Enforquem os moscovitas: Ucrânia e a política da intolerância

Pervomaisk, RP de Lugansk, Região do Donbass. Fevereiro de 2015

Pervomaisk, RP de Lugansk, Região do Donbass. Fevereiro de 2015

Hoje o blogueiro de Odessa Oleg Mikhailov publicou na sua página do Facebook que “a mentalidade das tropas ucranianas retrocedeu 70-75 anos”, seus paradigmas estão mais adequados aos da Segunda Guerra Mundial e por isso “o bombardeio de cidades e vilas, bem com as mortes civis resultantes, se encaixa perfeitamente no esquema de ações similares dos nazistas há 70-75 anos atrás. Notavelmente, naquela época no máximo se discutia o destino dos monumentos e da arquitetura urbana, mas nunca as vidas da população”. Para Oleg, olharmos por esse prisma a feroz campanha de bombardeios ucraniana parece ter algum sentido, mesmo que um sentido sinistro.

Esse retrocesso, em outras palavras, é o triunfo da intolerância justamente quando a Ucrânia concretizou sua adesão a uma comunidade europeia dita mais “avançada”, liberal e tolerante através da Revolução do Euromaidan. Eles marcaram sua diferença, sua humanidade e sua civilização frente o barbarismo asiático representado pela Rússia.

Foi a revolução “sequestrada” por fascistas e radicais? Ou o tempo toda ela continha a semente da intolerância? Sendo a segunda hipótese a verdadeira, seus apoiadores ocidentais, os apóstolos da democracia e dos direitos humanos, entidades estatais e não-estatais, não poderão escapar da sua responsabilidade na criação do campo de morte que existente no leste da Ucrânia.

Existem duas tendências que disputam a construção do conceito de Ucrânia: uma monista e outra pluralista.  A primeira enfatiza a singularidade ucraniana, a criação de um país mono-linguístico, a independência cultural do mundo eslávico e o vínculo com a Europa. A segunda, por sua vez, acredita numa Ucrânia composta por diversas culturas e tradições, marcada por fortes diferenças regionais, mas acima de tudo com um forte componente russo e um vínculo inevitável com o mundo eslávico. Atualmente essa divisão se traduz numa divisão entre laranjas e azuis. Os laranjas são os monistas que querem aderir a União Europeia e a comunidade de segurança atlantista. Os azuis são os defensores das regiões, federalistas inclinados na direção russa e euroasiática.  Foram os laranjas que dirigiram o Euromaidan.

A tradição monista sempre esteve inclinada na direção da Europa, desde a adesão dos cossacos do Atamã Ivan Mazepa as forças sueco-polonesas, lideradas pelo rei Charles XII, contra o Tsar russo Pedro O Grande. Podemos perceber também que, em comparação com a tradição pluralista que reconhece uma Ucrânia caracterizada pela diversidade, o monismo já tem em si mesmo a semente da intolerância. No fim da década de 20, Dmytro Dontsov, um nacionalista que fez parte da Rada ocidental derrotada pelos comunistas (baseados no leste da Ucrânia, a época com sua capital em Karkhov), passou a teorizar uma “forma ucraniana de fascismo”, um nacionalismo agressivo que acredita numa nação orgânica e sagrada que deveria purgar a Ucrânia de seus inimigos austríacos, poloneses, judeus e acima de tudo russos, para forjar o ideal monista da nação ucraniana unificada. Nessa luta tudo era permitido, ou melhor, “medidas extremas” eram requiridas, pois o fracasso ucraniano era culpa da moderação, da democracia, do liberalismo e da falta de vontade precedentes. Dontsov negava os vínculos da Ucrânia com a Rússia e afirmava que “a unidade com a Europa, sob todas as circunstâncias e a qualquer custo – esse é o imperativo categórico de nossa política externa”.

Dontsov foi o precursor fundamental do “nacionalismo integral”, baseado numa noção étnico-exclusivista de nação ucraniana., que guiaria Stepan Bandera, O radicalismo de Bandera o tornou líder de um racha da Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN-B), que era uma organização paramilitar de direita fundada com a ajuda do próprio Dontsov. O grupo de Bandera, formado praticamente por jovens da Galícia, ficou com o grosso dos terroristas do grupo e teve a brutalidade como sua marca, levando a intolerância para níveis desconhecidos na OUN original (OUN-M). Os dois setores da OUN colaboraram com a invasão nazista, que criou uma “legião ucraniana”, apesar da ala banderista ser mais relevante. Os nacionalistas ucranianos foram essenciais na “Nova Ordem”, com os nazistas manipulando as divisões entre os dois grupos. Bandera teve um atraso ao ser preso por seus mestres ao declarar uma república em Lviv, o que foi um avanço para a OUN-M (que assumiu as administrações alemãs na região, até também cair em desgraça em 1942) e não impediu seus aderentes (banderovtsy) de formar as unidades SS Nachtigall e Roland para combater ao lado da SS Galicia, notáveis não só pelo grande número de mortes atribuídas (algo que se aproxima de 500 mil mortes), mas pela sua extrema brutalidade. Banderistas de Volyn organizaram o Exército Insurrecionário Ucraniano (UPA), fundada para “lutar por uma Ucrânia independente”, mas que também adotou uma política de colaboração e de adesão as forças policiais, participando de massacres contra a população judaica (especialmente em guetos, prática que, junto com a extorsão de judeus, serviu para o enriquecimento da organização). Até então a resistência era conduzida principalmente por partisans soviéticos, pequenos grupos remanescentes de adeptos da OUN-M e um pequeno grupo ucraniano que também usava o nome “UPA” (que não será mais referido nesse texto).  Em 43 os membros da UPA (OUN-B) desertariam os alemães e iriam para a zona rural de Volyn, quando retomaram com mais energia e brutalidade a “tradição” anti-polonesa dos anos 30 – assassinaram cerca de 70 mil poloneses na região de Volyn e, em 1945, haviam matado no mínimo 130 mil na Galícia oriental.  Estavam mais ocupados fazendo limpeza étnica e combatendo partisans soviéticos do que lutando contra os alemães (que se concentravam nas cidades). Bandera foi libertado em 1944 para ser usado contra as tropas soviéticas que avançavam e a OUN-UPA lançou uma campanha de guerrilhas contra poloneses e soviéticos a partir de 1945, como sempre marcada pela extrema brutalidade (granadas em casas de russos, russos sendo pregados em árvores, poloneses com olhos arrancados, etc). Nesse momento, contou muito provavelmente com a colaboração do MI6 britânico (que deve ter visto a utilidade dos radicais, como viram os alemães). A campanha durou até 1949 e Bandera foi assassinado no exílio pela KGB em 1959.

Tirando essa breve, sangrenta e romântica balada dos intolerantes nacionalistas ucranianos, a construção do Estado ucraniano no século XX foi marcada pelo pluralismo. A Ucrânia soviética foi fundada sob o pluralismo, com os ucranianos tendo direitos nacionais desconhecidos nos tempos do czarismo – jornais, documentos, escolas, livros, homenagens a escritores nacionais, infraestrutura cultural. Trotsky ironizava o fato dizendo que “os ucranianos poderiam ler e ouvir as ordens da burocracia em sua própria língua” e até hoje nacionalistas russos ressentem a política soviética da “ucranização” como uma discriminação positiva contra russos e responsável pelo desastre atual. A parte disso, existiam diversos distritos voltados para outros grupos nacionais (romenos, húngaros, judeus, poloneses, moldávios, etc). Quando a URSS caiu e a Ucrânia ficou independente, ela foi fundada nesses mesmos princípios, no entanto no seio do novo ambiente político renasceu o nacionalismo monista e dentro dele o nacionalismo radical, o neofascismo e neonazismo. O governo dos Estados Unidos fez sua parte abrigando e alimentando os veteranos e continuadores da OUN-UPA, que rapidamente retornariam para o país de origem se envolver no novo cenário político. Radicais se organizavam em grupos como UNA (Associação Nacional Ucraniana), alguns optavam banderismo mais ou menos radical, pelo “nacionalismo integral”, outros faziam novas interpretações do nazismo. O revanchismo anti-comunista, anti-soviético e anti-russo se intensificava. Mesmo políticos “respeitáveis” tinham passado pela UPA no exílio, como é o caso daquele que viria a ser presidente do país, Yuschenko. Outros não tinham um passado tão radical, mas mantém suas posições monistas, como é o caso da oligarca Timoshenko (cujo partido inclusive tomou parte em homenagens a Bandera). Os russos de repente se encontraram como uma minoria sensível a ataques institucionais, precisando de organizar politicamente. Além do radicalismo político, existia um clima de preconceito e revanche se desenvolvendo nas regiões ocidentais.

Grupos radicais foram já em 89 apoiados e financiados pelo ocidente para desestabilizar a URSS. Esses grupos se provariam novamente de grande valia no início da nossa década para promover o “regime change” conhecido como Euromaidan, com uma participação amplamente documentada.

O triunfo da “revolução europeia em nome da liberdade e da democracia” foi o triunfo da intolerância. Russos passaram a ser perseguidos, espancados na rua, sua língua suprimida, suas associações reprimidas. Hordas assediavam transeuntes, sedes partidárias comunistas foram invadidas, jornalistas e inimigos políticos intimidados – a Ucrânia se viu afundada num grande progrom.

A Crimeia se separou no início da violência. O ódio aumento, a perseguição se intensificou; lembrem-se do que aconteceu em Odessa (agora governada pelo ex-presidente da Geórgia)! Quando começaram as agitações no Donbass, bandos fascistas tentaram reproduzir a violência que praticavam no resto do país; daí saíram os primeiros conflitos, nas manifestações e nas ocupações de prédios públicos.

Começou a guerra.

Com o início da guerra a lógica do progrom se ampliaria, mas daria início a um novo nível de intolerância, mais político, mais genocida, concretizado nos crimes dos batalhões punitivos (ex. Azov, Aidar) e na campanha de bombardeios dirigida contra as cidades (que iniciou ainda muito cedo). Ao mesmo tempo, transformam o Donbass numa espécie de campo de concentração onde se chove fogo diariamente, um gueto de Varsóvia ampliado, a região é “Palestinizada”. “Está mais para Gaza”, penso um pouco no intuito de ser mais preciso, mas se contarmos a região que não está sob controle rebelde mas sim sob o domínio de batalhões punitivos e tropas formadas por homens de regiões distantes, da Ucrânia ocidental, se contarmos as regiões que formam a Novorrússia, se pensarmos em Karkhov, Dnipropetrovsk, Slavyansk, Kramatorsk, Licithiansk, “palestinização” parece justo o suficiente. As cidades do lado ucraniano sob a zona de operação sofrem muito com um exército que se comporta como um exército de ocupação, desligado dos locais, violento e que despreza os civis. Conscritos de outras regiões, fanáticos e mercenários de diversas nacionalidades. Aparte da propaganda sobre “invasão russa”, a consciência se tranquiliza com a desumanização das vítimas – são uma escória russa, não são verdadeiros ucranianos, foram colocados lá por Stálin, são menos inteligentes, menos independentes e mais apegados as tetas do Estado, são eleitores do Partido das Regiões e do Partido Comunista, são bárbaros. Como nos delírios de Dontsov e Bandera, o massacre se torna uma limpeza – a Ucrânia está sendo higienizada.

"Nós vamos ter trabalho, eles não; nós vamos ter pensão, eles não;  (...) nossas crianças vão para a escola e para o jardim de infância, as crianças deles vão sentar no porão." - Petro Poroshenko, ciente de certas consequências da sua campanha de bombardeio. Foto tirada em Pervomaisk, Fevereiro de 2015.

“Nós vamos ter trabalho, eles não; nós vamos ter pensão, eles não; (…) nossas crianças vão para a escola e para o jardim de infância, as crianças deles vão sentar no porão.” – Petro Poroshenko, ciente de certas consequências da sua campanha de bombardeio. Foto tirada em Pervomaisk, Fevereiro de 2015.

Em Kiev e nas regiões mais distantes do conflito a situação é um pouco mais normal, no entanto bandos tomam as ruas, oponentes continuam sendo aterrorizados, mesmo que esses “oponentes” sejam aposentados usando uma fita de São Jorge, símbolo da vitória sobre os nazistas. A hipocrisia é rampante: leis que não permitem que se questione a guerra; campeões da liberdade de expressão que conseguem em um dia ter oito jornalistas pro-russos assassinados. O Partido das Regiões, praticamente o maior do país, foi suprimido. O Partido Comunista, um principais, também sofre com a supressão e com a perseguição. Outros movimentos e partidos de esquerda além do comunista são reprimidos, bem como as diversas associações políticas pro-russas, que cometeram o crime de nascer. Uma lei que proíbe “nazismo e comunismo” é aprovada enquanto neonazistas controlam tropas e ministérios, ao mesmo tempo é aprovada outra lei que reconhece oficialmente os colaboradores da invasão alemã e os criminosos banderistas. O partido no poder (Bloco Poroshenko) flerta com causas LGBT, do alto do seu caráter euro-civilizado, e envia carta de apoio a comunidade….. logo depois de um grupo neofascista se sentir livre o suficiente para incendiar o cinema mais antigo de Kiev enquanto este exibia um filme LGBT (diferente do prédio dos sindicatos de Odessa, o cinema não foi trancada e os cem frequentadores saíram se ferimentos graves). A mídia ocidental martela “a invasão russa” e “o ditador Putin” em suas matérias.

Fascistas invadem salas de aula para a execução do hino nacional e o grito de “Slava Ukraina, Heroina Slava!!!” (Viva a Ucrânia, Viva os Heróis – aqueles heróis da década de 40 que descrevi logo acima). Paradas são feitas em homenagem a Bandera. Torcidas organizadas cometem massacres. Casais estranhos encomendam bolos em forma de bebê com uma bandeira russa. Convoca-se o extermínio de russos. Crianças gravam vídeos na internet dizendo que “todos os russos devem ser mortos”; música do mesmo teor são cantadas e gravadas. Manifestações gritam lemas de ódio que serão repetidos por agitadores em lugares públicos, inclusive de transporte. “Esfaqueie o russo”, “enforquem o moscovita” – os lemas são passados pra crianças com finalidades “educativas”.

A intolerância se tornou a principal paixão da política ucraniana.

Alguns dirão que isso é uma “reação aos anos de opressão russa”, ou ainda bradarão “Holodomor, Holocausto Ucraniano!”. Me impressiona a confiança de alguns a usar esse tipo de argumento para justificar o massacre. Primeiro, é incabível, não houve genocídio ucraniano pois, como é fácil constatar, não ocorreu um projeto de extermínio mas sim uma carestia que se abateu em diversos territórios da URSS, afetando principalmente russos étnicos. A história é duramente discutida na Ucrânia, com a versão do genocídio sendo avançada pelos monistas, versão dominante no extremo ocidente, na época sob controle polonês. No leste, que teoricamente teria sido quem sofreu o tal genocídio (e que por acaso é historicamente russo), a opinião dominante é aquela que contrapõe o genocídio, a que fala em erros da administração relacionados a coletivização forçada. Eu mesmo que estive no Donbass encontrei cossacos com essa posição, mesmo que ressentidos com efeitos deletérios que teriam sofrido com a coletivização (a perda de suas terras). Segundo, supondo que seja verdade, que morreram não 1.5 ou dois milhões de ucranianos, mas seis milhões, certo, e que? Isso justifica os progroms anti-russos, justifica os bombardeios, justifica a limpeza étnica? Lembro do que disse Voltaire em seu “Tratado sobre a Tolerância”:

“Os tempos passados são como se jamais tivessem existido. É preciso sempre partir do ponto de onde se está, e daquele onde as nações chegaram.”

A narrativa do Holodomor foi fortalecida justamente pelo governo de Yuschenko, cria da UPA no exílio. Quando o reconhecimento oficial dele foi ser votado no parlamento, o debate gerou acirramento nacional, com centenas de deputados boicotando a votação. O Partido das Regiões, por exemplo, era contra o reconhecimento. Essa narrativa é só mais um instrumento para incentivar a intolerância e o sentimento anti-russo.

A campanha da intolerância ecoa até mesmo em organizações políticas ditas “internacionalistas” e de “esquerda”. O Secretariado da LIT-QI (Liga Internacional dos Trabalhadores – Quarta Internacional), organização do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) brasileiro, fez uma estapafúrdia “Declaração sobre a situação na Ucrânia” (que chama o Maidan de “processo revolucionário”, onde diz:

“Os russos não podem ser considerados uma nacionalidade oprimida na Ucrânia. Pelo contrário, são uma nacionalidade opressora. O marxismo revolucionário defende, em geral, a auto-determinação das nacionalidades oprimidas, e não das opressoras.”

Devemos supor então que as regiões mais pobres da Ucrânia, povoada por uma nacionalidade praticamente expatriada e que tem seus direitos civis atacados, inclusive com seus direitos linguísticos básicos sendo ameaçados, sua língua sendo tratada como “inferior”, “língua de cozinha” (usa em casa, não na vida pública), e agora sofrendo um avanço contra seus direitos políticos e até mesmo seu direito a existência? Como essa nacionalidade constituí uma “nacionalidade opressora”, não conseguindo assinar contratos que estão em ucraniano? É o camponês e o operário do Donbass “opressor”? Os jornais, as publicações, a educação, por acaso é tudo em russo? É o cossaco, habitante natural da Zarapozhia e das margens do Don, que do ponto de vista nacional é russo mas ao mesmo tempo vítima histórica de políticas do Estado central (antes e depois de 1917)? O quão consequente é esse secretariado fazendo declarações desse tipo na situação atual? Se Trotsky na década de 30 reconhecia no Estado soviético políticas nacionais ucranianas, qual o cabimento de uma afirmação dessas no ápice da agitação chauvinista anti-russa? O texto diz em outra parte:

“A península da Criméia é, na verdade, um enclave russo. A região passou por um processo brutal de russificação, levada a cabo por Stalin, com uma limpeza étnica contra os tártaros, a população histórica da península. Mais de 190 mil tártaros foram deportados para o Uzbequistão, Mari, Kazaquistão e outros oblasts [províncias] russos. A população tártara na Criméia foi dizimada e expulsa de sua própria terra, para depois ser substituída por colonos russos. Portanto, podemos afirmar que a atual “maioria” russa da Criméia advém do processo de russificação iniciado no final do século XVIII e, sobretudo, do atroz genocídio de 1944-1945.”

O trecho recorre desvergonhadamente a mentira. Houveram sim deportações no período Stálin, de tártaros e alemães que viviam na Crimeia por colaboração com o nazismo (tártaros formaram suas próprias legiões pra combater ao lado da SS; a deportação de tártaros foi em 1944), no entanto nesta época a Crimeia já estava há muito russificada, tanto do ponto de vista étnico como civilizacional. Do ponto de vista étnico isso já era uma realidade no fim do século XIX. Não houve “substituição por colonos russos” (???), a colonização foi no século XVIII.

O que sugerem então, invalidar o referendo e devolver a Crimeia historicamente russa para a Ucrânia? Ou vamos discutir a anexação da península pela Turquia? Expulsar, matar os russos, deixar tudo para os tártaros? Bom, até aí a horda dourada também conquistou a Crimeia e fez uma limpeza étnico-confessional. E claro, para discutir isso, vamos fingir que existe uma comparação legítima entre ambos os momentos (2014 x 1783), e renunciar qualquer compreensão de processos de colonização, a lógica dos Estados e a qualquer estudo mais sério da evolução demográfica da Crimeia. Devo supor que o massacre de poloneses étnicos nos anos 40 então fosse legítimo por causa do controle polonês e pelo fato dos senhores de terra da região em geral serem poloneses?

Nos lembrando de posicionamentos de uma parcela mui responsável da esquerda brasileira, devemos citar também o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). No site da Luciana Genro está publicado um texto do secretário de relações internacionais do partido “sobre o levante revolucionário”, que muito fala sobre “imperialismo russo” sem tocar na questão do Donbass, subestimando a política da Junta na região e até dialogando com a mesma (afinal estão enfrentando o “neo-imperialismo russo”, o massacre se torna legítimo).

Quanto ao leste ucraniano, este é “russo” ou “novorrusso” desde a primeira rebelião nacional ucraniana liderada pelo Ataman Khemeneltsky. Vem sendo russo desde então. A criação do tal Estado ucraniano como conhecemos só acontece graças a União Soviética. Mas supondo que são terras “tomadas por russos”, que “são russos enfiados lá por Stalin”, então deveríamos matar todos, exterminá-los? Para nós isso pode ser só um recurso retórico para denunciar discursos irresponsáveis, mas é a mentalidade intolerante que agora marca a política ucraniana para com o Donbass.

“Enforquem os moscovitas”, disse a criança, disse o fascista.

Tratado sobre a Tolerância, Voltaire

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