Jean Wyllys e o “jornalismo de esquerda” que não sabe fazer polêmica (uma resposta ao DCM)

Por André Ortega

Saiu no Diário do Centro do Mundo um texto assinado por seu diretor editorial, Paulo Nogueira, com o título: “Por que tanta indignação contra Jean Wyllys?” (que foi para Israel)

Ele já começa apontando que existem pessoas melhores que Jean Wyllys para se indignar, figurões da “direita”, mas que mesmo assim os “revoltados” atacam Jean Wyllys injusta e quase que gratuita, recriminando seus críticos.

Ele começa:

“Os ataques a JW derivam de sua visita a Israel, a convite de uma universidade local.”

Antes de ir mais fundo, já que os ataques não derivam só disso, vamos explicar melhor de onde veio esse convite. Jean Wyllys, apesar de ter furado um boicote acadêmico em plena Jerusalém ocupada, não foi simplesmente “a convite de uma universidade local” (por acaso financiada pelo Estado de Israel). Vamos ver o que os sionistas tem a dizer sobre isso em uma postagem da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro e um artigo no Menorah nos informam (e o que, na verdade, não é segredo):

FIERJ
Link da postagem: https://www.facebook.com/fierj.federacaoisraelita/photos/a.567020183426897.1073741825.567020110093571/792623254199921/?type=3&theater

“Iniciada e custeada”. A iniciativa vem sim de setores sionistas interessados em co-optar Jean Wyllys para a causa israelense, nesse caso “sionistas de esquerda” que são próximos ou atuam dentro do PSOL, contradizendo o discurso inocente do parlamentar reproduzido pelo diretor editorial. No Menorah, o direitista cospe-chamas Victor Grinbaum explica a estratégia de co-optação cultural dos sionistas, cita a FIERJ e acrescenta:

“Seu cicerone é o jovem Guilherme Cohen, um militante do PSOL que vem despontando em algumas entidades judaicas com pretensões políticas.”

E prossegue com uma verdade relevante:

“Existe uma facção de judeus brasileiros, todos militantes de partidos da esquerda BRASILEIRA, que faz um mishmash entre as políticas brasileira e israelense. E que adotam esse discurso – eles juram que isso é pacifismo e progressismo – cretino de que a culpa do Conflito Árabe-Israelense é todinha do atual gabinete de centro-direita que governa Israel.”

Conclui, muito corretamente, que o conflito árabe-israelense tem raízes MUITO MAIS PROFUNDAS do que o atual gabinete. Na sua intenção de exorcizar o espírito de Wyllys de dentro do sionismo, o texto exagera e diz que no passado este compartilhava o discurso de “igualar sionismo e fundamentalismo islâmico”, chegando a sugerir ironicamente que Wyllys achava que sionismo e nazismo eram a mesma coisa. Vamos lembrar que, além de já ter a proximidade dos sionistas cariocas do PSOL e um sionista (ou filo-sionista?) entre seus assessores (o famoso Bruno Bimbi), Jean Wyllys já lançou em sua página, no dia 8 de Agosto de 2014, posições não muito distantes das que repete hoje.  Nesta ele inclusive diz que “jamais cometeria a burrice de chamar de ‘nazista’ um Estado fundado por judeus”(bom, judeus já fizeram isso porque sabem o valor de uma comparação – vide Filkenstein – ou podemos lembrar de quando o líder da Haganah, Eliahu Golomb chamou em dezembro de 1944 os partidários do Irgun de “nazistas judeus”), mas nos concentremos no que nos dá uma prévia daquilo que ele gritaria durante sua viagem:

“Eu Jamais poderia ‘unir forças’ com o Hamas ou me solidarizar com ele, já que considero o Hamas uma organização terrrorista, criminosa e assassina que oprime seu próprio povo e usa as crianças palestinas, sim, como escudos humanos, da mesma forma que usa hospitais e escolas para esconder mísseis e armamentos.

(…)
Para quem divide a vida em preto e branco, deve-se estar do lado do Hamas ou do lado do Netanyahu. Eu não penso assim, logo, não estou do lado de um nem do outro — e acho que eles, de certa forma, estão do mesmo lado, que é o lado da manutenção da guerra até a eliminação total do outro.”

Início da postagem de 2014 de JW.

Início da postagem de 2014 de JW.

Lembremos que uma das críticas dirigidas por Milton Temer a JW é por ter cedido a “lavagem cerebral conservadora” quanto ao Hamás. JW repete os discursos que mais criminalizam um dos maiores partidos políticos e movimento de resistência da Palestina, repetindo o discurso que os israelenses usam para justificar a morte de crianças palestinas e o bombardeio de escolas e hospitais (talvez por lembrarem de seus tempos de Haganah em que de fato escondiam armas em escolas, como relembra Shimon Peres em suas memórias). Essa coincidência é inconsequente e cabe lembrar que o Hamás não é considerado organização terrorista pelo Estado brasileiro, o que se agrava a situação de se ter um parlamentar “de esquerda” disposto a prejudicar a resistência palestina e prejudicar uma parte dos refugiados e descendentes de palestinos no Brasil. Jean Wyllys não faz falta como sionista – nós já temos um deputado sionista nervoso que transita há anos nas nossas comissões parlamentares ligadas a defesa nacional, e o nome dele é Jair Bolsonaro.

Aqui já começamos a ir mais além e vemos que Jean Wyllys não é tão inocente em suas posições. Não estou dizendo que “é necessário apoiar o Hamás”, estou dizendo que a questão não é tão reduzida como Paulo Nogueira dá a entender. Diz o fundador do DCM:

“JW foi a Israel apoiar o governo local? Não. Foi criticar os palestinos? Não. Foi defender a ocupação? Não.”

Será que não? Paulo Nogueira omite o debate e as posições lançadas por Jean Wyllys durante sua viagem, sugerindo que os críticos são cães raivosos guiados por motivos escusos (como fez o próprio Jean Wyllys). Não é preciso estudar teorias da comunicação (como fazem os jornalistas) ou semântica para saber que discursos implicam num mundo de significados e merecem atenção. Uma coincidência do discurso de Jean Wyllys com o discurso de uma parcela do sionismo, dos defensores do Estado de Israel, não pode ser “só uma coincidência” livre de implicações políticas e ideológicas, não acontece por acaso e não é livre de consequências, como demonstramos ali em cima no exemplo do Hamás.

Como diz um dos críticos, Alessandre Argolo, explicando o que há por trás desse debate:

“ De forma surpreendente em sua megalomania, pretende afirmar a verdadeira situação a partir de parcas experiências que remetem à mais manjada propaganda sionista que distorce os fatos (marca tradicional dos argumentos sionistas beligerantes é sempre ter uma explicação “aceitável” ou “justificativa” sobre os massacres e crimes que perpetram). Jean Wyllys é sionista (defende a existência do Estado de Israel no Oriente Médio, como pregava os sionistas seminais) do tipo que enxerga legitimidade na ação “defensiva” israelense. Ele apoia essa ideia e está difundido isso entre os seus leitores no Facebook.”

Como observa Alessandre Argolo, o discurso de JW é o mesmo de sionistas beligerantes que militam na Internet recorrendo exatamente aos mesmos argumentos do “direito a existêcia de Israel”.

Não adianta fazer como Jean Wyllys em 2014 que condena “o Exército de Israel e seus bombardeios” ao mesmo tempo que difunde os memes ideológicos que justificam essa ação e justificam o próprio sionismo, reduzindo o problema a uma “política de governo” da direita israelense, e não a contradição fundamental entre uma força colonizadora opressora e uma nacionalidade oprimida. A posição de “nem-nem” desse Jean Wyllys de 2014, que mal distingue um movimento de resistência do exército israelense, vai se aprofundar e se agravar em 2016 em sua visita a Israel que se traduz num confronto nos movimentos de solidariedade com a Palestina.

Jean Wyllys ao ser criticado por furar um boicote, já reagiu apelando para o fantasma do Hamás, da mesma maneira que segue a estratégia sionista no Brasil de, quando em debates, diluir a crítica a Israel numa demonização desse movimento palestino. Dessa maneira, Jean Wyllys fugia dos debates fundamentais, como a questão da da existência Estado de Israel como Estado colonizador e etnocrático, e a questão da legitimidade e utilidade do boicote (esta que em algum momento ele iria endereçar parcialmente). Ao invés de discutir os problemas do sionismo, que é o que está em questão, ele jogou uma cortina de fumaça, deslegitimou os críticos e manifestou sua simpatia com o sionismo “bonzinho” (“vários sionistas tem uma posição igual a minha”). Do que adianta apelar para o fantasma do Hamás se vários adeptos do boicote são contra essa organização?

É natural que surja um debate, um confronto de posições. Esse confronto se acirrou mais com a postura de Jean Wyllys, que desrespeitou e atropelou as principais vozes e lideranças pro Palestina aqui no Brasil e quer falar de “diálogo”, pois pelo visto ninguém sabe de nada. Vamos lembrar que a organização LGBT Palestinian Queers for BDS se dedica a denunciar a estratégia de “pinkwashing” (lavar a rosa; usar a causa LGBT pra parecer bonzinho) israelense e pedir o boicote especialmente para figuras LGBT do mundo a fora, colocando o problema da resistência contra a ocupação em primeiro lugar – não fingindo que isso depende da boa vontade da “esquerda israelense”. A judia lésbica Sarah Schulman, grande autora, pesquisadora e ativista LGBT, aderiu ao boicote (não foi a uma conferência de estudos LGBT em Tel Aviv) dando visibilidade justamente para as posições palestinas e denunciando o pinkwashing, que é monitorado pelo http://pinkwatchingisrael.com/ (Jean Wyllys quando foi conversar com uma entidade que faz parte do boicote fez um discurso tendencioso dizendo que queriam “ensina-lo”, que foi “subestimado” e chamou o pinkwashing de “teoria da conspiração” – nesse caso acho que ele só é totalmente ignorante).  Por acaso, s LGBTs palestinos não são exatamente “pro Hamás” , são dentro do universo do Jean Wyllys, porém, já que denunciam o discurso dele como o discurso oportunista de cúmplices do massacre em Gaza, e reconhecem o movimento, especialmente no seu caráter de resistência, ao mesmo tempo que atacam seu conservadorismo – eles inclusive lembram que o que gera apoio para o Hamas na população em geral não é o conservadorismo, mas seu comprometimento com a resistência. Isso não existe no universo de Jean Wyllys, que não vê movimento político no grupo “terrorista e criminoso”, implicando praticamente que a resistência em geral e a Segunda Intifada em específico são terroristas (pra daí chegar a conclusões similares as que tiraram elementos da esquerda israelense: a de que é legítimo meter bala, a de que não existem interlocutores).

Paulo Nogueira, como Jean Wyllys, despreza o boicote e usa de refúgio uma verdade irrelevante: a de que os Estados Unidos são uma potência criminosa. Sim, pode ser, mas um sólido movimento de boicote existe é contra Israel, sua política colonialista e genocida (para Jean Wyllys não podemos falar de nenhuma das duas coisas – mais um ponto para o conflito). Paulo Nogueira então rejeita os recursos que a Palestina usa, que estão em voga e não são só ações individuais – ele faria o mesmo com a África do Sul do apartheid? Ele só não é tão louco quanto JW que comparou o boicote com o bloqueio norte americano a Cuba. O Comitê de Solidariedade à Palestina do ABC disse muito bem: Jean Wyllys chegou agora e quer discutir a validade de uma estratégia que os movimentos palestinos discutem há mais de dez anos.

Paulo Nogueira, como uma boa caixa acústica do parlamentar, ecoa a arrogância e presunção de Jean Wyllys. Aparentemente, todo mundo que se indignou com JW, incluindo os movimentos pro palestina, Pinheiro, Temer e outros, são burros ou mal-intencionados. Paulo Nogueira vai além e julga com o que essas pessoas e organizações devem se preocupar ou não – elas não sabem o que estão fazendo. Mas quem é Paulo Nogueira quem é ele para julgar os posicionamentos seríssimos em uma questão política tão importante e tão grave como a questão Palestina?

O que os Paulos Nogueiras têm que entender, é que quem está em posição de ser acusado de ser ou burro ou mal intencionado, é Jean Wyllys. E as pessoas que fazem isso, estão promovendo o debate e indo para a briga, estão botando questões reais. Os Paulos Nogueiras, no entanto, quando lançam suas contra-acusações, não estão enfrentando nenhuma questão verdadeira, estão jogando cortinas de fumaça e botando panos quentes – querem suprimir o debate porque “existem coisas mais importantes”.

Mas, se eu não sei quem é Paulo Nogueira, eu sei que pelo visto ela não sabe o porquê de tanta indignação, por isso vou tentar resumir alguns pontos:

- JW furou o boicote.
- JW fez um discurso similar ao dos sionistas.
- JW aderiu ao Pinkwashing.
- JW foi para Israel e reclamou mais da Síria, do Hamás e do Irã do que de Israel.
- JW criminalizou em termos gerais a resistência de forma desonesta.
- JW falou muito pouco sobre a resistência.
- JW ignora a história de Israel e sua formação baseado no colonialismo, massacre e expulsão, “admira” o sionismo.
- JW atacou o uso do termo genocídio e reduziu a dimensão do termo colonialismo. (ambos depois do artigo do DCM, em entrevista ao Conexão Israel)
- JW chamou “O Muro” de contenção contra ataques terroristas.
- JW comparou antissionismo com antissemitismo e sugeriu que seus críticos são homofóbicos e/ou antissemitas.
- Israel acabou de atacar o Líbano.
- Israel ocupa a Síria (Golã). Israel bombardeou a Síria na atual guerra civil, recebeu rebeldes radicais islâmicos em seu território e provavelmente é co-responsável pelo conflito.
- Defender um “Estado palestino” até os Estados Unidos estão e mesmo Israel está disposta a ceder se isso acabar com a discussão sobre o direito de retorno.

Tudo isso (o que não é tudo) no contexto de uma viagem financiada por sionistas. Não é coincidência.

Vejam esses pontos como os pontos colocados pelos críticos de Wyllys, independentes de estarem certos ou não, pois minha intenção principal aqui não é, infelizmente, desmontar cada posição de Jean Wyllys, não é entrar no debate, pois o DCM não quer o debate, Paulo Nogueira nega o debate então sou obrigado a debater o debate, discutir a discussão – fazer a meta-discussão. No entanto, creio que isso responde a pergunta de Paulo Nogueira, que pelo visto acha que é todo mundo idiota, que “não existe motivo” para isso. Só faço questão de observar aos incautos como o Jean Wyllys que acham que genocidio é só a eliminação física de um todo povo (vão ler as convenções internacionais!), que se a expulsão de árabes que estavam naquelas terras, o massacre de comunidades e a demolição de casas, com aquela quantidade de refugiados não é “genocídio” ou limpeza étnica (e é), então nem pensem em falar em “genocídio da juventude negra” no Brasil.

O diretor editorial do DCM acusa os que fazem a justa crítica do parlamentar de algo como “sabotagem” ou “deserção”. Mas adivinhe só? Os outros acusam os erros de Jean Wyllys – porque simplesmente é assim que se constituí uma contradição – Paulo Nogueira é consumido pela própria lógica, pois dentro dela não caberia a ele julgar se pode ou não pode se indignar com Jean Wyllys.

Você diz que atacar Wyllys é inconsequente? Eles dizem que Wyllys é inconsequente. 
Você diz que é fazer o jogo da direita? Jean Wyllys não faz só “o jogo da direita”, Jean Wyllys faz o jogo do sionismo. Se você não acha, entre na polêmica e assuma uma posição aberta, ao invés de se esconder atrás de panos quentes e lançar só mais uma cortina de fumaça em cima das posições do parlamentar. Paulo Nogueira representa um “jornalismo de esquerda” avesso a polêmica, ora, justamente dentro da esquerda onde já ocorreram grandes debates, verdadeiras batalhas políticas, teóricas e ideológicas, por se valorizar o confronto dialético entre as ideias em busca do correto e não a postura fisiológica de jornalistas que querem ser uma extensão da assessoria de imprensa do “parlamentar bonitinho”, que tratam a crítica justa como sabotagem e querem suprimir o debate. Jean Wyllys, na sua rejeição arrogante dos que foram critica-lo (e suas recomendações de “se aproximar da esquerda israelense”, mais cheirosinha que a resistência palestina), também suprimiu o debate tão necessário para se esclarecer e avançar posições, ainda que por outro método, o de saturação e a máscara de “defesa do diálogo”(as pessoas que dizem defender o debate – aonde só elas falam o que quiser sem consequências). Jean Wyllys não está confrontando as críticas diretamente e estabelecendo posições claras, está é fazendo uma propaganda de Israel através da suavização do sionismo. O texto de Paulo Nogueira não contribui para a discussão, não aprofunda em nada, não se trata de avançar uma discussão para aprimorar uma posição, não passa de um “abafa-caso”, uma tentativa de salvar a imagem do parlamentar, o único e verdadeiro “desserviço” .

“Ora, ora ora!”

Nota: recomendo uma leitura do exame feito por Alessandre Argolo, que aborda ponto por ponto e dá uma resposta mais completa a pergunta do DCM. Está logo no fim de nossas fontes e referências.

Fontes e referências 

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/por-que-tamanha-indignacao-contra-jean-wyllys-por-paulo-nogueira/

http://socialistreview.org.uk/376/israelpalestine-and-queer-international

http://www.pqbds.com/

http://www.pinkwatchingisrael.com/

https://www.menorahnet.com.br/artigo-quanto-durara-o-sionismo-de-jean-wyllys/

https://www.facebook.com/fierj.federacaoisraelita/photos/a.567020183426897.1073741825.567020110093571/792623254199921/?type=3&theater

https://alessandreargolo.wordpress.com/2016/01/11/a-captura-de-jean-wyllys-pela-propaganda-sionista-israelense/

 

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