Os fascistas ucranianos não gostam de estudar história (breve trecho)

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Estudar um pouco de história, bem pouco mesmo, já pode ser o suficiente para questionarmos algumas situações atuais. Com o início da Guerra Civil na Ucrânia em 2014, com uma revolta acontecendo no leste do país e trazendo a questão do separatismo e do vínculo da Rússia com a região. O nacionalismo ucraniano historicamente trata a Ucrânia como um país especial que resistiu a católicos, venceu os tártaros muçulmanos e resistiu as hordas orientais. Dentro da história nacionalista também existe a ideia, repetida por alguns “especialistas ocidentais”(como Usland que foi assessor no processo de estruturação capitalista nos anos 90) que o povo ucraniano é simplesmente descendente dos cossacos da região. O leste da Ucrânia e seu vínculo com a Rússia (ao ponto de ter sido chamado de Novorrussyia) é apagado e as vezes completamente vulgarizado com acusações de que “aquelas eram terras ucranianas, os ucranianos foram mortos por Stalin e substituídos por russos”.

O trecho a seguir vai falar brevemente dessa história.  Ele vem da biografia de Pedro O Grande escrita pelo historiador estado-unidense Robert K. Massie e publicada em 1980, ou seja, completamente desinteressado nos problemas atuais (ora, a União Soviética ainda estava de pé!). A editora Amarilys publicou em 2015 uma versão em português, que pode ser adquirida aqui (comprando através do link você também ajuda nosso site).

O nacionalismo ucraniano fala em ascendência cossaca como se os cossacos fossem simplesmente “velhos ucranianos” e não esclarecendo quem são estes, mesmo que até hoje eles tenham uma identidade étnica própria e, no caso dos cossacos do Don, um vínculo com a Rússia. A rigor existe uma confusão do Atamãnato que dominava de Baturin com os cossacos da Zarapozhia, esses chamados de “cossacos ucranianos” geralmente em contraposição a seus vizinhos do Don (que também já eram uma entidade autônoma, que no futuro seria uma das 11 hostes cossacas oficiais do Império Russo) . O que não se deixa claro logo para início de conversa é a existência já no passado de diferentes grupos cossacos e que tinham uma auto-referência que dificilmente pode ser chamada de “Ucraniana” ou “nacional ucranian”. Quanto ao leste, ali existiam vilas russas – e o processo de ocupação populacional ganhou força especialmente depois que os russos derrotaram o Khanato da Crimeia (o que ainda não tinha acontecido no momento tratado pela citação) e passaram a colonizar a chamada Novorrússia. Ali também teve um pedaço de território do Império Russo controlado pela Hoste cossaca da Zarapozhia. Posteriormente, boa parte daquela região junto com partes de atuais províncias russas formavam uma única província cossaca que perduraria até meados da década de 20 do século XX. O processo de concentração populacional continuaria no período soviético no processo de industrialização.  A insistência dos nacionalistas de se vincular aos cossacos (mesmo que exista alguma base para isso), se deve para suprir fragilidades na hora de se discutir a existência de um Estado ucraniano no passado.

Falam em cossacos “defendendo as terras ucranianas” ao se referir a uma hoste exigindo o controle de pastagens na Zarapozhia ou a um Atamã com a base de seguidores mutilada tentando manter seu poder em alianças arriscadas. Devido ao fato da região se chamar Ucrânia (“fronteira”), a confusão é natural, porém ela é forçada pelos ecos da historiografia nacionalista.

O trecho se refere aos cossacos como um “povo ortodoxo”. É muito difícil falar numa “ortodoxia ucraniana” naquela época, a não ser que consideremos um certo nível de descentralização dos serviços e possíveis diferenças regionais, no entanto, assim como quando nos referimos ao povo Rus e as dinastias russas, estamos falando de uma religião nasceu em Kiev e que naquele momento tinha sua fase madura em Moscou – a ortodoxia eslávica (mais corretamente chamada de russa?) assumiu autonomia em relação a Constantinopla em Moscou. A ortodoxia eslava ganhou autonomia de Constantinopla através dos russos. Quando o Atamã Khmeneltsky liderou uma revolta cossaca contra os poloneses especialmente por causa da opressão católica, com seu triunfo a ortodoxia ucraniana se vinculou oficialmente ao Patriarcado de Moscou. A revolta de Khmeneltsky pode ser chamada com algum esforço de “primeira revolta ucraniana”, de uma unidade política ucraniana. Não existiam a Igreja Ortodoxa do Patriarcado de Kiev e a Igreja Autocéfala da Ucrânia, produtos do século XX de corte nacionalista e com forte elemento fascista em seu estabelecimento (a segunda foi reconstituída em 40 pelos alemães e em 90 pela UNA-UNSO). Nenhuma dessas duas igrejas tem reconhecimento canônico da ortodoxia mundial (a Autocéfala tem a vantagem do Patriarca Ecumênico reconhecer duas igrejas da diáspora nos EUA e no Canadá que acabaram se filiando a mesma). Hoje em dia uma grande parcela dos cossacos é de “crentes antigos” ou cismáticos, já que massas destes migraram para o Don e fundaram comunidades na época da Grande Cisma. O que é interessante notar também é que a maior parte da ortodoxia ucraniana segue os termos da ortodoxia reformada que causou a Grande Cisma.

Foi a Rússia que lutou contra os cruzados católicos do norte, assim como seria o principal inimigo ortodoxo do poloneses e lituanos. Também foi a Rússia que derrotou o domínio dos mongóis muçulmanos da Horda Dourada e que eventualmente acabaria com as incursões tártaras também citadas no texto. Enquanto nacionalistas ucranianos insistem em se glorificar como “campeões da ortodoxia” (as vezes do cristianismo para co-optar os católicos) ao mesmo tempo que acusam os russos de ter prosperado graças aos mongóis, esquecendo que seu herói Ivan Mazepa aderiu aos luteranos suecos e em última instância aos católicos poloneses, para depois da derrota se exilar junto a um sultão muçulmano. Mazepa, apesar de ter sido formado na alta sociedade polonesa, também não era exatamente um filo-ocidental assim como não era um nacionalista – Mazepa se preocupava em conservar seu poder no confronto entre a Rússia e a Suécia, mesmo tendo obrigações para com o Czar. O seu poder era o atamãnato que contemplava uma parte do Dniper, especialmente centros urbanos e representava especialmente uma nova classe de ricos proprietários de terra que substituíram os antigos senhores poloneses e racharam aquela parte da sociedade cossaca. Mazepa não liderou uma rebelião propriamente dita, o que ele fez é mais corretamente chamado de deserção. Escondeu suas intenções de se juntar a Carlos da Suécia até o último momento. Mazeppa fugiu com 2 mil cavaleiros quando um pequeno grupo de russos foi encontra-lo pacificamente em sua capital Baturin, orientados pelo Czar Pedro I (que acreditava na mentira de Mazeppa de que estaria “em seu leito de morte”; Mazeppa soube do grupo russo e deduziu que sua farsa tinha sido descoberta, entrando em pânico). O comandante do grupo russo retornou rapidamente para informar ao czar a deserção. Enquanto isso o Atamã se juntava ao Rei Carlos da Suécia, e quando voltou ao lado das tropas nórdicas a cidade já havia sido completamente destruída – um comandante russo havia vencido a corrido por Baturin (as tropas russas haviam negociado sua entrada, mas os cossacos pediram mais tempo do que os russos achavam necessário, o que gerou um desentendimento e uma ofensa para os cossacos que culminou no confronto – aparentemente o cerco teve uma conclusão rápida pois o portão foi aberto por um cossaco descontente). Mazeppa ficou desprovido de sua principal base e ficou relegado a condição de conselheiro do rei sueco, mas não de “chefe de revolta”. Os anciãos e oficiais cossacos logo se reuniram em assembleia e elegeram um novo Atamã, se aliando aos russos. “Em vez de Mazeppa liderar todo o povo ucraniano em direção ao campo sueco”, diz K. Massie, “houve uma divisão entre a minoria que o seguia e a maioria que permaneceu fiel a Pedro”. O historiador americano explica que a promessa de Carlos de proteger os cossacos surtiu pouco efeito e o leva o leitor a ver que se nesse período houve algum “sentimento nacional ucraniano”, ele se voltou contra a Suécia e a favor da Rússia. “O povo ucraniano [sic] permaneceu ao lado do czar e seu novo hetman, escondendo os cavalos e os mantimentos dos suecos e entregando errantes inimigos em troca de recompensa”. O próprio czar Pedro ficou surpreendido com a lealdade dos “pequenos russos”, “mais fiel do que seria possível esperar”, rejeitando as cartas e “propostas atraentes” do lado sueco. (pg. 552)

O grande fator de identidade dos cossacos na hora de se relacionar na grande política era justamente sua religião ortodoxa, o que os afastou dos poloneses e os identificou com a Rússia. O governo que tinha a responsabilidade de conter os ataques era o governo de Moscou, tanto na visão internacional como na sua consciência (isto é, era uma vergonha em Moscou), e foi este que repeliu os tártaros, não um Estado ucraniano que não existia, bem como não existia um antecessor sólido de tal Estado.  Isso, claro, não contempla só os cossacos, mas a população que vivia naqueles territórios ucranianos de uma maneira geral (muitos deles russos e outros que a historiografia quando reluta em chama-los de ucranianos tratam pelo nome de “locais”, que posteriormente desenvolveriam suas identidades nacionais). “Ucrânia” era um termo geográfico pra denotar fronteira (tanto no russo como no polonês) e antes de tal identidade nacional lá já era chamado de “Sul da Rússia” ou “Pequena Rússia”, especialmente o leste (na verdade a partir de Kiev). Na verdade, não só a Polônia e a Lituânia tinham suas próprias “ukrainas”, como a Rússia tinha mais de uma.

Segue K. Massie, que se refere às décadas finais do século XVII:

“A oeste e a sul, a Russia era cercada por inimigos que lutavam para conservar o gigante encravado e isolado. A Suécia, então reinando como Senhora do Báltico, mantinha a guarda desse caminho marítimo para o ocidente. A oeste estava a Polônia católica, antiga inimiga da Rússia ortodoxa. Apenas pouco tempo antes, o czar Aleixo havia reconquistado Smolensk da Polônia, embora essa cidade-fortaleza russa a apenas 250 quilômetros de Moscou. Posteriormente em seu reinado, Aleixo receberia de volta da Polônia o grande prêmio: Kiev, a mãe de todas as cidades russas e terra natal do cristianismo russo. Kiev e as regiões férteis tanto a leste quanto a oeste do Dnieper eram território dos cossacos, um povo ortodoxo, originalmente composto por vagabundos, saqueadores e fugitivos que haviam deixado para trás as duras condições de vida na antiga Moscóvia para formar bandos de cavalaria não oficiais, tornando-se depois desbravadores, estabelecendo fazendas, vilas e cidades por todo o norte da Ucrânia. Pouco a pouco, esses assentamentos cossacos foram se espalhando também para o sul,  mas os limites ainda permaneciam entre quinhentos e seiscentos quilômetros acima da costa do Mar Negro.

O espaço que os separava – a famosa estepe de terra negra da parte baixa da Ucrânia – permanecia vazio. Ali, a grama crescia tanto que às vezes somente a cabeça e os ombros de um homem a cavalo poderiam ser vistos de movendo acima da vegetação. Nos tempos de Aleixo, essa estepe era terra de caça e pastoreio de tártaros da Crimeia – descendentes islâmicos dos antigos conquistadores mongóis e vassalos do sultão otomano que viviam em vilas ao longo das encostas e encravadas nos rochedos da montanhosa península da Crimeia. Nas primaveras e verões, eles levavam o gado e os cavalos para pastar no capim da estepe. Com frequência, carregavam arcos, flechas e cimitarras, por vezes invadindo a paliçada de madeira de uma cidade e levando toda população como escrava.  Esses enormes ataques – que despejavam milhares de russos anualmente no mercado otomano de escravos – eram uma fonte de constrangimento e angústia para os czares no Kremlim. Todavia, até então,  não havia nada que alguém pudesse fazer a respeito.  De fato, por duas vezes (em 1382 e em 1571) os tártaros chegaram a saquear e queimar a própria Moscou. “

(Pedro O Grande – SUA VIDA E SEU MUNDO, K. MASSIE, Robert, 2015, Amarilys, Barueri, São Paulo, pg. 15)

 

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