com Cuba nos últimos anos, e ignorando os acordos migratórios que haviam sido firmados pelo governo Clinton. A estratégia consistia em acompanhar a crise econômica em Cuba (falta de petróleo), criar uma nova crise de balseiros e ter uma base política preparada para desafiar o regime no momento de fraqueza, sem descartar a possibilidade de intervenção militar direta (esposada pelo na época embaixador dos EUA na República Dominicana, Hans Hertell e o irmão do Presidente, atualmente ex-presidenciável, Jeb Bush) – a invasão do Iraque era fresca e ainda considerada um sucesso (removeu Saddam Hussein do poder, porque não fazer o mesmo com Castro?). Mesmo assim, a onda de repressão e as execuções gerou reprovação de amplos setores das esquerdas e intelectualidades do mundo, inclusive de aliados de Cuba.

A biógrafa Cláudia Furiati (2003, pg. 687), usada como nossa principal referência até agora, cita a justificativa de Fidel:

“[foi] Imprescindível, porque há que acabar com essas ações pela raiz. Ninguém pense que isso não foi bem analisado… Doía-nos, de antemão, lastimar muitos amigos e um grande número de pessoas no mundo, por motivos de caráter religioso, humanista ou filosófico… Questionávamos a pena de morte, ao triunfar a Revolução ou naqueles anos de invasões, guerra suja, atentados? Certamente não… Os movimentos políticos, tanto revoluções como contra-revoluções, tiveram que se defender por algum meio… Olhávamos a questão como de vida ou morte… Se revolucionários não se defendem, sua causa é derrotada e terão que pagar com a própria vida…”

Che Guevara havia dito décadas antes na Assembleia Geral da ONU: “Fuzilamos? Sim, fuzilamos e seguiremos fuzilando enquanto for necessário. Nossa luta é uma luta até a morte.”

Furiati (iden.) explica a lógica da “justiça revolucionária” em termos bem schmittianos: “[ela] pode se mostrar intransigente ou tolerante, digna ou aterradora, dependendo do significado do ato, do contexto e seus possíveis efeitos internos e externos. Constrói, em cada circunstância, uma ética particular, e pauta-se pela necessidade de sobrevivência do Estado. Insere-se, afinal, na lógica da guerra, guiando a política, como a defesa possível – um princípio utilizado por qualquer sistema sob ameaça. Sem proteção, a Revolução cubana defende-se como pode e só. Quanto a seu Comandante, estudando posições e movimentos do adversário, regressava ao front e à trincheira, passado um recado: ‘Jamais se levantará a bandeira branca. Geração após outra, lutaremos contra tropas ocupantes..’”

Qual foi a lógica imposta a Cuba pelo imperialismo, senão a lógica da guerra aberta?

Mais tarde,  Fidel Castro discutiria o fuzilamento dos sequestradores e a onda de prisoes com o biógrafo e jornalista do Le Monde, Ignacio Ramonet. O líder cubano destilou sua filosofia:

“Não me importo que me digam milhões de coisas, porque estou habituado a ataques, e às vezes chegam ataques de todo tipo, alguns tão infames que chegam a provocar náuseas.

A luta segue por esse caminho e é preciso saber reagir. Chega uma hora em que montam nas suas costas. E você diz: ‘Tudo bem, é só uma provocação’. Mas você pode não pode deixar de reagir. De que modo uma provocação busca tais objetivos pode ser contida, e a partir de qual ponto não pode mais ser contida? Eles estavam decididos a fazer tudo o que pudessem para provocar situações…. Então se chegou a um ponto, na nossa opinião, que era o limite para que ainda pudéssemos conter a situação. Esse foi o elemento que determinou nossa reação, o resto é coincidência.

(…)

O inimigo faz também uma luta psicológica. Se o inimigo acredita que você o tolera, se o inimigo acredita que você não faz nada, desencadeia-se nele o que biologicamente se poderia chamar de instinto de perseguição.

Os domadores de leões às se vezes se viram de costas para o leão, usam o látego, o chicote, que faz barulho, e de vez em quando fazem assim, saúdam, buscam os aplausos, e depois voltam outra vez para lá, porque senão o leão reage, por instinto de perseguição. Até um cachorrinho vira-lata, desses mansos, vai começar a latir se você fugir, vai sair correndo atrás de você e pode até lhe morder a calça. Mas, se você se virar, o cachorrinho vai parar e voltar. Isso já aconteceu comigo no mar. As barracudas, os tubarões, quando você os enfrenta, despertam-lhe o instinto de conservação, e isso os faz retroceder. Não há nada pior do que dar as costas ao inimigo, porque ele desenvolve esse instinto de perseguição, isso no caso dos animais selvagens, mas um império é muito mais que um animal selvagem, e a psicologia dos que dirigem um império e manejam suas armas é a dos animais selvagens.

É preciso enfrentar os animais ferozes. Primeiro, o império tem de saber que vai haver luta e que o preço será alto.”

Bibliografia:

CASTRO, Fidel, RAMONET, Ignacio. “Fidel Castro: Biografia a Duas Vozes”,  Boitempo Editorial, 2006, São Paulo, pgs. 402-403.

FURIATI, Claudia. “Fidel Castro – Uma Biografia Consentida“, Editora Revan, 2003, Rio de Janeiro.

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Canal Realismo Político – Entrevista com tenente cossaco!

GUERRA NA UCRÂNIA – ENTREVISTA COMANDANTE IVAN RICHIE E VADYLA com André Ortega e Rafael Lusvarghi

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Comandante de pelotão de um batalhão do Grande Exército do Don (cossacos), membro da milícia insurrecionária do leste ucraniano, fala de suas motivações pessoais e perspectivas em relação a guerra. No decorrer da entrevista (que aconteceu em condições um tanto quanto espontâneas, e o frio não estava fácil!) vem a intervenção do mineirador parte da mílicia, Vadyla. O local é a cidade de Stakhanov, zona cossaca da República Popular de Lugansk.

A milicia novorrussa diz estar lutando pelo seu direito de auto-determinação frente uma junta ditatorial e fascista. Os ucranianos, por sua vez, os acusam de “terroristas”.

Entrevista realizada por André Ortega em fevereiro de 2015 e que conta com a importante participação do voluntário brasileiro Rafael Lusvarghi.

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Conflito congelado na Ucrânia

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Para quem não se lembra, a guerra civil na Ucrânia se dá entre um governo central pro-ocidente, com recortes chauvinistas, e um levantamento no leste do país, concentrado na região do Donbass, chamado de separatista, mas caracterizado pelo federalismo e o antifascismo em seu discurso. Ainda no fim de 2014, por volta de outubro, muito antes de Debaltsevo e das negociações de Minsk II, eu discutia a possibilidade do conflito na Ucrânia congelar (conflito congelado, frozen conflict). Naquele momento não passava de uma leitura geral da correlação de forças, da situação estratégica, misturado com algum bom senso e comparações com outros países. Toda vez que me perguntavam o que eu achava ou toda vez que eu me manifestava a respeito, não podia deixar de trazer essa opção. No fim de agosto do ano passado eu falei um tanto disso quando os ucranianos começaram a construir “O Muro de Dnipopetrovsk”, uma espécie de linha maginot misturada com cordão sanitário.  O processo de Minsk II e a intensificação da influência russa (tirando o próprio desenvolvimento estratégico) fortaleceram essa opinião. No entanto, o que mais contribuiu para essa minha posição foi o que eu pude observar em campo entre fevereiro e março de 2015 (por volta de 60% do tempo no front, na região de Lugansk). É minha experiência da guerra civil ucraniana que me leva a sustentar a opinião de que o conflito está congelado e o que em última análise eu chamo de um termidor novorruso (que é o apaziguamento das tendências mais radicais ou revolucionárias em prol das políticos e políticas adequadas ao congelamento). Neste breve período, além de testemunhar o que vou descrever, também discuti muito a questão com Alejandro Acosta (que escreve sobre política internacional), o que ajuda a lapidar o quadro – assunto era diário, a cada hora um exemplo. Essas conversas nos permitiam articular análises mais sofisticadas sobre o processo ucraniano além de constatar um congelamento que para nós já era o óbvio, o fato dado, então já cabia analisar.

O conflito congelado é um conflito não resolvido. É uma situação em que as repúblicas existirão de fato mas não serão reconhecidas, nem farão alguma paz com o Estado ucraniano. O Estado ucraniano desiste de suas ofensivas fracassadas, mas ao mesmo tempo não reconhece e os rebeldes não avançam. Escaramuças vão continuar e os ucranianos recorrem a uma “palestinzação” da região, não demonstrando tanto interesse em recupera-la a partir do momento que começou uma campanha de bombardeios devastadora e extremamente alienante (para a população civil). Seria um caso parecido com o da Transínistria, da Abkhazia ou da Ossétia do Sul. O problema e a diferença é que isso ressalta um separatismo, sendo que o separatismo não era exatamente o programa central, mas algo marginal dentro de um contexto mais amplo baseado principalmente no federalismo e numa concepção básica de antifascismo (o governo de Kiev é mau, “fascista”, mata o povo, então vamos combatê-lo).

Antes tudo, cabe ressaltar de eu estava com os cossacos. Por influência de Moscou os cossacos acabaram por aceitar, de cara feia, aderir a autoridade unificadora das repúblicas populares. Os cossacos mantiveram uma postura mais radical de oposição a negociações ao mesmo tempo que eram críticos dos dirigentes das repúblicas. Ischenko (subordinado ao Atamã Dryomov), comandante de Pervomaisk (cidade do front norte) fez videos furiosos denunciando as negociações e os dirigentes, antes de morrer assassinado por um comando de sabotadores.  Enfim, eu estava com os mais radicais e estava no front – se minha visão estivesse sendo de alguma forma distorcida, seria para o lado oposto do congelamento.

Os cossacos de uma maneira geral não demonstravam muita confiança em Minsk, por outro lado tinham confiança na continuidade da guerra – viviam falando de como em breve acabaria o cessar-fogo e a guerra voltaria com toda força. Muitos dali sonhavam com a retomada da cidade de Licithiansk, e depois dela seria uma grande estrada na direção de Kiev (estrategicamente verdadeiro – a tomada da cidade seria um grande triunfo e colocaria os ucranianos numa situação muito difícil). Não confiavam na boa vontade dos ucranianos, que estariam somente se reorganizando para um próximo ataque como fizeram antes – existem fascistas demais do outro lado para esses se interessarem por uma paz. Também tinham razões morais para recusar a permanência dos acordos, pois os fascistas que atacaram o Donbass e queimaram pessoas vivas em Odessa não poderiam ficar impunes.  Existem também os motivos pessoais, pois muitos estão fora de suas casas, situadas em territórios controlados pelo exército ucraniano.

Alguns, como muitos fazem por aqui, ainda argumentavam como a crise política e econômica obrigaria Kiev necessariamente a uma ofensiva, num ato de desespero que garantiria legitimidade política.

“É sempre o exército ucraniano que rompe, pois ele usa esse cessar fogo pra se reorganizar; se re-estruturam e partem pra ofensiva. (…) Falei com um amigo de Kharkov e ele me passou como está a situação econômica, de crise total, o açúcar que custava 5 grivnas agora custa 20, não tem carne no mercado, a economia está destruida. Eles têm de preparar uma ofensiva e apostar numa vitória ou deixam de existir, pois a situação está insustentável.” (Comandante “Richard”, Stakhanov; leia entrevista completa)

A realidade é muito mais desoladora. O que existe até agora (já o oitavo mês de 2015) é um conflito parado, sem ganhos ou mudanças estratégicas, onde a artilharia ucraniana as vezes arrasa zonas rebeldes e posições opostas trocam tiros de infantaria. Por incrível que pareça, o que eu vi lá e que veio se formando a partir do crepúsculo do ano passado foi uma guerra de posições reminiscente da Primeira Guerra Mundial, trincheiras incluso. Quem mais fez essa comparação foi  o voluntário brasileiro Rafael Lusvarghi (que fez algo como dez meses de guerra sem descanso); eu me lembro de mais alguém que disse o mesmo em público, porém minha memória me trai. O que tem de mais singular e móvel (mas ainda assim um tanto fixo, de posições) é a guerra de block-posts, em que os dois lados disputam por pontos de controles na estrada – elemento essencial para afirmar o controle territorial no início da guerra, agora menos importante. O que antes era uma guerra irregular, de guerrilhas, de alta mobilidade, virou uma guerra de posições lutada de um lado por um exército irregular.

O lado ucraniano está muito fraco para ganhar, está logisticamente degastado e com a moral decadente (devido não só as derrotas mas as ondas de recrutamento forçado). Suas últimas tentativas de ofensiva no pós-Slaviansk foram um fracasso total. A situação de crise não exige necessariamente a ofensiva, mas somente o prolongamento da condição de guerra – a existência perene do inimigo inclusive alimenta um discurso de legitimação em Kiev aliado ao recrudescimento do aparato repressivo.

O lado novorrusso não só conta com as próprias limitações militares para organizar uma ofensiva, como ainda tem que lidar com a posição de Moscou.  E qual é a posição de Moscou? A posição de Moscou é de buscar a paz por não querer caos e guerra na sua fronteira, por não querer consequências econômicas que vão dos abalos no mercado energético até as sanções lançadas pelo ocidente, ao mesmo tempo que acha conveniente uma zona rebelde dentro da Ucrânia como uma pedra no sapato dos anti-russos sentado em Kiev e acima de tudo uma pedra no sapato da estratégia da OTAN, que não pode incluir um país em guerra. Isto quer dizer que a Rússia acha conveniente o congelamento do conflito. Creio que quanto a isto existe um ponto de convergência entre diversos analistas (mesmo que alguns tratem de maneira estúpida e simplista como um mero “proxy russo” buscando realizar esses objetivos), entre eles Richard Sakwa em seus “Crisis in Borderlands”. É bom lembrar, claro, que a Rússia já tinha um carta contra Kiev na Crimeia, sendo a revolta no Donbass um inconveniente, uma dor de cabeça, um fato consumado com o qual ela deve lidar. A Rússia não tem interesse em anexar a região, pois isso só seria mais dor de cabeça. O melhor é congelar.

A influência russa passou a moderar as coisas de acordo com o que foi acertado em Minsk. Os rebeldes iam ter que se organizar e se unificar sob as repúblicas; as repúblicas deveriam criar um exército profissional ou pelo menos tentar…. até criaram um contrato! De repente combatentes e comandantes que lutaram um ano inteiro sem receber nada foram submetidos a um contrato oficial de uma das duas repúblicas populares; se algum comando se recusasse a assinar seria considerado um “makhnovista”, um desertor. Obviamente uma medida de controle, pois Moscou quer garantir que o aquilo que é conversado com os dirigentes das repúblicas seja de fato respeitado pelos combatentes em campo. Naturalmente também atraiu elementos que até então não haviam se metido na guerra e que não são exemplo de zelo patriótico (apesar de muitos terem saído logo quando não receberam pagamentos). Eles precisam de estabilidade, não de punição para “os fascistas de Odessa”, afinal estão jogando um jogo maior (como me disse um comandante em Pervomaisk, “agora não decidimos mais nada, somos pequenos perto de um conflito bem maior”). Certamente existem diversos emissários moscovitas trabalhando nesse sentido, para não falar dos novorrussos que de fato servem a essa visão.  Rússia também pode garantir maior segurança e talvez a expansão das capacidades defensivas (anti-artilharia) dos rebeldes. De qualquer forma é muito difícil para a Novorrússia ignorar o Kremlim, isso seria cair num isolamento mortal. Desta forma assumem dirigentes mais dóceis e a revolução perde seu sentido inicial (i.e. ir a Kiev, punir fascistas, federalismo, etc) em troca de sua sobrevivência na forma de um processo político distorcido na forma das repúblicas.

Países europeus que se envolveram diretamente em Minsk tem interesse em acalmar o conflito porque também tem suas economias feridas. Mesmo os Estados Unidos, que jogavam mais lenha na fogueira, moderaram sua posição por uma série de fatores: desilusão com a capacidade de Kiev vencer a guerra, a desorganização política do lado ucraniano, a disposição do presidente Obama em negociar ali para trabalhar em conjunto sobre o Oriente Médio, motivado por uma seguida de derrotas internacionais e pela pressão eleitoral. A Rússia então tem que mostrar boa vontade e manter os rebeldes sob controle.

O que vi em campo foi uma série de coisas relacionadas a letargia, paralisação, burocratismo e tudo que possa caracterizar um processo de congelamento. Muitos se esforçavam pela manutenção do status quo; comandante que elogiavam posições agressivas se esquivavam da responsabilidade assumir essas posições -aparentemente ninguém estava disposto a arriscar. O que eu vi numa posição avançada de trincheiras, 6km de Popasna (cidade controlada por ucranianos) é o melhor exemplo. O tenente responsável pela posição fazia de tudo para manter o status quo e um funcionamento “burocrático” das trincheiras, mesmo numa situação em que os ucranianos atacavam todos os dias, as vezes os dia inteiro! Apesar de seu nome de guerra, “Pirata” era um sujeito extremamente quadrado e pouco audacioso. O grupo de voluntários brasileiros (naquela época Unidade Che Guevara, criada por Dryumov), unidade de rasyvetika (“hasvetika”) (reconhecimento, sabotagem e diversionismo), tinha sua autonomia operacional solapada e seu serviço atrapalhado. Alguns russos ficaram impressionados pois afinal os brasileiros queriam se arriscar ao invés de cavar trincheiras inúteis e montar guardas infinitas (certamente não tão desnecessárias). “Trincheiras inúteis”, assim as viam pelo menos em comparação com as trincheiras kilométricas dos ucranianos, construídas com máquinas (não com pás) e com estruturas de alta tecnologia, feitas de concreto armado e com cômodos funcionais. As horas de guarda pareciam mais desoladoras sem o serviço de rasyvetika. Quando alguns brasileiros saíram com alguns russos para o reconhecimento, foi um escândalo – atirar nas posições ucranianas parecia absurdo mesmo com os ataques diários. A perspectiva de atacar se tornou inconveniente e para alguns comandantes seria sair de uma zona de conforto, sendo portanto necessário controlar/disciplinar as bases, sejam estrangeiras ou locais. Existe muita enrolação. Em Stakhanov as tropas passam um dia após o outro trancadas em quartéis improvisados, em outras cidades se observa a tentativa deformada de se retornar a uma “vida normal” (só que onde boa parte dos participantes são pessoas de uniforme militar).

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Conversei bastante com o voluntário Rafael Lusvarghi sobre o assunto, já que ele também queria se esclarecer sobre a situação – hoje ele com certeza a compreende com ainda mais profundidade. Depois desses episódios, Rafael se mudou para Donetsk, onde começou uma nova unidade, com quadros renovados, jovens ousados unidos no amor às armas, determinado a se rir desse status quo e conduzir ações contra o inimigo. Para ele o burocratismo e a inércia são muito desgastantes. Lusvarghi adotou uma postura de “paciência curta” e não aceita bullshit burocrático, o que obviamente gerou conflito com toda ordem de superiores. Seu costume de ir atacar as posições ucranianas e de eventualmente explodir torres inimigas o levou para além do conflito (não, não para o paredão): os brasileiros acabaram numa unidade de morteiro, onde as coisas funcionam num ritmo muito mais devagar. Essa semana Rafael se encontrou com Igor Strelkov, uma peça importante no começo da revolta mas que acabou se retirando do palco principal. Isso pode ter renovado seu ânimo de alguma forma (pelo o que conheço de Rafael, ele certamente aprecia suas críticas as repúblicas, seus líderes e boa parte de seus soldados). Strelkov é um tanto radical, subscreve a ideia de congelamento e considera isto nocivo. No entanto, parafraseando um prestigiado comandante de pelotão que entrevistei, Strelkov não é general, Strelkov é lenda – ou seja, é “passado”.  É difícil dizer até onde vão os braços de Strelkov, mas as dificuldades são claras. Além dessa situação em geral (que é o oposto do que ele defende), existem alguns pontos específicos. Seu principal aliado (“fantoche” para os detratores), Mozgovoy, está morto. Os atuais dirigentes das repúblicas são o oposto dele, Zarkachenko especialmente (que lutou sob ele) o renunciou. Ele sabe também que tem a oposição de figuras no Kremlim (ele provavelmente crê que é o caso do próprio Surkov). Ele lembra do passado, onde se envolveu diretamente na polêmica com o neo-comunista Kurghnyian por este ter servido como um emissário russo num processo de negociação envolvendo algumas forças de Donetsk e o exército ucraniano – forças poderosas trabalham no sentido oposto daquilo que ele pretende. O fato é que o conflito está congelado e que por enquanto é difícil ver como Strelkov poderia mudar qualquer coisa.

[A unidade de Lusvarghi já não existe mais~]

Assista o vídeo em que Lusvarghi fala um pouco das perspectivas da guerra e se inscreva no canal para acompanhar mais material da guerra na Ucrânia:

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No Brasil ninguém liga para corrupção – tudo é corrupção, nada é corrupção

por André Ortega

Estamos há cerca de dez anos falando de corrupção ininterruptamente, corrupção virou um sinal ideológico poderosíssimo no discurso midiático, político e cotidiano. Uma palavra mágica. Tudo é motivo para se falar de corrupção, tudo é corrupção, a corrupção está em todos os lugares, a corrupção é o maior problema, etc….

Estão todos falando de corrupção e sendo expostos a casos de corrupção mas a maioria ainda não tem muita noção ao que estão se referindo exatamente, falam raivosos dos “políticos ladrões!”, “políticos que roubam nossos impostos!”, “deputado é tudo ladrão!”.

Casos de compra de votos no congresso (Mensalão), de compra de políticos ou benefícios com propina, tráfico de influência, tudo isso vira no imaginário popular “roubar”, tirar dinheiro do erário público, coisa que não é.

Geralmente corrupção nos altos cargos não se trata de “meter a mão”, mas sim de ser comprado por algum interesse privado, servir algum interesse privado a revelia da lei; isso num mundo em que os interesses privados (vide construtoras) já são mais do que contemplados dentro da lei. Não basta ter os tecnocratas do Banco Central, não basta receber bilhões do BNDES – tem que dar um jeito de sair da lei por garantia. Meter a mão é mais do domínio das prefeituras, ou melhor, quanto mais se baixa na hierarquia federativa, mais se rouba – prefeituras são especialistas em sumir com repasses federais, hospitais e sistemas de saneamento viram belas misturas de nada com coisa nenhuma. No entanto, pouco se fala de prefeituras, esse pequenos feudos que povoam a base política do país. Falam muito de presidente, de deputado, mas esses não tem tanta visão de enriquecer – além de seus salários gordos eles tem a sua disposição toda ordem de bajulações do setor privado, somadas com os benefícios que são prerrogativas de seus cargos. Um prefeito de uma cidade pequena ou média tem muito mais perspectiva de fazer a vida de uma vez através de seu cargo, de montar aquela chácara paradisíaca, de comprar aquele carro de luxo, comprar aquele posto de gasolina da cidade, de aumentar seus bens em imóveis…. e é muito mais fácil de roubar quando se é prefeito.

Falam tanto de corrupção, mas só falam das altas instâncias, se esquecem da corrupção disseminada, não só nas prefeituras (vergonhoso) mas em serviços públicos e até mesmo nas estruturas do judiciário. De qualquer forma, foquemos na corrupção que não é roubo mas ainda assim é tratada como tal. Como nós chamamos quando as pessoas passam uma década falando em corrupção, consumindo diariamente casos de corrupção mas ainda assim só falam de roubos e de ladrões? Nós chamamos de tragédia.

O que é a corrupção na tradição republicana, de Aristóteles e Cícero à Montesquieu e (principalmente) Maquiavel? É a erosão da virtude do cidadão enquanto tal, isto é, enquanto membro da coletividade política, é quando aquelas qualidades necessárias pra manutenção da república desaparecem, é oposto do sentimento e do engajamento cívico. A sonegação fiscal é uma forma óbvia de corrupção, mas uma grande parcela dos “preocupados” defendem a sonegação dos milionários como justa e aceitável.

Isso é uma tragédia pois mostra que as pessoas simplesmente não entenderam o problema da corrupção, não entenderam que se trata de um vício político, uma coisa hostil a coisa pública. De certa forma internalizaram a mesma lógica da corrupção, uma lógica privada, individualista, anti-cívica.

Só conseguem pensar no “político ladrão”, o errado é simplesmente roubar, não pensam no político que vende a dignidade da cadeira e seu fardo de representação, que, mais do “enriquecer ilicitamente”, arruína a coisa pública.

Eu conheço vários ostentam sua lógica hostil a coisa pública ao mesmo tempo que rosnam contra a “corrupção”. São pessoas que se realmente confrontadas com o que é um crime de tráfico de influência (o “crime do Lula”) na verdade não vão achar crime nenhum. Afinal, qual é o problema de você recomendar um amigo, uma mão lava outra não é mesmo? Não estou roubando nada afinal! Conheço exemplos na política. Vivem no individualismo, no familismo, no favoritismo, mandando no espaço público como se mandassem num feudo. Isso é abrangente, até as corporações estrangeiras exemplares que tanto cultuam sabem disso: sabem que aqui existe uma cultura de favoritismo e que isso é um fator de grande fricção nos seus negócios na forma de ineficiência e corrupção (assim elas formulam; mas não vejo os estrangeiros como uma espécie de “santos”, não são mais morais, talvez um pouco mais profissionais – profissionais que também sonegam, também lavam dinheiro, também desviam dinheiro e tudo mais). Isso acontece DENTRO das empresas, dentro do exemplar setor privado. Isso é tão presente na lógica do setor privado que ele acaba se tornando o pivô da corrupção no Brasil.

O papel fundamental das empresas privadas, que são as que buscam os benefícios dessas práticas, é negligenciado, esquecido. Essas sim querem saquear o Estado, mesmo quando estão prestando o serviço contratado estão sobre um contrato concedido a margem da lei, conquistado com subornos. Ladrão é o empresário ambicioso que procura o corrupto, pagando uma propinazinha que não passa de um investimento – afinal, não é essa a lógica do mercado? O mais forte é aquele que sobreviver.

No nosso modelo de capitalismo especialmente, que com certas pressupostos podemos chamar de “capitalismo burocrático”, rapinar o Estado é uma necessidade, é uma prática que faz parte da base do sistema. A Petrobrás é exemplar, com todo um complexo econômico que surge ao redor dela (consultorias, petroquimicas, distribuidoras, fornecedoras, etc). As empresas estrangeiras também não ficam atrás, pelo contrário, são as que mais sugam, seja na hora de ter suas operações estabelecidas pelo BNDES ou seja na hora de violar a lei mais abertamente (caso do metrô paulistano).

A corrupção é e sempre foi uma realidade encrostada no nosso país. Lembremos que Jango liberou 60 milhões do banco nacional para financiar uma fazenda para o General Amaury Kruel (vide Paulo Schilling, 1979), como forma de suborno comum na República Nova (onde os militares já tinha um cacife grande), o que não impediu ele de aceitar seis malas de dólares para trair Jango no golpe de 1964. É ridículo pensar que ainda hoje há quem acredite que “não havia corrupção”, sendo que o golpe em si já foi trocar a pátria por um prato de lentilhas (que a desgraça recaia no nome de todos os golpistas).  É necessário lembrar também dos caóticos anos 90. Com memória curta alguns brasileiros hoje fingem que a corrupção começou com o governo do PT, ou são desonestos e falam de “pior corrupção da história”.  A própria onipresença da corrupção no vocabulário político é produto de uma escusa campanha política do antipetismo, que foi o que imprimiu a imagem no imaginário público através de uma guerra de comunicação.

Ser “contra corrupção” virou somente um código vulgar para ser anti-petista, é a desculpa para a oposição radical ao governo instituído, como se ele fosse especialmente corrupto.

Não nego a corrupção – pelo contrário, acredito que é uma praga um tanto abrangente, parte da crise moral e política da nação. Só lamento que ninguém realmente se importe: o debate se polarizou entre os que fingem que se importam (anti-petistas) e os que subestimam o problema (governistas).

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Não saia por aí dizendo que “os historiadores que falaram” – URSS x Alemanha Nazi (diferentes objetos de estudo)

Soube de um católico conservador rebatendo recomendações de livros para construir uma imagem mais clara da URSS como uma coisa de “malucos”, “assim como os nazistas tem seus defensores que vão contra a visão hegemônica, existem esses caras que defendem a URSS”. O argumento é uma mentira que equipara coisas que são simplesente diferentes. A ideia por trás de um certo culto a historiografia é uma ideia falsa, um falso ídolo. Um grupo de mentecaptos finge que a historiografia é um grande bloco unificado de “produtores de verdades”. Antes de tudo temos que dizer que nossa historiografia passa por um um grande salto no século XX em termos de método e teoria é uma construção que surgiu na aurora do século XX  num processo de consolidação das ciências humanas na academia e através de um debate que dizia ao manejo correto de fontes históricas principalmente da épocas do passado, como a antiguidade. Surge um processo de superação de “história como narrativa dos grandes fatos” para se tornar história sociológica, a “sociologia do passado”, a necessidade de se estudar as formas sociais dos períodos históricos. Mesmo assim, como sempre o escrever história sempre foi uma forma de escolha política, de escolha de métoo e escolha do foco (César e a Educação, César e a Religião etc), se Mommsem era aceitável, se aquele historiador tem uma abordagem aceitável da Renascença, etc. Por exemplo, Christian Meier escreveu o grande Republica Amissa sobre a história da Roma tendo em conta o pessimismo e a decadência dos valores políticos no ocidente durante a Segunda Guerra, a sensação de deslocamento, argumentando que a queda da república foi a falta de vontade e incapacidade dos romanos de manter suas tradições republicana. A historiografia dos fatos contemporâneos é um problema mais complexo por si só, “outros 500″, sendo mais complicada ainda no caso do registro da União Soviética e dos países socialistas, já que estamos falando de produções ocidentais sem acesso a um outro mundo (político e cultural) fechado a eles. Não é a toa que na historiografia dos fatos contemporâneos o jornalismo assume um papel fundamental, tanto na construção das fontes como no próprio processo historiográfico e de registro (a reportagem jornalística vira uma forma de registro relevante que é desconhecido no passado). A União Soviética passou mais de 70 de pé e sem desclassificar arquivos, arquivos que são cruciais pra se escrever uma história “sólida” como esses senhores gostam de falar. Surgiu uma coisa no ocidente chamada “sovietologia”, os “sovietólogos”, que hoje inclusive é um termo muito pejorativo na historiografia. Os sovietólogos viviam de fazer elucubrações sobre a política soviética principalmente a partir de interpretações da mídia soviética e as vezes informações de procedência questionável, de “ouvi dizer”, de “fulano disse”. A “sovietologia” segue viva hoje nos coreanologos (Cuba não sofre desse problema, com os fanáticos de Miami que pintam o quadro mais monstruoso do país sendo praticamente isolados dos discursos mais respeitáveis, acadêmicos e oficiais). Muita literatura ruim se desenvolveu com o peso da Guerra Fria. Além de que, é um argumento desonesto esta o do católico – ele não está falando de nada em específico, ele só está falando de uma imagem negativa que ele tem e sugere que a imagem que ele tem a dominante. Será mesmo?  ”A URSS era uma ditadura do mal porque historiadores disseram isso”,  mentalidade religiosa incompatível com a historiografia, esperando que o historiador seja um óraculo da moral e da política que faça essa avaliação por ele. Ele ainda compara com o nazismo. “O Livro Negro do Comunismo” não pode ser justificado com autoridade, é idiotice dizer “é feito por historiadores, especialistas”, ignorando que é considerado um panfleto um tanto a margem do mundo acadêmico – é um panfleto político feito para forçar agendas anticomunistas a nível europeu, que fez cálculos demográficos de mortes do comunismo e compilou narrativas “terríveis” sobre o mesmo para dar a impressão de que “se era tão mau, deve ter matado isso”(ele não é uma obra sólida no sentido de números de mortes). Quem sustenta 100 milhões? “Mao – Uma História Desconhecida” também um trabalho fraco do ponto de vista historiográfico, não só fraco, mas ruim, contraproducente, que também não trata de números, somente diz no início que Mao Matou 60 milhões. Seria cabível que ele citasse a que ele se refere e como é um “consenso acadêmico”. Tudo que o tal debatedor está fazendo é mostrando como é um servo de senso comum, de impressões e não a mínima ideia do que está falando. Ele fala de um “consenso” que desconhece, ele provavelmente teria muito dificuldades se tivesse que fornecer obras que embasasse posições concretas (não genéricas sobre “o comunismo é mal”, mas factuais), O Livro Negro não é consenso, mas as pessoas tem esse péssimo hábito de cultuar livros ao invés de formar uma opinião através da leitura geral, querem “o livro da verdade”, muitas vezes nem lendo o tal livro eleito, quem dirá outros diferentes ou mesmo os que servem de base para esse Santo Graal.

Dizer que ele fulano era “ditador” é consideração política – os autores mais honestos sempre vão pelo caminho de deixar suas posições mais incisivas para os prefácios e introduções, que é onde vão deixar as impressões e considerações que tiveram da sua pesquisa, ou as motivações da mesma. A questão do comunista que não aceita que Stalin era um “ditador” não é um problema de registro histórico, mas de interpretação política, como é até pouco a questão Hugo Chavez (que era presente, não histórica).

Quando tratamos de Alemanha nós estamos falando de um assunto acadêmica e comercialmente hiper-explorado por vários autores, escolas, faculdades, academias e institutos de vários países, nos dois lados da Alemanha, nos Estados Unidos e na URSS, sem contar a historiografia “especialmente judaica”. O holocausto virou um tema independente de estudo; cada país produziu obras sobre sua relação com o nazismo e o holocausto dentro de suas fronteiras. A Alemanha nazi caiu por armas de inimigos, foi desmontada, a busca de relatos foi incessante – o holocausto tem uma particularidade incomparável na historiografia, em termos de se estabelecido como uma área, existe uma amplitude infinita de relatos, sistemas de registro de sobreviventes, entrevistas, etc… A ideia do revisionismo histórico vai partir justamente desse cenário consolidado.

Não existe tal coisa como “A Academia” como um grupo de deuses provedores da verdade. A todo momento teses de doutorado e pós-doutorado muito distintas, as vezes contraditórias, são aceitas. Grandes livros divergem consideravelmente. O debate é valorizado quando a historiografia não é simplesmente “narrar fatos” mas construir interpretações, desenvolver ferramentas teóricas para entender os acontecimentos . Sendo assim vamos ter, por exemplo, diferentes leituras da história romana com diferentes focos: Júlio César como o aspirante a monarca (E. Meyer, 1922), o amplo relato político de Gelzer (um tanto neutro, o que foi pioneiro na sua época; de 1921, famoso por republicação em 66), depois de Gelzer Strassburger foi marcante atacando as posições de César como aspirante a monarca (1938), que seria precursora para as grandes obras mais recentes de Christian Meier, Goldsworth e Luigi Canfora; Parenti, sem escrever uma obra historiográfica, também fez grandes contribuições ao debate; Toynbee, Ronald Syme e Lily Ross dão diferentes visões do confronto político na República tardia; um dos mais influentes, Erich Gruen, seria alvo da discordância de Richard A. Billows, mais contemporâneo, que reconhece seu estudo mas questiona as conclusões. Não espero que você seja familiar com esses autores, mas aproveitei a oportunidade de tê-los aqui para exemplificar a diversidade de historiadores com posições discordantes em único tema, sendo todas as obras de grosso calibre. Esse é um exemplo concreto que ilustra bem o meu ponto e que deixaria qualquer um desses “religiosos da história” incapacitados (na verdades esse não leem nada).

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