Não saia por aí dizendo que “os historiadores que falaram” – URSS x Alemanha Nazi (diferentes objetos de estudo)

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Soube de um católico conservador rebatendo recomendações de livros para construir uma imagem mais clara da URSS como uma coisa de “malucos”, “assim como os nazistas tem seus defensores que vão contra a visão hegemônica, existem esses caras que defendem a URSS”. O argumento é uma mentira que equipara coisas que são simplesente diferentes. A ideia por trás de um certo culto a historiografia é uma ideia falsa, um falso ídolo. Um grupo de mentecaptos finge que a historiografia é um grande bloco unificado de “produtores de verdades”. Antes de tudo temos que dizer que nossa historiografia passa por um um grande salto no século XX em termos de método e teoria é uma construção que surgiu na aurora do século XX  num processo de consolidação das ciências humanas na academia e através de um debate que dizia ao manejo correto de fontes históricas principalmente da épocas do passado, como a antiguidade. Surge um processo de superação de “história como narrativa dos grandes fatos” para se tornar história sociológica, a “sociologia do passado”, a necessidade de se estudar as formas sociais dos períodos históricos. Mesmo assim, como sempre o escrever história sempre foi uma forma de escolha política, de escolha de métoo e escolha do foco (César e a Educação, César e a Religião etc), se Mommsem era aceitável, se aquele historiador tem uma abordagem aceitável da Renascença, etc. Por exemplo, Christian Meier escreveu o grande Republica Amissa sobre a história da Roma tendo em conta o pessimismo e a decadência dos valores políticos no ocidente durante a Segunda Guerra, a sensação de deslocamento, argumentando que a queda da república foi a falta de vontade e incapacidade dos romanos de manter suas tradições republicana. A historiografia dos fatos contemporâneos é um problema mais complexo por si só, “outros 500”, sendo mais complicada ainda no caso do registro da União Soviética e dos países socialistas, já que estamos falando de produções ocidentais sem acesso a um outro mundo (político e cultural) fechado a eles. Não é a toa que na historiografia dos fatos contemporâneos o jornalismo assume um papel fundamental, tanto na construção das fontes como no próprio processo historiográfico e de registro (a reportagem jornalística vira uma forma de registro relevante que é desconhecido no passado). A União Soviética passou mais de 70 de pé e sem desclassificar arquivos, arquivos que são cruciais pra se escrever uma história “sólida” como esses senhores gostam de falar. Surgiu uma coisa no ocidente chamada “sovietologia”, os “sovietólogos”, que hoje inclusive é um termo muito pejorativo na historiografia. Os sovietólogos viviam de fazer elucubrações sobre a política soviética principalmente a partir de interpretações da mídia soviética e as vezes informações de procedência questionável, de “ouvi dizer”, de “fulano disse”. A “sovietologia” segue viva hoje nos coreanologos (Cuba não sofre desse problema, com os fanáticos de Miami que pintam o quadro mais monstruoso do país sendo praticamente isolados dos discursos mais respeitáveis, acadêmicos e oficiais). Muita literatura ruim se desenvolveu com o peso da Guerra Fria. Além de que, é um argumento desonesto esta o do católico – ele não está falando de nada em específico, ele só está falando de uma imagem negativa que ele tem e sugere que a imagem que ele tem a dominante. Será mesmo?  “A URSS era uma ditadura do mal porque historiadores disseram isso”,  mentalidade religiosa incompatível com a historiografia, esperando que o historiador seja um óraculo da moral e da política que faça essa avaliação por ele. Ele ainda compara com o nazismo. “O Livro Negro do Comunismo” não pode ser justificado com autoridade, é idiotice dizer “é feito por historiadores, especialistas”, ignorando que é considerado um panfleto um tanto a margem do mundo acadêmico – é um panfleto político feito para forçar agendas anticomunistas a nível europeu, que fez cálculos demográficos de mortes do comunismo e compilou narrativas “terríveis” sobre o mesmo para dar a impressão de que “se era tão mau, deve ter matado isso”(ele não é uma obra sólida no sentido de números de mortes). Quem sustenta 100 milhões? “Mao – Uma História Desconhecida” também um trabalho fraco do ponto de vista historiográfico, não só fraco, mas ruim, contraproducente, que também não trata de números, somente diz no início que Mao Matou 60 milhões. Seria cabível que ele citasse a que ele se refere e como é um “consenso acadêmico”. Tudo que o tal debatedor está fazendo é mostrando como é um servo de senso comum, de impressões e não a mínima ideia do que está falando. Ele fala de um “consenso” que desconhece, ele provavelmente teria muito dificuldades se tivesse que fornecer obras que embasasse posições concretas (não genéricas sobre “o comunismo é mal”, mas factuais), O Livro Negro não é consenso, mas as pessoas tem esse péssimo hábito de cultuar livros ao invés de formar uma opinião através da leitura geral, querem “o livro da verdade”, muitas vezes nem lendo o tal livro eleito, quem dirá outros diferentes ou mesmo os que servem de base para esse Santo Graal.

Dizer que ele fulano era “ditador” é consideração política – os autores mais honestos sempre vão pelo caminho de deixar suas posições mais incisivas para os prefácios e introduções, que é onde vão deixar as impressões e considerações que tiveram da sua pesquisa, ou as motivações da mesma. A questão do comunista que não aceita que Stalin era um “ditador” não é um problema de registro histórico, mas de interpretação política, como é até pouco a questão Hugo Chavez (que era presente, não histórica).

Quando tratamos de Alemanha nós estamos falando de um assunto acadêmica e comercialmente hiper-explorado por vários autores, escolas, faculdades, academias e institutos de vários países, nos dois lados da Alemanha, nos Estados Unidos e na URSS, sem contar a historiografia “especialmente judaica”. O holocausto virou um tema independente de estudo; cada país produziu obras sobre sua relação com o nazismo e o holocausto dentro de suas fronteiras. A Alemanha nazi caiu por armas de inimigos, foi desmontada, a busca de relatos foi incessante – o holocausto tem uma particularidade incomparável na historiografia, em termos de se estabelecido como uma área, existe uma amplitude infinita de relatos, sistemas de registro de sobreviventes, entrevistas, etc… A ideia do revisionismo histórico vai partir justamente desse cenário consolidado.

Não existe tal coisa como “A Academia” como um grupo de deuses provedores da verdade. A todo momento teses de doutorado e pós-doutorado muito distintas, as vezes contraditórias, são aceitas. Grandes livros divergem consideravelmente. O debate é valorizado quando a historiografia não é simplesmente “narrar fatos” mas construir interpretações, desenvolver ferramentas teóricas para entender os acontecimentos . Sendo assim vamos ter, por exemplo, diferentes leituras da história romana com diferentes focos: Júlio César como o aspirante a monarca (E. Meyer, 1922), o amplo relato político de Gelzer (um tanto neutro, o que foi pioneiro na sua época; de 1921, famoso por republicação em 66), depois de Gelzer Strassburger foi marcante atacando as posições de César como aspirante a monarca (1938), que seria precursora para as grandes obras mais recentes de Christian Meier, Goldsworth e Luigi Canfora; Parenti, sem escrever uma obra historiográfica, também fez grandes contribuições ao debate; Toynbee, Ronald Syme e Lily Ross dão diferentes visões do confronto político na República tardia; um dos mais influentes, Erich Gruen, seria alvo da discordância de Richard A. Billows, mais contemporâneo, que reconhece seu estudo mas questiona as conclusões. Não espero que você seja familiar com esses autores, mas aproveitei a oportunidade de tê-los aqui para exemplificar a diversidade de historiadores com posições discordantes em único tema, sendo todas as obras de grosso calibre. Esse é um exemplo concreto que ilustra bem o meu ponto e que deixaria qualquer um desses “religiosos da história” incapacitados (na verdades esse não leem nada).

 

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