Fascismo ucraniano? Em que sentido? (breve comentário)

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“Gente, agora fascista virou blanket term pra qualquer pessoa com pensamento discordante?”

Essa frase foi usada para questionar o uso do termo “fascista” para se referir a Junta de Kiev e “antifascista” para designar os rebeldes da Nova Rússia que lutam contra essa junta, no contexto da atual guerra civil.

O objetivo deste texto é mostrar que fascista não está sendo usando como “blanket term” na guerra civil ucraniana.

Antes de tudo: os próprios rebeldes chamam as forças políticas ucranianas de fascista.

Eu particularmente me incomodo com o uso indiscriminado do termo “fascista” como uma descaracterização conceitual, especialmente quando este se descola da própria ideologia, no entanto, existe um contexto muito claro para o uso dessa palavra pelos rebeldes.

Existem duas razões principais.

A primeira delas a que chamou mais atenção do ocidente, é a participação de grupos neofascistas no Euromaidan somado com o papel importante de batalhões voluntários de orientação neofascista na guerra contra os rebeldes, como o famigerado Batalhão Azov (importantíssimo) e o Batalhão Donbass. É exemplar que quando os povos dessas regiões foram se manifestar e assaltaram os prédios do governo, normalmente o último bastião de defesa desses prédios era formado pelo Pravy Sektor, aquele mesmo grupo cujos elementos se destacaram como tropa de assalto dos manifestantes do Euromaidan. Naturalmente, numa situação em que está em jogo a questão nacional, como se coloca em questão a integridade da Ucrânia, grupos nacionalistas radicais ganham espaço  - e nesse tipo de contexto até figuras mais liberais como Poroshenko se fascistizam.

Batalhão Azov

“Fascistização” trás a tona a segunda razão, possivelmente mais importante, que diz respeito mais ao processo do que as formalidades ideológicas. É a noção de que o fascismo existe na medida que você está falando de uma força política ilegítima governando pela violência.  Cabe a definição marxista da “ditadura aberta do capital”(já que também existem umas medidas econômicas no meio, por mais que não tenham chamado tanto atenção). É um governo reacionário que assume meios violentos, caminha pela ilegalidade e, especificamente, priva uma parte da população de certos direitos, mais do que isso, massacra e bombardeia essa população, a coloca sob as botas militares. Uma das coisas que está em jogo é a perseguição e a marginalização de um grupo étnico-nacional e esse foi o principal gatilho para o uso do termo “fascista” no conflito ucraniano. Nesse caso, o governo, o Estado, o processo, essas forças são fascistas independente da existência do Pravy Sektor, do Batalhão Azov, independentemente dos fascistas uniformizados. É notável o papel da Guarda Nacional, formada por voluntários geralmente motivados por sentimentos nacionalistas que participaram do Maidan, seu caráter ufanista e acima de tudo sua infâmia, seus crimes, sua violência, como se tratasse com inimigos estrangeiros.

É por isso que os rebeldes da Novorossyia usam abertamente o termo FASCISTA, com um componente ideológico que remonta a Grande Guerra Patriótica, onde os alemães eram chamados de “fascistas”. Há um forte componente cultural e nacional no meio. Junto com isso, levando em conta o exemplo da Guerra Civil Espanhola, é um dos usos históricos de “fascista”, é o “fascismo genérico” ou o “fascismo na visão marxista” – tanto faz se ele corresponde ou não a certos requisitos ideológicos (apesar de existirem pontos como: ufanismo, ilegalidade, militarismo, economia, autoritarismo, certas características institucionais, etc).

Do ponto de vista dos marxistas, sempre foi assim.  Quando um governo reacionário começa se recrudescer, assume formas mais violentas e começa a “transcender” a legalidade burguesa, os marxistas e pessoas em geral falam em FASCISMO. É o Estado burguês, capitalista, esse que conhecemos, assumindo formas autoritárias, policiais “a direita”. Os marxistas definem fascismo com base nisso, como reação violenta, “ditadura aberta e terrorista dos elementos mais chauvinistas, reacionários e imperialistas do capitalismo financeiro” – tudo isso cai como uma luva para o caso ucraniano, chauvinista, reacionário, imperialista (imperialista no sentido de sistema econômico global) e principalmente a serviço do capital financeiro. Os regimes militares são chamados de fascistas, Pinochet, Fujimori é considerado uma fascistização frente ao Sendero, sempre se fala em “fascistização” frente aos movimentos revolucionários, se fala de fascistização dos israelenses frente os palestinos, por causa dos mecanismos de controle e opressão, a dominação nacional…. a propósito, a confusão em relação ao que foi Vargas no Brasil sempre se dá devido a mistura da definição que partiu da experiência imediata dos comunistas na década 30 em contraposição a uma definição mais histórica e geral, em termos de modelo político-ideológico (se Vargas corresponde a ele ou não) – para os comunistas o que estava em jogo não era a ideologia do regime varguista ou sua estrutura propriamente dita mas o fim da ALN e a repressão de suas organizações.

Enfim, o contexto está esclarecido – ninguém está usando livremente, mesmo que não necessariamente corresponda a chamada ideologia fascista (aquela de Benito Mussolini).

Em breve uma compilação dos grupos nacionalistas de extrema-direita que atuam na Ucrânia.

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