Os comunistas turcos não são justiceiros, nem milicianos

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Os comunistas turcos não são justiceiros

Ontem publiquei um artigo falando sobre bairros controlados por comunistas turcos que conduzem uma luta contra o narcotráfico. No Facebook, o “resumo” ou “Snippet” do artigo saiu com um título sujeito a más-interpretações: “Comunistas batem em traficantes na Turquia”. Este título servia como rascunho devido a foto de um incidente recente e apesar dele não ter sido publicado com esse nome, por alguma razão relativa a códigos é o nome que sai automaticamente no Facebook. Tentei alterar de diversas maneiras como usar aplicativo SEO mas elas até agora foram em vão.

O problema é que na atual geração hiper-memética que lê título mas não lê texto, o título deu vazão para algumas interpretações hiper-errôneas. Procurei endereçar elas na medida do possível, ou pelo menos observa-las, então decidi fazer uma resposta geral aqui na página mesmo, expondo de maneiras coisas simples que certamente ficam claras para a maioria das pessoas que leram.

Alguns elementos de esquerda “humanista”, assim como direitistas melindrados com a “a hipocrisia da esquerda que apoia bandido”, “porque não podemos fazer isso no Aterro do Flamengo?”, acusaram os comunistas de coisas como:

–  São justiceiros.
–  São milícia.
–  São esquadrão da morte.

Como já disse, a maioria dos que fazem essa acusação não leram o texto, sendo este o melhor antídoto. Um dos que tentei esclarecer demonstrava em cada frase não ter lido, mas quando questionava jurava ter lido apesar de suas comparações com “a Lagoa”, “com o Aterro do Flamengo”, “com os justiceiros não sei de onde”, “na Lagoa também não tem polícia, bem como no Aterro”, revoltado a partir de uma postura de direita. De qualquer forma, como são acusações pontuais, posso refuta-las diretamente.

Primeiro, vamos dizer reduzidamente o que é o DHKP-C e o que ele faz:

– Ele é um partido político, um Partido Comunista, que a rigor surge em 1978 no contexto da conturbada e conflitiva política turca, sob forte repressão, sob o nome de Dev Sol.
– Nos anos 80 conduziu algumas ações militares contra o regime militar, além de se organizar politicamente.
– Nos anos 90 inicia uma insurreição mais ampla, atacando pessoal militar norte-americano na Turquia e figuras aposentadas ligadas a repressão militar. A forte repressão também fez com que criasse força nas prisões.
– O partido criou bases políticas em diversas bairros pobres de Instanbul, “favelas” turcas, muitas correndo riscos por causa da especulação imobiliária. Muitas destas tem uma concentração grande da minoria xiita alevi. É o caso de Okmejadni e Golsuyo. Nesses lugares eles buscam colocar em prática o seu programa revolucionário, ampliar as bases, mobilizar as massas, combatem o Estado, enfim, perseguem seus objetivos políticos.

Relatada a sua presença nessas comunidades, podemos pontuar mais o que fazem:

– Recrutam militantes.
– Organizam os locais para resolver seus problemas (comitês de bairro).
– Realiza serviços sociais.
– Se estabelece militarmente.
– Realizam trabalho de educação política (ex. questões relativas aos direitos das mulheres; “porque devemos fazer uma revolução”).
– Mobilizam a população para causas políticas locais ou não (manifestações, “devemos nos opor ao governo Erdogan”, “devemos nos mobilizar contra o projeto de re-urbanização que quer nos remover”, etc).
– Enfrentam problemas locais, especialmente na ausência do Estado.

Entre os problemas que se colocam nessas zonas, existe o tráfico de drogas (não vou me estender sobre como isso é um problema e gera decadência local). Então, o problema do DHKP-C com tráfico é um problema político e territorial. Considera-se que naquele lugar o tráfico é um problema social e um particularmente devastador, além de ser um problema político. Assim, não estamos falando de combater o tráfico “em geral”, mas de um problema concreto de controle social e político. Se eles não combatem o tráfico, seu trabalho político e sua legitimidade saem prejudicados, pra não falar no seu controle territorial – o tráfico se instituí como um poder econômico armado em detrimento do poder revolucionário. Partindo da visão marxista revolucionária do grupo que tem a luta de classes como referência (e que deveria entrar na visão dos “esquerdistas” que criticaram) entra também o elemento de considerar o tráfico como parte do inimigo de classe e um agente do mesmo, mais concretamente um representante do Estado turco contra os revolucionários e dos empreiteiros interessados em aterrorizar a população local e desvalorizar a região. Dito isto, como ocorre este “combate”? O que é usado ou não:

– Mobilização política de usuários e moradores;
– Manifestações, comitês permanentes contra a venda e o consumo;
– A dissuasão e a violência contra os traficantes.

O que podemos ou não entender por “dissuasão e violência”?

– NÃO se baseia execuções;
– NÃO se baseia em “tiroteios entre gangues armadas”, o tráfico na Turquia não é como o tráfico carioca;
– A organização alerta ostensivamente os traficantes para não atuarem no território;
– A organização vai até traficantes individuais para alerta-los (naturalmente, intimida-los);
– Manifestações;
– Pontos de venda são fechados (isso é o mais importante), tomando dois casos notáveis citados no artigo anterior (os café Umut e Arzum) não se tratam de atentados ou massacres, mas sim de batidas que fecham os lugares;
– As patrulhas eventualmente atacam os traficantes (não a tiros, normalmente estão em superioridade numérica e mais armas).
– Traficantes são expostos e expulsos, punições físicas públicas já foram utilizadas (não consegui traçar a frequência, aparentemente as outras técnicas tem efeito, a foto presente no outro artigo e aqui trata de um criminoso especialmente notável, ocorrido deste ano).

É importante notar que numa manifestação desarmada em Golsoyou contra os traficantes foi atacada por um atirador, culminando na morte de um jovem de 21 anos. Mesmo assim, os grupos não entraram numa onda de retaliações contra os narcotraficantes – organizaram sim manifestações armadas, marchas ostensivas.

Em suma, o tráfico não é exatamente o “problema principal”, o partido não é um “partido anti-tráfico” e sua ação nem de longe de reduz a “guerra contra o tráfico” – seu controle político realmente dificulta as coisas para os narco. O DHKP-C, apesar de eu desconhecer que este se declare maoista, teve uma forte influência do maoismo nos anos 90. Aparentemente transportam concepções maoistas de “linha de massas”, “a mobilização de massas vai vencer as drogas”, recorrendo muito ao trabalho político e técnicas de Revolução Cultural (a exposição pública), ao mesmo tempo que tem uma política de “leniência” com os “pequenos peixes” (os traficantes de rua). [Não é a primeira de qualquer forma que movimentos revolucionários se chocam com esse problema – China, Vietnã, Argélia, o notável caso do Black Panther’s Party nos EUA…]

O que é necessário notar que eu não cite até agora mas é de primeira importância é que isso inclui VÁRIAS ORGANIZAÇÕES JUVENIS DE ESQUERDA, NÃO SOMENTE O DHKP-C. O DHKP-C não é “ditador” das comunidades. Em Okmejadni o DHKP-C atua em conjunto com o YDGH (juventude ligada ao PKK curdo), além de atuar com outros grupos juvenis de esquerda menos radicais, mais próximos da legalidade (que em geral é hostil a movimentos sociais).

Partindo dessas observações, concluo:

– As organizações revolucionárias não são e não formam “grupos de justiceiros”. Se trata de controle territorial, não de jovens que se reúnem para sair e “caçar criminosos” em nome de um “senso de justiça” ou um “sentimento de vingança”, “vamos fazer com nossas próprias mãos”, sem orientação ideológica a não ser de um amálgama de terror instigado pela mídia. Os grupos de justiceiros não tem base politica alguma, são errantes querendo vingança e “limpeza”, MESMO que supostamente os “habitantes da Lagoa” aprovem as atitudes de seus justiceiros (do tipo prender um trombadinha nu num poste com uma trava de bicicleta), não existe nenhuma ligação orgânica com a comunidade, nenhuma estrutura política, quem dirá deliberação. São fenômenos completamente diferentes.

– Apesar do seu caráter territorial, eles não formam uma “milícia”. Não projetem a realidade de favelas cariocas na Turquia. As milícias são grupos paramilitares que surgem no contexto de territorialização e militarização do narcotráfico carioca, formado a partir das forças policiais e as vezes com apoio de comerciantes locais. São uma “iniciativa de segurança”, intimamente ligada com a institucionalidade, voltados para a essa concepção de segurança e de combate ao tráfico, que convertem em empreendimentos econômicos opressivos, extorsivos. Em geral são despolitizados, menos quando servem como arregimentadores de currais eleitorais e base de políticos do sistema.  Seu caráter se reduz ao paramilitarismo econômico.

– Este é o mais fácil: não são e não formam “esquadrões da morte”. Não se juntam em grupos armados para executar traficantes e criminosos. O que foi dito durante o texto se aplica muito bem aqui, não há muito o que dizer além do que já foi colocado, no entanto lembro que “esquadrões da morte” também possuem um sentido de vinculação com a institucionalidade (quando repressiva), com forças policiais e sua guerra contra criminosos.

 

One Response

  1. Maraschin

    July 3, 2015 1:25 pm

    Realismo político,
    Gostei muito desse artigo, assim como o anterior, o qual foi alvo de críticas do esquerdismo humanista, que atualmente se assemelha mais a um jacobinismo, ou seja, uma luta liberal por direitos civis do que propriamente uma alternativa à uma sociedade socialista/comunista. Analisando os métodos nos dois artigos, fiquei intrigado com algo que gostaria que vocês me respondessem como os conselhos de bairros lidam com as divergencias internas dos moradores alienados no senso-comum, ou que simplesmente divergem da política territorial utilizada, e como se dá o acesso ao armamento para a segurança comunitária, evitando o monopolio da força.

    Agradeço a atenção

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