O pensamento político de Nietzsche – a relação com Maquiavel por E. A. Rees

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Por E. A. Rees

[RP: Este texto faz uma boa ligação entre Maquiavel e Nietzsche, de uma forma sintética e expositiva em relação as opiniões políticas do segundo. Sim, existem alguns “riscos” para os incautos, mas não vejo distorção fundamental por parte de Rees no pensamento de Nietzsche, sendo que suas insuficiências dizem respeito mais a toda uma extensão do pensamento do filósofo alemão que se perde, o que é natural já que o objetivo do autor não é fazer uma exposição ampla da filosofia de Nietzsche mas fazer uma introdução a seu pensamento político. Aos interessados e aos discordantes, recomendo a obra organizada por Noeli Correia Sobrinho, divida em dois volumes, compilando os “Escritos Sobre Política” de Nietzsche. Aos mais audazes ou mais ultrajados por tal “pintura anti-democrática de Nietzsche”, pelo o que seria uma “incompreensão do mesmo”, recomendo a obra magna de Losurdo, “Nietzsche: O Rebelde Aristocrata”. De qualquer forma, hoje em dia, especialmente com os anos de debate e a publicação dos cadernos pessoais (como se as obras publicadas já não fossem muito claras nesse aspecto….), é difícil falar de um “Nietzsche progressista” e mesmo os que argumentam em prol de um elemento democrático dentro da obra sabem que este deve ser cuidadosamente “ordenhado” apesar do radicalismo aristocrático de Nietzsche. Nietzsche certamente não é Hitler, tão pouco Mussolini, não é Evola e não é Mencken, mas está longe de ser Guatarí, Deleuze, Derrida, Adorno e, principalmente, não é Foucault! O primeiro da lista “distorceu” Nietzsche tanto quanto o último, como todo ser humano faz ao re-interpretar e re-significar uma obra de outro para construir sua própria.]

O débito de Nietzsche [a Maquiavel] é mais explicito nos mais políticos e polêmicos de seus trabalhos: Além do Bem e do Mal (1886), Sobre a Genealogia da Moral (1887) e Crepúsculo dos Ídolos (1888-9). 53 Seu conceito de história se coloca em fundamental oposição aquela de Marx. Mas ambos compartilham uma concepção da política baseada na luta pelo poder e pela dominação, e ambos tinham o liberalismo e o parlamentarismo em baixa estima. O “cretinismo parlamentar” de Marx é a “imbecilidade parlamentar” de Nietzsche. 54 Ambos mantinham uma visão heroica da política e tinham a pequena da política contemporânea bem como a ordem capitalista existente com desprezo.

Em Sobre a Genealogia da Moral, Nietzsche insistiu no uso da força não para assegurar um estado particular mas para garantir a base da civilização humana. Diferente de Maquiavel, Nietzsche acreditava em progresso, mas, como Maquiavel, era tomado pelo medo da corrupção e degeneração da sociedade, numa paráfrase de Maquiavel, ele colocou a proposição de que a ‘verdade é uma mulher’ que favorece o guerreiro. A civilização era baseada sobre princípios masculinos. Ele temia o perigo da domesticação do homem, enfatizando o papel da força em elevar a civilização humana a níveis superiores, o papel civilizatório do mau e da crueldade. Ele identificou a vontade de poder como a força que caracterizava a sociedade humana. Fazia uma distinção entre entre a aristocrática concepção romana de moralidade, que enfatizava a ação, a vontade, a asserção, o vigor e saúde, em contraste a moralidade dos escravos, que ele igualou ao Cristianismo e ao socialismo moderno. Os segundos eram ambos dirigidos pelo ressentimento, o que levou ao enfraquecimento dos impulsos humanos, produzindo o que Nietzsche definiu como “niilismo”, uma “vontade de nada”. Contudo, se pode argumentar que o próprio Nietzsche era o “niilista moral” por excelência com sua total rejeição da tradição moral pós-socrática e judaico-cristã.

Nietzsche rejeitou todas as noções estabelecidas de ética, argumentando que a ética deve ser criada, inventada pelo homem. Ele rejeita a tentativa de Kant de criar algum sistema universal de moralidade baseado na racionalidade, rejeita o “utilitarismo”(“a maior felicidade para o maior número”) como reflexo do niilismo contemporâneo. Sua posição era intransigentemente ateística [achei semanticamente mais adequado colocar dessa maneira ao invés de “ateia”]. Progresso só poderia ser medido em termos de civilização humana conforme medido pelo avanço estético, não em termos de interesses gerais dos membros da sociedade. Não havia nenhum código universal de moralidade, só diferentes códigos de moralidade aplicados para diferentes grupos dependendo de sua posição dentro da hierarquia. Estados foram estabelecidos como um ato de dominação de raça sobre raça e mesmo classes sociais refletiam diferentes componentes raciais [Nietzsche não é exatamente “biologista” aqui]. Ele então rejeita a noção de má consciência como uma força que enfraquece a humanidade, é a tentativa de inculcar no forte o senso de culpa por parte do fraco. A luta entre as moralidades de mestre e escravo era uma batalha constante. Enquanto a Revolução Francesa foi uma manifestação de moralidade servil, Napoleão manifestou uma inquestionável moral aristocrática de mestre.

A noção do príncipe como o indivíduo que poderia criar ou reformar o estado se tornou em Hegel a noção de “individuo histórico-mundial”. Thomas Carlyle deu ênfase no papel do individuo na história. 55 Na obra de Marx e Engels está repleta da problemática do papel do indivíduo na história, particularmente em sua discussão sobre Bonapartismo. A ideia do “indivíduo histórico-mundial” se transforma em Nietzsche no conceito de “superhomem”, onde, através da ação de ativas e vigorosas minorias, a civilização humana foi elevado para um plano superior e o homem mesmo transformado. Tanto Hegel como Nietzsche eram grandes admiradores de Napoleão.

Nas obras de Nietzsche a noção de Maquiável de se estabelecer a virtú foi transmutada numa discussão mais geral da natureza da civilização. Ambos desprezavam a Cristandade e compartilhavam muitas das mesmas concepções de quais seriam os princípios ativos que subjazem uma sociedade saudável. Nietzsche admirava muito Cesare Borgia (56) e elevou a defesa de Maquiavel da guerra, da força e da crueldade num princípio geral de como a civilização é forjada: “As coisas nunca procedem sem sangue, tortura e vítimas, quando o homem julga necessário forjar sua memória [lembrança]”; “quanto sangue e horror está na base de todas as ‘coisas boas'”. 57 Para Nietzsche, o estado era “o mais gélido de todos os monstros frios”. 58 Em Para Além do Bem e do Mal Nietzsche também lembra como, através dos séculos, o povo germânico, reputado como “gentil, de bom coração, vontade fraca e besteiras poéticas”, foi transformado por uma nova moral aristocrática. 59

Nessa mesma obra, Nietzsche expressa grande consideração por “O Príncipe”, que expressava ‘prolongados, dificultosos, duros, perigosos’ pensamentos em um ‘galope’ e com ‘o mais deliberado bom humor’. 60 Aqui ele parafraseia Maquiavel, quando ele descreve os medo de Frederick William da Prússia que seu filho, o futuro Frederico O Grande (autor do Anti-Maquiavel) faltasse nas qualidades requeridas pela lideranças: ‘ele suspeitava da incurável miséria de um coração que não é mais duro o suficiente para o bem ou para o mal’. 61 No Crepúsculo dos Ídolos: ‘Tucídedes, e talvez O Príncipe de Maquiavel, estão próximos de mim pelo sua vontade incontrolável de não se iludir e de ver razão na realidade – na “Razão”, menos ainda na “moralidade”‘.62 Numa carta privada Nietzsche falou de maneira provocativa de seu desejo de escrever: ‘Um livro mau, pior que Maquiavel e esse levemente mal-intencionado, diabo mais subserviente, Mefistofeles!” 63 O uso frequente de NIetzsche da palavra ‘mal’ [e mau] ecoa invariavelmente o uso irônico de Maquiavel. Numa nota não publicada, ele declarou que o Maquiavelismo era a ‘perfeição em política’ e como um ‘super-homem’. Em Sobre a Genealogia da Moral, ele descreveu Napoleão como a ‘síntese do inumano e do super-humano’. 64 Nietzsche era um grande crente na “Razão de Estado”; ele desprezava a má consciência de comandantes contemporâneos que havia, perdido a força e a vontade para fazer mal. Isso era parte do seu desprezo geral pelos costumes contemporâneos, pela política contemporânea e seus jogos parlamentares. Como uma solução para a decadência dos tempos modernos, seu remédio era endurecer o coração. 65

Nietzsche toma a posição daqueles que Dostoievsky via como grandes ameaças a civilização – os Raskolnikovs que viam si mesmo como criadores de seus próprios códigos morais, os Napoleões da história para os códigos morais ordinários não podem ser aplicados. Nietzsche aplica o termo “niilistas” para Cristãos, socialistas, liberais e utilitaristas que buscavam organizar um código moral que elevasse o homem comum, através de programas de melhora social e contendo o poder dos membros mais fortes da sociedade sobre os mais fracos. Nietzsche celebra os direitos dos mais fortes na organização da sociedade de acordo com suas necessidades e desejos, e então através de suas ações, ele acreditava, elevando a civilização num plano superior. Para Nietzsche, a morte de Deus era um fato a ser celebrado, com o próprio homem agora se tornando mestre do seu destino como homem-deus, com sua declaração de que ‘nada é verdade, tudo é permitido’. 66 Tanto Dostoievsky e Nietzsche pode ser visto como existencialistas primitivos; Dostoievsky, o existencialista cristão que pensava que a moralidade tem de ter uma base religiosa e teme o perigo do culto do homem-deus; Nietzsche, o existencialista que se deleita na nova liberdade criada numa situação onde o homem-deus se tornou possível.

 

Notas

53. Alguns comentaristas disputam o débito de NIetzsche a MaquiavelMachiavelli. VerFriedrich Nietzsche, Twilight of the Idols (Harmondsworth, 1972) tradução e comentário por R. J. Hollingdale, especialmente as notas sobre Maquiavel e Cesare Borgia, ibid., pp. 200, 205. Ver também Keith Ansell-Pearson, Nietzsche Contra Rousseau (Cambridge, 1991) pp. 38–9, que enfatiza a dívida de NIetzsche a Maquiavel no que concerne primeiro o ‘Maquiavelismo do poder (Macht), isto é, a visão que a moralidade pode sempre ser vista como construída em fundações “imorais”‘, e, segundo, no seu pensamento sobre moralidade e a ‘noção de Virtú de Maquiavel, uma noção que ele constantemente contrapõe ao entendimento cristão de ação virtuosa’. Nietzsche foi muito influenciado pelo tratamento de Maquiavel em A Civilização da Renascença na Itália de Jabok Burkhardt [RP: que foi em geral um grande influência para Nietzsche]
54. Friedrich Nietzsche, Beyond Good and Evil (Harmondsworth, 1990), p. 138. 55. Ernst Cassirer, The Myth of the State (New Haven and London, [1946] 1974), ch. 15.
56. Nietzsche, Twilight of the Idols, pp. 89–90. 57. Friedrich Nietzsche, On the Genealogy of Morals (Harmondsworth, 1996), pp. 42, 44.
58. Fiedrich Nietzsche, Thus Spoke Zarathustra (Harmondsworth, 1969), p. 75.
59. Nietzsche, Beyond Good and Evil, p. 140.
60. Ibid., p. 60.
61. Ibid., p. 139.
62. Nietzsche, Twilight of the Idols, pp. 106–7.
63. Geoff Waite, Nietzsche’s Corpse (Durham and London, 1996), p. 316.
64. Cited in Bruce Detwiler, Nietzsche and the Politics of Aristocratic Radicalism (Chicago and London, 1990), pp. 4, 49.
65. O interesse de Nietzsche em Maquiavel não era um paixão passageira. No seus cadernos de 1887 ele escreveu que a Cristandade era uma religião cabível somente para a vida privada não pública: ‘No fim o princípe cristão, também, pratica a política de Maquiavel: assumindo, isto é, que ele não pratica mal a política’. Rudiger Bitter (ed.) Nietzsche: Writings from the Late Notebooks (Cambridge, 2003), p. 197.
66. Nietzsche, On the Genealogy of Morals, p. 126. Nietzsche, Thus Spoke Zarathustra, p. 285.

FONTE

E. A. Rees, Political Thought from Machiavelli to Stalin – Maquiavelismo Revolucionário, Palgrave Macmilian, 2004, Hampshire, p. 41-44

 

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