Antipolítica, democracia e conflito

Eu recebo bem toda essa efusividade política e conflitiva no Brasil, gosto do ar e do frescor dos acontecimentos. O que me incomoda é que existam faladores e griteiros que até pra se envolver em política se reivindicam “apolíticos” ou são adeptos de um apartidarismo que faz parecer tomar partido criminoso. Me lembro de um caso que talvez trate dos antecedentes desse fenômeno.

Na Licenciatura foi necessário fazer uma disciplina chamada Políticas Organizacionais na Educação Pública do Brasil.  Dentro desta disciplina nós, os alunos, tivemos que fazer como um dos trabalhos finais um seminário sobre certos temas  pré-determinados e divididos entre grupos. O tema destinado ao meu grupo foi “Educação do Campo”.

“Educação do campo” é uma concepção político pedagógica que nasceu do encontro de uma pedagogia progressista (Florestan  Fernandes, Paulo Freire) com as lutas políticas e demandas dos camponeses. É um conceito, é um nome, e não simples  ”educação no campo”, seu nome é especialmente pensado como uma contraposição a “educação rural”, é produto de uma  pedagogia democrática que pensa no sujeito camponês em contraposição a noções pedagógicas que seriam autoritárias e  externas a essas territorialidades (uma noção socio-política e cultural) que chamamos de “campo” (pensando em sentido  amplo – pequenos proprietários, trabalhadores rurais, sem terra, quilombolas, entre outros).

Não pretendo explicar aqui o que é a Educação do Campo, mas foi o que eu fiz junto de meus colegas de grupo para a plateia composta pela professora e os outros colegas. Depois soube de um colega que reclamou da apresentação por estar “politizada”, como se fosse “tendenciosa”.

Antes de adentrar na discussão, acho que já é claro que, em primeiro lugar, dada as origens do conceito e sua prática enquanto política pública (envolvendo o MST, por exemplo) era simplesmente impossível não esbarrar na política. Eu naturalmente forneci um contexto geral que recuava aos precursores da educação do campo no governo do Rio Grande do Sul  de Leonel Brizola, com a experiência do MASTER e das brizoletas rurais.

Ignorando essas particularidades, eu pergunto: e daí se o discurso foi politizado?

Eu poderia estar usando uma camiseta do PDT que ainda não vejo nenhuma grande ofensa, poderia ter dito efetivamente que  aquilo era o bom, o certo, o belo e o necessário (o que eu não fiz). Ainda assim, não vejo problema nisso.

Aquele é um ambiente universitário e num contexto de discussão política, numa disciplina que efetivamente os alunos são chamados a refletir sobre políticas públicas, se familiarizando com políticas públicas contrárias que surgem de setores  diversos e contraditórios da sociedade civil. Além disso, suponho que ninguém ali seja idiota, desprovido de opiniões, e se tratava de uma discussão num lugar adequado e entre pares (não cabe, portanto, nenhuma acusação de “doutrinação”).

É algo esquizofrênico manter “pedestais” para Darcy Ribeiro, ou Florestan ou Paulo Freire e se esforçar para esconder as filiações políticas que determinaram sua obra, principalmente no caso de Freire (o mais apolítico dos outros dois
deve estar no campo da antropologia).

Não é democracia? Não é o debate político, a liberdade de expressão, não é a discussão entre o povo que vai guiar os rumos políticos….? Não é o não sei o quê? É assim mesmo então, vão existir diferentes filiações políticas, suas manifestações e seus embates. Não só um aluno, mas um professor, um jornal, uma figura, um trabalhador, irão se posicionar e se organizar se assim quiserem. Não se trata afinal dos rumos da nação? Não se trata afinal de uma das coisas mais importantes e mais virtuosas? É essa a natureza da disputa política. Não é pra nascer e morrer na casinha da urna.

Essa disputa política vai se disseminar pelo tecido social e não existe mal absoluto em um defender as políticas de um governo e outro condenar, não existe mal em proferir uma opinião. Assim como eu digo que Brizola fez uma coisa boa, outro pode dizer que não e outro pode levantar uma coisa que julgar má.

Tenho na memória também que em algum momento, mas possivelmente em outro dia, numa aula, surgiu uma discussão em que eu mencionei o governo de Brizola e seu vice Darcy Ribeiro no Rio de Janeiro, onde ocorreu a experiência dos CIEPS. Nesse caso, acredito que devo ter efetivamente elogiado a política do governador.

Para alguns, aparentemente, isso é um absurdo até em situações que deveria ser natural. É um absurdo tomar posição, ter alguma posição, alguma opinião, o certo é agir de forma hipócrita e/ou suprimir qualquer debate. O mais cômico é que isso acontece muitas vezes em ambientes hegemonicamente de “esquerda” ou “progressistas”. Devo dizer também que a pusilanimidade é imperante e a falta de posição é um problema ético mais amplo, que gera discussões inúteis e infinitas, “democracia” vazia.

Mesmo estando eu em formas não-partidárias de política, detesto o apartidarismo de senso comum que se desenvolve no nosso país que tem horror de alguém ligado a algum partido e que trate a própria política como um crime em si…. Para a política institucional, não há muito fora da estrutura de partidos, na prática os partidos são a base de nossa democracia e teoricamente essa estrutura seria base da democracia em geral e o que lhe confere uma certa vida e dinamismo. Os partidos são a parte política fundamental da institucionalidade. Se é para ser assim, que todos estejam organizados e se confrontem, disputem os espaços, as comunidades. Que todos se filiem, tomem posições e até se odeiem por isso, que “Udenistas” e “Petebistas” se cruzem com desprezo na mesma comunidade e se organizem para disputá-la. Cito UDN e PTB porque acredito que os anos 50 foram um período de grande agitação democrática. O partido serve para isso mesmo, são órgãos distintos do Estado porém parte integrante do sistema, dão a cor na vida política, mesmo que deva existir também uma “neutralidade nacional e republicana” (o exige que partidos se unam num esforço de guerra, por exemplo).

Aqui falo de princípios, claro, porque a vida partidária no Brasil beira ao rídiculo. É um monte de fisiologista, um monte de legenda de aluguel, pouca penetração, pouco debate, pouca ideia e pouco programa. No entanto, acredito que esses princípios estejam na verdade das concepções mais liberais (à Revolução Americana) e nas mais republicanas (que ficaram tão populares em contraposição ao neoliberalismo recentemente) de democracia. Mesmo que eu seja plenamente capaz de cobrir as democracias liberais de críticas e seja capaz de ver virtudes em sistemas distintos, o que cabe aqui é tratar as coisas pelo seus fins e natureza. A disputa é que nos permite pensar a democracia no seu aspecto mais vivo, vivaz, ativo, vigoroso e virtuoso. A ideia de democracia não é só ter a variedade e o confronto de ideias para gerar o melhor, mas justamente para canalizar os conflitos e diferenças, como um tipo de resolução de uma guerra, ou uma guerra por outro meios. Então que confrontem, disputem e conquistem espaços, criem seus próprios espaços políticos sólidos, lutem por cada voto, que se enfrentem as máquinas de governar. Para os revolucionários americanos, quanto mais conflito e variedade melhor, melhor para o que entendiam como “liberdade”. Na lógica mais milenar dos atenienses, o conflito trazia vigor e liberdade, já que a tirania era pensada como felicidade suprema ao mesmo tempo que todos temiam não ser o tirano mas estar abaixo de um – dessa maneira faziam de tudo para evitar que alguém conseguisse essa dádiva e era justamente o confronto entre diversos homens e grupos na sua busca pelo poder que gerava o equilíbrio e a paz social. A disputa, a “Éris boa”, era fundamento do Estado democrático grego. Existia uma certa “vontade de poder”, e é de uma lógica parecida que alguns trazem uma possibilidade de “democracia tolerável” para o alemão Nietzsche, este mais afim de arranjos aristocráticos – o conflito, a variedade (querida do perspectivismo, mesmo que hierarquize essa variedade) e a vontade de poder. Se é pra ser assim, então o pau tem que comer mesmo, assim vamos ter algo bom, assim temos uma prática nobre e recompensadora, a política sai do feio e pacato, nos tira da gregariedade e obediência, nos aflora a agressividade. A guerra é uma escola de liberdade e o homem livre é um guerreiro. Quanto mais conflitos, mais temos dedicação e disposição política. Se algum triunfar e essa realidade de disputas acabar, pelo menos estará provido de grande energia, certamente. O fato, porém, é que nossa realidade não é de unificação mas de fragmentação, então insisto nos “fins e natureza”.

Repudio as concepções democráticas que geram seres acomodados e pacíficos, não existe direito ou liberdade que não se CONQUISTE (nada se “recebe”). Não quero um “sedamento europeu”, tranquilidade liberal, que aspiremos a uma República agitada, conflitiva, jacobina por assim dizer. Se existe algo que redime a democracia é o conflito e não a segurança. Todo o resto já foi desmistificado de várias maneiras, como pelo marxismo por exemplo, que expõe os tentáculos das classes dominantes. Jacques Ranciére crítica em seu “On the Shores of Politics” as ilusões criadas por setores dominantes sobre democracia, desmistifica o discurso ideológico do “fim da política”, mostra que o “realismo consensual” é só uma utopia usada para controlar a política. Ranciere tenta trazer seu significado original de política “organização da discordância”, da dissidência, política como conflito. O discurso da democracia pacífica serve para encobrir os males e o domínio, resistindo as polêmicas contra si como “violência simbólica” e apelando para o fantasma de outros males e da ruptura total para se justificar, mas o que não passa da articulação de postulados democráticos pra justificar desigualdades e dominação. Não pode existir uma calmaria permanente que não seja o domínio de uma situação, “democracia” aqui só pode ser em movimento, não como estado de repouso – a “democracia” e mais ainda a liberdade se faz, acontece, é um movimento ou o próprio conflito. Isso tudo pode assustar os “pacifistas”, mas o poder é mau e a realidade é conflitiva, não cabe aqui trazer a cordialidade do cafézinho da tarde.

As ideias antipolíticas estão no campo da pior política, só servem para maquiar a realidade e cimentar as piores injustiças, as injustiças silenciosas e as elites mais corruptas, os burocratas sem rosto e os senhores sem responsabilidade. Provavelmente isso é herança do regime militar, que espalhou o silêncio, quis “botar cada um em seu lugar”, despolitizante, destruiu o tecido político e os direitos políticos, criou uma cultura muito própria de despolitização do espaço público. A lógica da democracia seria justamente a de politizar o espaço público, ainda mais se estamos falando em multipartidarismo. A lógica do silêncio é aquela da impotência, na forma de resignação e obediência, quando não autotirania. Manifestação de falta de instinto político, sintoma de fraqueza, essa lógica apolítica ou antipolítica cai como uma luva para burgueses, dirigentes, burocratas controladores e para a era neoliberal. É perfeita para amansar as pessoas, para reduzir tudo a instrumento e função, e por isso a “grande direita” gosta tanto da “política como técnica”, do discurso tecnocrático, do “culto a competência” e ao “profissional”. É uma visão boa, de fato, para quem gosta de ser parafuso, os mansos que não se metam em política, que façam como aqueles “jovens liberais” que difundem textos de conservadores falando de como “a política é horrível” e o ápice da humanidade está na vida pessoal, no conforto, na prestação, no juntar porcarias, no homo economicus, no “enriquecer” e ter “sucesso” (ideologia burguesa pra ser vendida para as massas em geral), é o adequado aos escravos. Mas nem todos precisam ir por esse caminho e nós temos a oportunidade de levar uma nova energia para a política.

A “cordialidade” só nos imobilizou, chega de imobilidade, chega de deixar política na mão de burocratas, chega de ser colocado na condição de quem não pode falar nada – os idiotas que se calem. Eu falei muito de um ponto de vista institucional aqui, mas pensem no geral, pensem no todo, no COSMOS histórico. Me sinto bem no conflito. O conflito é bom, belo, humano e saudável, dele nascem frutos e ele é parte da natureza – a história anda e anda agora! Se não vamos construir, se não há um projeto único, que lutemos e conquistemos! Que a política seja um combate, pois é essa a natureza do momento e da sociedade em que vivemos, e esse é o melhor que podemos tirar dela – o pior é nos acomodar.

André Ortega

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