Brasil “peita os EUA” depois de todo mundo – governo puxa rabo de cobra morta e governistas tentam tirar leite de pedra

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Uma das maiores mistificações do discurso petista é a de que o governo do PT “rompeu com a dominação norte-americana”, enquanto o Brasil segue sendo em grande parte “objeto” de uma zona de influência norte-americana, com uma posição não tão independente quanto estes querem fazer parecer.

A mais recente “evidência” é a adesão do Brasil ao Asian Infrastructure Investiment Bank.

Seguem abaixo mensagens padrão difundidas pela militância virtual:

“Se todos os brasileiros soubessem dos planos grandiosos que a Presidente Dilma Rousseff tem para o Brasil, se sentiriam agradecidos por terem o privilégio de tê-la nos governando !!! Divulguem, e mostrem o que éramos com FHC ( mendigos do FMI ) e o que somos hoje com Dilma Rousseff !!!”

“É isso aí, presidenta Dilma Rousseff!
Abaixo de hegemonia do FED (Banco Central dos EUA) sobre o sistema financeiro internacional!

Já passou da hora de desintoxicar a economia mundial dos dólares americanos e o Brasil, juntamente com China, Rússia e Índia e, mais recentemente com a adesão de Itália, França e Alemanha ao banco do BRICS contribui ENORMEMENTE para esse movimento…” (eu concordo com boa parte do que é dito aqui, mas vale para ilustrar a mistificação, além da interessante passagem do anti-imperialismo para uma forma de anti-americanismo patrioteiro – é de se notar a apreciação acrítica da adesão da França e da Alemanha ao Banco do BRICS).

Num site de notícias compartilhado pela militância chamado “Portal Metrópole” temos o título:

“Brasil desafia os EUA e fará parte do banco chinês de desenvolvimento”

O jornalista Paulo Henrique Amorim, atualmente um famoso governista (reza a lenda que é um eterno amigo da situação) escreveu o seguinte título para a postagem em seu blog “Conversa Afiada”:

“Brasil é sócio de banco chinês que peita os EUA”

Amorim pelo menos tem a visão de perceber a aproximação de certos países europeus (que ele trata corretamente como subordinados norte-americanos) com os BRICS, mais corretamente com a Rússia e com a China, por razões de ordem econômica.

Citação:

“Sobre a reação americana – a ficha caiu quando a Alemanha (protetorado americano) e a Inglaterra (agencia bancaria dos Estados Unidos) aderiram ao AIIB:

http://www.nytimes.com/2015/03/20/world/asia/hostility-from-us-as-china-lures-allies-to-new-bank.html?_r=0 “

Vamos usar mais alguns links para explicar as coisas:

– Em julho de 2014 temos notícias sobre os planos chineses de um grande banco de investimentos em infra-estruturas, projeto que realmente afetaria a hegemonia norte-americana através do FMI e do Banco Mundial.

http://rt.com/business/168620-china-world-bank-own/

– Em outubro ele é iniciado.

– Na primeira quinzena de março de 2015, a Grã-Bretanha acena para a possibilidade de se juntar ao AIIB. Isso despertou considerável fúria americana.

http://rt.com/business/240341-uk-usa-asia-bank/

Creio que aqui é cabível lembrar do que representa a Grã-Bretanha na ordem econômica internacional, na chamada ordem imperialista – em suma, posição muito diferente da do Brasil.

– Alguns dias depois a França, a Alemanha e a Itália anunciaram sua adesão.

http://rt.com/business/241365-china-bank-eu-usa/

– No mesmo período, Austrália cogita fazer o mesmo.

http://rt.com/business/242497-japan-australia-aiib-membership/

– Suíça e Luxemburgo, então.

http://rt.com/business/242897-switzerland-luxembourg-aiib-china/

– ENTÃO OS ESTADOS UNIDOS FAZEM UMA CONCESSÃO e assumem uma posição mais moderada em relação ao banco chinês.

http://rt.com/business/243301-us-aiib-partnership-support/ “Washington ‘muda de tom’ em relação ao banco de infraestrutura liderado pelos chineses”

“A administração Obama quer usar os bancos de desenvolvimento existentes co-financiar projetos com a nova organização de Beijing (…) Isso veio ao passo que Washington enfrentou uma posição desafiadora de seus principais aliados”

Um oficial americano é citado:

“Os EUA vão dar boas vindas a novas instituições multilaterais que fortaleceram a arquitetura financeira internacional“, chegando a citar diretamente a participação em projetos do AIIB.

“A chefe do FMI Christine Lagarde disse que seria um ‘deleite’ para o fundo cooperar com o AIIB”

Uma liderança do Banco Mundial também confirmou a intenção de colaborar com a instituição criada pelos chineses.

http://rt.com/business/243569-china-development-bank-us/ “Apoiar o banco de desenvolvimento da CHina foi ‘concessão gigante’ dos EUA”

Notem que nesta última matéria do dia 24 de Março, quando os EUA já haviam mudado sua posição, temos um mapa dos Estados-fundadores:

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Ou seja, o Brasil só “desafiou os EUA” depois da França, da Alemanha, da Inglaterra o fazerem e depois dos próprios Estados Unidos mudarem o tom. “Desafiou” depois que não tinha mais problema. Qualquer pessoa honesta sabe que um verdadeiro desafio nesses termos demandaria uma ruptura com o FMI/Banco Mundial ou no mínimo uma posição mais pro-ativa, menos submissa em relação ao mesmo, mas o que o PT faz desde 2003 é ser mais um servilista do órgão internacional – não estamos falando só de implantação de políticas da instituição, do vínculo com quadros da instituição, com o fluxo de dinheiro para com a instituição, mas de coisa simples como não auditorar a dívida e permitir que ela consuma quase metade do orçamento nacional (nesse caso, o vínculo do sistema financeiro em geral com o FMI/BM fica sub-entendido). O ato é muito mais uma medida “convencional”, não muito impressionante, do que um “ato politico” que diz muita coisa, uma “grande decisão” que realmente implica num problema com os americanos, por mais que assim tentem explorar o acontecimento. Não adianta tentar tirar leite de pedra.

 

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