Resumo e comentário de “Fascismo – Passado, Presente e Futuro” de Walter Laqueur

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Walter Laqueur é um autor judeu israelense de origens europeias conhecido por escrever dentro da chamada Escola Totalitária (falando muito de comunismo) e com algum nome em estudos fascistas (não é mais um dos principais, mas aparentemente é respeitado como um precursor). Seu livro “Fascism – Past, Present and Future” de 1996 que pretende ser uma obra que compilar, atualizar e superar o que o autor produziu sobre o assunto nos anos 70 e 80 levando em conta as novas realidades após a queda do bloco soviético.

O livro se divide em três partes – Fascismo, Neofascismo e Pós-Fascismo. O texto é uma prosa bem escrita, mas lembra um livro juvenil ou semi-didático bem escrito e muitas vezes o estilo sacrifica o conteúdo. Fala coisas mal fundamentadas, informações imprecisas ou que faltam fontes, ou mesmo comete erros crassos – como o de igualar budismo e hinduísmo (aparentemente a origem na Ìndia gerou essa conclusão).

A primeira parte é, comparativamente, a melhor, serve como introdução a ideia de fascismo genérico, o que seria fascismo, pode servir como referência. A segunda parte tem alguns pontos bons quanto a definição, mas é superficial para seu tamanho (o livro fala pouco dos “pequenos fascismos” da década de 30, muito pouco, e menciona alguma coisa nessa parte). A terceira parte é onde o autor tenta ser mais crítico e soltar a criatividade, além de se politizar mais.

As características do livro não tem nada a ver com um tratado, mas sim com um artigo jornalístico, só que um artigo de pouco mais de 200 páginas. O que ele fez foi fazer uma “versão própria da história do fascismo”, pegando tudo que já é dito e considerado sobre “fascismo” genérico e escrevendo do jeito dele, sem fazer uma grande contribuição original. Ele não acrescenta nada de especial e pode ser dispensado em prol de outras obras, como “Anatomia do Fascismo” de Robert O. Paxton ou Stanley G. Payne.

Essa limitação poderia ser aceita se fosse restrita a parte do “velho fascismo” da década de 30, porém ela não é compensada no momento em que ele fala dos neofascismos e “fascismos da atualidade”, pelo contrário, parece que o trabalho se torna mais superficial, menos acadêmico e mais emocional. A obra cita por cima os movimentos neo-fascistas e pós-fascistas, grupos que oferecem uma riqueza considerável de discussão. Nesse momento a obra também se mostra desatualizada e obsoleta, presa no seu tempo – não aprofundando nos movimentos em questão, sua visão geral simplesmente não serve na atualidade. O Front Nationale é citado, mas não é explicado e atualmente é uma força importante na política francesa. O Jobbik húngaro sequer existia, a Ucrânia recebe alguns parágrafos, nada de Grécia… já se passaram quase vinte anos e muita coisa mudou, radicalmente. O autor parece mais preocupado em discutir a posição dos ex-comunistas nas antigas repúblicas socialistas. O livro está preso ao tempo – existem livros da mesma época que mantém maior relevância (como o sobre fascismo russo Stephen D. Shenfield).

Ele até desenvolve um argumento interessante sobre a impossibilidade de se definir fascismo precisamente e cita vários lados desse debate; ele tem um cuidado que eu admiro ao expor que está fazendo um exercício mental, “bom, realmente podemos dizer que fascismo foi só italiano, porém”, “eppur si muove”… Ao mesmo tempo que ele tem esse cuidado e não expõe claramente um mínimo fascista, aparentemente ele tem como certo que é “uma coisa muito ruim” e isso dá uma certa inconsistência. Essa característica emotiva se extende nos comentários sobre o comunismo e aflora mais ainda na hora de falar do Irã, onde ele faz seu serviço patriótico como israelense.

Eu não considero impossível ou absurdo relacionar o movimento clerical-xiita dos iranianos com o fascismo e mesmo Laqueur usa uma dose de razão, porém seu principal objetivo é demonizar o país e colocá-lo como uma grande ameaça, uma grande prisão obscurantista. Seu esforço em demonizar o Irã e colocá-lo ao lado do xiismo político como a força mais radical e obscurantista da região soa ridículo para qualquer um que observa o Oriente Médio hoje. O Irã, bem como o o Hezbollah, é uma das principais salvaguardas contra o radicalismo na região, que tem suas versões mais obscurantistas no terrorismo sunita. Seu argumento relacionando o radicalismo religioso com o fascismo chega a dar a impressão que o fascismo pode ser “qualquer coisa muito má que não gostamos”, mesmo que seja possível articular um argumento sobre movimentos religiosos populistas e fascismo, o autor está escrevendo um bestiário dos “inimigos do bem”.

O autor também tem um problema notável que é de tomar análises do hitlerismo que são mais estruturalistas ou de esquerda, “culpando algum desenvolvimento do capitalismo”, chamando-as de “revisionismo de esquerda” com uma naturalidade que chega ser desonesta, realizando uma comparação com o “revisionismo de direita” que não pode ser considerada razoável – ele mesmo toma algum cuidado por saber que na sua categoria de “revisionismo de esquerda” se encontram pesquisadores de alto calibre (diferente do ataque destrutivo que ele faz contra o “revisionismo de direita”). Isso é especialmente problemático numa obra em tal formato didatista. Aparentemente o autor, que é judeu e com cidadania israelense, tem uma preocupação de que análises estruturais do nazismo falhariam em ver sua imoralidade fundamental e o papel desempenhado por certos valores e ideias que seriam “fundamento de qualquer nazismo”.  Ele segue uma espécie de “ideologia da anti-difamação” e procura purgar qualquer ideia que possa ter consequência num holocausto – quem não faz isso inevitavelmente faz um desserviço e merece etiquetas negativas como “revisionista”, mesmo que não seja cabível ou que não se trate de verdadeiros revisionistas. Ele não iguala, ele dá o devido “respeito acadêmico”, mas é claro o tipo de operação ideológica que ele está realizando.

A todo momento, ele que é um restante da “Escola Totalitária”, procura introduzir “críticas” e “cotucadas” sobre comunismo, muitas vezes falando besteiras que não pode fundamentar, que ficam como “verdades” e poluem o livro sobre fascismo. Ele “compensa” isso no final rejeitando qualquer hipótese de influência do comunismo sob o nazi-fascismo (ele só preserva sua posição quanto a “semelhanças práticas” em comparação com a democracia liberal). A maioria das comparações são vulgares ou completamente errôneas. Em muitos momentos ele cede em palavras aos que já refutaram comparações, mas somente para depois introduzir algum “porém”. Ele insiste que as diferenças são de origem ideológica, que o comunismo tem o componente revolucionário francês, humanista, universalista, igualitário, democrático etc (o que sempre foi evidente, são coisas bem diferentes de raízes distintas, mas que agora é borrado por certos elementos da “nova direita brasileira”; enquanto o fascismo italiano e o nazismo alemão entram num mesmo tipo de fenômeno político apesar das diferenças ideológicas, esse não é o caso do comunismo e da União Soviética. É irônico que esse esforço acaba expondo seus comentários sobre comunismo durante o texto – são todos esforços ideológicos, “educativos”, afastando o estudante do outro mal que é o comunismo, mesmo que explique que esse não seja tão bárbaro quanto o nazismo em específico (fala muito de Stalin também; então fica aquela coisa, “bom, talvez eu não tenha nada pra falar de relevante aqui, mas mesmo assim vou alerta-los sobre os perigos do comunismo por garantia”).

A conclusão deixa claro que o livro é uma espécie de cartilha da democracia liberal alertando contra o sua “ameaça da direita”, além do comunismo, ameaça da esquerda também muito perigosa. O tom juvenil é óbvio.

Elementos relevantes da obra posso expor em outras postagens.

Citações (Oxford University Press, 1996):

“Será que uma tal abordagem subjetiva, “impressionista” abrir a porta para todos os tipos de julgamentos arbitrários e interpretações incorretas? Não necessariamente. Presidente Franklin Roosevelt foi chamado de fascistas, e também foram os social-democratas (por Stalin) e Stalin (pelos anticomunistas). Mas Roosevelt, Stalin, e os social-democratas não eram fascistas, e não há nenhuma boa razão para levar a sério todas as alegações excêntricas sobre o que é fascismo. ” (pg. 6)

“No entanto, o termo genérico fascismo tem continuado a ser utilizado, principalmente por razões práticas: Uma única palavra é necessária, em vez de vários parágrafos.” (pg. 7)

“Nazismo parece, em retrospecto, uma versão hiper-radical, exagerada de uma nova idéia implacavelmente perseguindo suas conclusões lógicas.” (pg 13)

“(Neofascismo) Todas estas versões compartilham certas características importantes, tais como um nacionalismo raivoso, uma crença no poder do Estado e na pureza do povo, um ódio da ordem liberal-parlamentar e uma oposição ao comunismo, por um lado, e ao capitalismo, por outro. [mas sem ideias econômicas claras, podendo ser mais ou menos intervencionistas] (…) Tendo percebido que a agressão militar e conquista já não é viável são, neofascismo optou pela defesa da Europa. “(pg 93)

“Os princípios básicos do fascismo eram (e são) auto-evidentes: o nacionalismo, o darwinismo social, – racialismo, – a necessidade de liderança, uma nova aristocracia, e obediência, – e a negação dos ideais do Iluminismo e da Revolução Francesa. “(pg. 96)

“O neofascismo se apresenta principalmente como uma forma de vida alternativa.” (pg 121)

 

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