Você é a favor do impedimento?

Por André Ortega

Você é a favor do impedimento?

Não. Por que eu deveria ser?  Falando não do ponto de vista individual, mas como patriota, cidadão, pessoa comum: o que eu ganho com isso? Nem a nação e nem o trabalhador tem algo a ganhar com isso.

Pelo contrário, ao que tudo indica vai piorar. Tudo de ruim que o PT já faz contra a nação (entreguismo pra dizer o mínimo) e contra o trabalhador (austeridade pra dizer o mínimo) a chapa Temer-Cunha, a chapa que vai assumir o poder se a Dilma cair, vai fazer mais e pior. Não vão mudar nada nesse aspecto, ou melhor dizendo, vão piorar. O seu entreguismo e sua antipatia pelos direitos do trabalhador já é declarada, mais aberta ainda em José Serra, reconhecidamente um dos articuladores do processo. O que não veremos do mesmo, veremos do pior. Não há realmente nem uma preocupação nacional ou com o trabalhador da parte deles.

Eu ataco o governo e o condeno veementemente por entregar o nosso petróleo. A chapa Temer-Cunha se preocupa com o petróleo? Não, nem um pouco, estão ligados com o maior entreguista de todos que é José Serra, autor de uma lei que quer disponibilizar a totalidade do nosso Pré-Sal para estrangeiras.

Se não beneficia a nada de bom, não tem porque apoiar, isso é outro movimento, que representa outras forças e outros projetos que eu condeno.

Mas vai tirar esse governo corrupto do poder.

Grande parte das acusações de corrupção não passam de acusações vazias de mesa de bar e a maioria das pessoas que falam nisso estão nesse nível. Supondo que de alguma forma Dilma prejudique o país estando ali, como se sugasse, nada disso mudaria com a nova chapa no poder. Isso não muda também porque o sistema não muda. Temos que avaliar bem como funciona a corrupção e não vai ser Cunha-Temer que vão abalar as estruturas de poder.

O PT não é especial, não é uma organização criminosa e não é o partido mais corrupto da atualidade ou da nossa história. Isso é pura mitologia, mitologia com base em mentiras e enganações. Outros partidos como o PP e o PMDB costumam abrigar muito mais corruptos, pra não falar de toda corrupção que assola nosso sistema de cima à baixo. Eu digo “abrigar” porque dificilmente eu caíra na ignorância de tratar a instituição toda como feita para a corrupção (é o que fazem com o PT).

Se o problema é corrupção, esse processo de impeachment é uma farsa, um circo, uma fraude, desprovido de legitimidade ou confiança. É um processo moralizador conduzindo por um bandido do naipe de Eduardo Cunha e onde votam e se mobilizam pelo impeachment notáveis corruptos, grandes desonestos, fisiologistas, mutrequeiros, ratos de conchavo. Fica exposto também que o processo  está sendo conduzido no sentido dos corruptos salvarem a própria pele e deterem o descontrole do lava-jato, retomarem as rédeas da situação política, com o exemplo maior na figura do próprio Eduardo Cunha, um réu conduzindo um processo contra um presidente. Uma equipe de oligarcas e corruptos não só votou “SIM”, não só se prestam a beijar as mão de Cunha em salas fechas, como ainda por cima o ovacionam em público quando julgam necessário. É um espetáculo de falta de vergonha na cara, bem exemplificado pelo fato do prefeito de Montes Claros ter ganhado uma homenagem ontem na hora do “SIM” pra ser preso hoje mesmo pela manhã.

Isso é ridículo. Um impeachment conduzido por Cunha e de fraca base legal carece de legitimidade. Não somos um país parlamentarista, essa excrecência que é o ideal dos plutocratas do congresso, somos um país presidencialista. Essa carência dá um nome diferente para esse impedimento: golpe. É um golpe parlamentar.

Alguns que dizem que “se fosse o contrário, fosse com o Aecio, ai seriam a favor!”, por favor, tragam essas provocações estúpidas para o mundo real e veja o que sobra. Aécio ia ser impedido por esse congresso com essas motivações? O que nós temos é um congresso extremamente conservador, antipovo e antinação. São coisas diferentes, não adianta apelar para o fato do congresso ter sido eleito, porque isso é algo que diz respeito ao presidencialismo…. o cargo de presidente é mais popular, é plebiscitário e não essa piada que é a corrida eleitoral para o parlamento, essa distorção plutocrática que coloca em risco a própria estabilidade e viabilidade institucional.

Enquanto os que diziam “NÂO” falavam coisas razoáveis sobre democracia e legalidade, sobre o que era pertinente ao processo, o grosso dos que diziam “SIM” falavam de suas famílias, fazem tudo pela família, não é a toa que são mafiosos feito Eduardo Cunha – a primeira coisa que os corruptos usam pra se justificar é “familia em primeiro lugar”. Apelaram para Deus, para a religião, para a hipocrisia e o cinismo de corruptos que querem falar contra a corrupção abraçando o gangster Eduado Cunha. Quando muito, apelavam para o eleitorado, o que também é uma noção particularista, além de hipócrita, já que esse eleitorado não participou dos jantares com Cunha-Temer e não será beneficiado pelas falcatruas. Teoricamente a autonomia do mandato representativo serve pra evitar isso, mas esses senhores que pintam o cabelo não tem fibra moral e não querem perder a boquinha de jeito nenhum – eis um grande vício da democracia, existe uma lógica de mercado nesse mundo, mas não só um mercado eleitoral, já que os jantares Cunha-Temer também são práticas baixas e mercantis.

Esses acontecimentos mostram a verdadeira face da velha política e dos velhos políticos, essa minoria de vendilhões oligarcas. Nós temos é que atacar e superar, varrer da política esses velhos políticos, e são esses velhos políticos, oligarcas, conservadores, corruptos que fazem da política uma grande sujeira, são esses que conduzem o impedimento, então não vejo sentido algum nisso. Não é possível não enxergar um golpe desprovido de legitimidade, vindo de toda essa sujeira, de políticos conservadores e corruptos do congresso, é claro que se trata de um processo sem legitimidade alguma. Essa é a face política desse movimento (e mesmo que fosse contra o Aécio) e não vejo sentido em apoia-lo, pois é um movimento desses políticos conservadores e corruptos, é um movimento que não tem boas pautas e não vai trazer nada de bom.

Não se trata de defender o governo Dilma, mas de perceber que nada de bom sairá desse processo. Não existe nenhum procedimento criminal contra a presidente, existe sim contra os principais condutores do impeachment e vários de seus defensores, inclusive muitos deles condenados. Não é a toa que constantemente recorrem a argumentos que serviriam numa corrida eleitoral mas não no processo de destituição, como lamúrias sobre a situação da economia.

E me perguntam: mas e a economia?! A condução dela é em primeiro lugar assunto da Presidente, não do parlamento. Isso não é pauta de impedimento e Temer não é o salvador da economia, e ele, cínico, sabe muito bem disso e já faz discursos que tentam conciliar essa realidade com as expectativas ingênuas de muitos. Esta crise não é a crise do PT, é a crise internacional, uma crise que neste momento se abate sobre o mundo todo. O nome disso é capitalismo, são as limitações do nosso sistema capitalista atual. O remédio amargo do governo, o remédio amargo da austeridade, vai ser mais amargo ainda com a chapa que será alçada ao poder por esse movimento. É a chapa que faz os comentaristas da Globo News babar dizendo que “precisamos de um governo que tome medidas impopulares” (como a reforma da previdência), e o que melhor para isso do que uma junta golpista? Esses mesmos vão passar a falar da “sanitização da economia”, cantar loas que serão repetidas por papagaios idiotas pelo país, “ah olha só o país tá uma merda mas a economia está melhor”.

Esse é um movimento das forças mais reacionárias e plutocráticas do nosso país, dos senhores que tratam política como negócio, que tem a cabeça semi-feudal, não querem o país industrializado porque isso afeta seus senhores do agronegócio, velhos oligarcas para quem não importa o nível de oportunismo do PT, pra eles os petistas são aliens, não são oligarcas feitos eles, “tudo boa gente”.  É um movimento pela restauração conservadora, que quer destruir toda e qualquer traço de nacional e popular que exista na nossa vida pública. Não temos uma revolução no Brasil, mas vem a contrarrevolução neoliberal e conservadora, os fundamentalistas da “sanidade fiscal”, os que falsos profetas que se arrogam o título de paladinos de Deus, os jagunços de terno  e as viúvas do militarismo. É uma ofensiva perigosa e aventureira para tomar a presidência de assalto, eles querem pintar e bordar à revelia do povo e sobre os olhos brilhantes de seus senhores estrangeiros. Eles se dizem contra o desemprego mas acreditam em “desemprego estrutural para combater a inflação”, a solução pra eles é arrochar salários, cortar direitos, cortar programas sociais e entregar de forma definitiva as nossas riquezas nacionais. Muitos deles não querem poupar sequer o nosso Banco Central, dizem conceder a ele mais “autonomia”, autonomia que nesse caso é sinônimo de dependência do capitalismo nacional. Querem que a carteira assinada vá para o inferno, não querem o re-ajuste de pensões de aposentadoria e sonham em congelar o salário mínimo. Eles opõem que o BNDES cumpra sua função de banco do desenvolvimento nacional, querem fundamentar uma destituição com base no uso de fundos pelo governo para fins de programas sociais (!!!), querem austeridade mais profunda, mais radical, austeridade permanente. No geral e no histórico, isso é mais um subproduto da intensificação da crise mundial que deixa o imperialismo e os apostadores internacionais mais sedentos, uma situação que favorece esse tipo de golpismo de direita.

Quando falo em movimento, eu falo do movimento histórico, mas isso vale para o movimento de massas a favor do impeachment. Muitos se escondem atrás do discurso cínico e patético de que ” é tudo corrupto”, ao mesmo tempo que estão despreocupados com o congresso e todo mundo sabe que a maioria ali votou no Aécio Neves, detesta o PT há anos e só não se conforma com a derrota. Mesmo que existam pessoas bem intencionadas, é uma turma que quer terceiro turno, ou coisas bem piores que isso (militarismo ou monarquia, por exemplo). É óbvio para todos dentro e fora dele que o programa/pauta do movimento só se preocupa realmente com o PT e a Presidente, não existe nada de sólido contra a corrupção em geral ou contra os corruptos do congresso (que muitas vezes tomam parte das manifestações), é um movimento hiper-politizado (uma politização ruim) porém covarde na hora de estabelecer claramente quais são suas posições ideológicas. É um movimento de massas (e isso inclui dirigentes, como o MBL e VemPraRua) que não coloca as questões mais importantes para o Brasil, não questiona verdadeiramente a corrupção, não fala das perdas internacionais, não falam contra o massacre no campo e que acha que o Bolsa Família é o problema do país, não se importando nem um pouco com a farra dos banqueiros. O pior é que esses movimentos tem ligações diretas e até mesmo financeiros com órgãos norte-americanos, o que aumenta o seu caráter de serviçais do imperialismo. Eu não tenho nada que ver com essas massas, não me intimido e jamais me intimidarei com números – defendo princípios.

Voltando ao congresso, como vamos apoiar um movimento desses? É um movimento completamente desmoralizado, vindo da boca do lixo do congresso para os que dizem que detestam corruptos aplaudir esse circo de plutocratas? Bastava assistir a votação para pelo menos perceber algo estranho. Não vou legitimar essa farsa conduzida por verdadeiros defensores do atraso, de rabo preso nos interesses que mantém o Brasil no ciclo da dependência econômica, política e moral. Por mais que eu tire essas conclusões partindo de posições muito específicas a favor da independência de nosso país, contra o liberalismo corrupto, acredito que encaminho respostas que podem ser compreendidas por qualquer pessoa comum e bem intencionada. Não compactuar com a farsa é necessário para quebrar o canto de sereia emitido pelo impeachment como uma “boa mudança”, como algo que cria expectativas e esperanças falsas com aquilo que não passa de uma manobra de um usurpador, de uma nova chapa para a presidência articular por Cunha, Temer e Serra. Essas figuras formam um bando de conspiradores que querem um governo ilegítimo, arbitrário e entreguista. A única liberdade que defendem é a de ficar mais ricos num país repleto de pobres, guiados por uma ânsia desumana por riquezas, afinal pensam suas famílias e filhos antes do bem-estar geral. Estão há anos encastelados em suas posições, querendo conservar elas a todo custo e descontentes com os aspectos mais progressistas da nossa Constituição de 88. São agentes coloniais, já que servem ao domínio de corporações que impedem que nosso país seja verdadeiramente forte e independente. São os que não possuem só o controle da política (dos municipios, a escola básica do roubo e da dilapidação, ao congresso), mas que controlam as alavancas da grande imprensa, das finanças, do latifúndio e dos negócios internacionais. O domínio dessa minoria sobre a vida nacional não nos trouxe nada de grande ou sequer bom até hoje, eles só pensam em suas mansões e iates, a política é mais um negócio, um negócio pra se manter na calmaria, uma concepção ultra-conservadora de política como o negócio dos notáveis da alta sociedade.

(nota: o irônico é que, além de programas sociais focados pela mídia, um dos beneficiários das pedaladas foi o agronegócio, esse opóbrio paparicado pelo PT e que teve seus representantes declarando seus amores na votação de ontem, “pelos produtores rurais!”)

Legitimidade é algo que constrói. Realmente, o voto não tem propriedades mágicas, é só mais uma ferramenta de legitimação. Muitos reclamam da “crise de legitimidade do governo Dilma”, mas que legitimidade podemos esperar de uma junta emanada de um golpe? Não haverá paz e nem a tal “conciliação nacional” de Michel Temer. Eu me lavo de responsabilidades em relação ao impedimento e também me lavo de responsabilidades em relação ao governo do PT, mas certamente apoiarei e excitarei a resistência democrática – não aceitaremos a farsa. Essa ilegitimidade abrirá para todos os patriotas a possibilidade de lutar sem ressalvas para afirmar o programa da independência, das soberanias nacional e popular. Temos defender a nacionalidade com inconformismo, insubmissão e resistência.

Chega de ilusões e chega de barões! Eu não me enganei com o programa da Dilma nas eleições presidenciais e jamais me enganarei com as mentiras da chapa golpista!

ANEXO:

Vejam aí o tamanho da farsa, o tamanho da cara-de-pau e sem vergonhice. É essa a democracia parlamentar dos plutocratas. Eles querem RECOMPENSAR UM CRIMINOSO, partindo do pressuposto de que ele é um criminoso. QUEREM CASSAR UMA PRESIDENTE ELEITA COM VOTO MAJORITÁRIO SEM CRIME NENHUM, SEM ESTAR SENDO ACUSADA DE CRIME, MAS QUEREM SAFAR UM CRIMINOSO. Isto é obsceno:

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/18/politica/1460943585_924610.html?id_externo_rsoc=FB_CM

Entre seus correligionários, porém, já existe uma movimentação para que ele não perca o mandato. “O juízo da casa é um juízo político, de conveniência e oportunidade”, afirma o deputado Osmar Serriglio (PMDB-PR), para quem o processo no Conselho “não vai dar em nada, uma vez que o Cunha tem maioria lá”. De qualquer forma, o paranaense considera a cassação do mandato uma punição muito severa. Ele cita uma supostadecisão do Supremo segundo a qual “mesmo sob juramento você pode mentir para não se prejudicar”. “Logo é duvidoso ele ser condenado por mentir sem estar sob juramento”, diz Serriglio, que acredita ainda que o presidente da Casa tenha conquistado a simpatia de muitos parlamentares pela agilidade com que fez o processo de impeachment tramitar.

Levando em consideração que por muitos menos querem a cabeça de Roussef, o sujeito tem que ser muito cara de pau pra falar com naturalidade que Cunha mentiu fora de juramento, e mesmo que estivesse sob juramente, “tudo bem”. É ridículo, obsceno e criminoso, é uma dignidade digníssima de uma paredão.

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