Mariategui, a educação laica e o mito

O balanço da “escola laica” não justifica, por outro lado, um entusiasmo excessivo para esta velha peça do repertório burguesa. George Sorel, vários anos antes da guerra, já havia denunciado a sua mediocridade. A moral laica, como Sorel com profundo espírito filosófico observava, carece dos elementos espirituais indispensáveis para a criação de caracteres heroicos e superiores. Ela é impotente e inválida para produzir valores eternos, sublimes. Não atende necessidade de absoluto que existe no fundo de toda inquietação humana. Não responde a nenhuma das grandes interrogações do espírito. Destina-se a formação de uma humanidade laboriosa, medíocre e dócil. Educa-a no culto dos mitos insignificantes que naufragam na grande maré contemporânea: a Democracia, o Progresso, a Evolução, etc. Adriano Tilgher, crítico italiano afiado, alimentada nesta linha da filosofia soreliana, faz em um de seus ensaios mais penetrante uma revisão substancial das responsabilidades da escola burguesa. “Agora que a crise formidável, desencadeada pelo conflito global, está lentamente a revolucionar a partir de suas bases o Estado moderno, a escola do Estado chegou ao momento produzir para a opinião pública títulos que legitimem o seu direito de existir. E devemos reconhecer que se há o espetáculo de uma guerra em que estão empenhados os maiores povos do mundo, não se revelou ainda, no entanto, qualquer um desses indivíduos heroicos, mestres da energia, que revelaram em grande número nas guerras passadas, insignificantes em comparação, isto é quase inteiramente devido à Escola Estadual e seu espírito de quartel, cinzento, nivelador, asfixiante”. E, considerando a própria essência da escola burguesa, acrescenta: “A escola do Estado é uma das três instituições, que destruiu o Estado moderno, caracterizado pelo monopólio econômico, centralismo administrativo e absolutismo burocrático, é subvertida em suas fundações. Os quartéis e burocracia são as outras duas. Graças a eles, o Estado conseguiu anular no indivíduo a liberdade do querer, a espontaneidade da iniciativa, a originalidade do movimento e reduziu a humanidade a um docilíssimo rebanho que não sabe pensar ou agir sem sinal de acordo de seus pastores. É, acima de tudo, na escola onde o Estado moderno tem o rolo compressor mais forte e irresistível com que é achatada e nivelada toda a individualidade que se sente autônoma e independente”.

(….)

A nova geração Ibero-americana não pode se contentar com uma fórmula fixa e cansada da ideologia liberal. A “escola laica” -escola burguesa, não é o ideal dos jovens possuidores de um poderoso afã para a renovação. Secularismo, como um fim [último], é uma coisa má. Na Rússia, no México, nas aldeias que se transformam material e espiritualmente, a virtude criativa e transformadora da escola não está em seu caráter secular, mas em seu espírito revolucionário. A revolução é dá para a escola seu mito – sua emoção, seu misticismo, sua religiosidade.

José Carlos Mariategui em “INTRODUCCION A UN ESTUDIO SOBRE EL PROBLEMA DE LA EDUCACION PUBLICA”, publicado em “Mundial”, 15 de Maio de 1925

Mariategui não é contra a escola laica, pelo contrário, inclusive situa a mesma com importante conquista histórica. Crítica, no entanto, a transformação da escola laica numa espécie de “bandeira revolucionária máxima”, que irá resolver todos os problemas e que se instituí como mito mobilizador. O problema é que o secularismo escolar não é forte o suficiente pra ser um mito político, e revolucionários e reformadores de sua época estariam fazendo uma aposta errada ao se agarrar a semelhante bandeira. Atualmente, surgem várias bandeiras simplistas e milagrosas de caráter semelhante, a ressurreição de alguma – a educação segue sendo seara favorável pra esse tipo de coisa, “essa educação vai transformar o Brasil”, “vai mudar o mundo”, “se os alunos sentarem em roda o mundo se tornará um lugar melhor”. Claro que podemos pensar em centenas de outras coisas (entre elas o voto distrital, o veganismo, o ateísmo político, poli-amor, pan-sexualidade, drogas, participação digital, new age, auto-ajuda, kindle, geração google, micro-bloggin, fraseologia solidária, micropolítica, sustentabilidade…. nossa, a “política verde”, como não lembrar dela e a peça que já pregou especialmente nos jovens europeus? Antes que eu me esqueça, os valores de merda da Geração Y também estão contemplados). Lembrem-se disso não só quando olharem para certas palavras novas, levando em consideração que citei uma dúzia de “coisas progressivas”, mas também quando verem a re-edição pomposa de palavras velhas, quando encherem a boca pra falar de “cidadania” como algo revolucionário, por exemplo. Sabe essas coisas que excitam as crianças, que mobilizam escolares, aquelas “mobilizações” que vemos na televisão aberta sob boas cores? É ridículo ver na mídia e no dia-a-dia a articulação de um discurso genérico de anti-corrupção + virtude civil como profecia do Brasil perfeito. Esse tipo de discurso cola muito bem em situações institucionais, neutras ou na boca de empresários engajados. O poder mítico delas é inversamente proporcional a seu abuso. Naturalmente também estou contemplado quase todo o dicionário conservador, que são especialistas em pegar coisas passadas para torna-las na grande solução.

Mariategui também fala da fraqueza dos grandes mitos modernos. Hoje essa falência parece mais evidente no noticiário e o niilismo mil vezes mais profundo.

Sua referência a educação revolucionária não é única em sua obra – ele manifesta admiração pela educação soviética em outros textos, especialmente em outro concernente a essa questão do mito, onde cita algum visitante ocidental impressionado com o “clima religioso” das escolas soviéticas ao tratas da Revolução, do comunismo e da figura de Lenin, ao que Mariategui responde com aplauso.

A. D.

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