C4SS – A Esquerda Libertária Pró Livre Mercado

LEFTMARKET
A ideia de que a definição de “direita”  é a defesa do livre mercado vem se tornando um dogma em círculos de jovens direitistas e novas correntes de direita que vem se desenvolvendo no Brasil (especialmente na Internet). Instituto Mises, Partido Liber, Libertarianismo.org, Anarco-Capitalistas, seguidores de Ayn Rand, Daniel Fraga, Rodrigo Constantino e Olavo de Carvalho* , bem como páginas da Internet que só se identificam de direita.

[*Me refiro especialmente a seus seguidores, mas ressalto  que Olavo de Carvalho não é libertário,  muito menos anarco-capitalista e já expressou algumas ressalvas em relação a posições radicais em defesa do livre-mercado. A despeito dessas ressalvas, segue sendo um defensor do livre-mercado em geral e já usou isso como critério para traçar uma linha entre esquerda e direita.]

Produto da ignorância adolescente ou de uma agenda política clara, o fato é que isso é um reducionismo que beira ao absurdo.  Ignora as direitas autoritária, conservadora, reacionária, monárquica, aristocrática, antiliberal, republicana, tradicionalista, religiosa, agrarista, corporativista e contrarrevolucionária. Ignora a própria origem da divisão entre “esquerda” e “direita” na Revolução Francesa, onde a direita estava longe de um defesa do livre mercado. A propósito, no século XIX, Bastiat sentava-se no lado esquerda da assembleia. Essa confusão talvez se deva a uma visão demasiado norte-americana das coisas, já que a “outra direita” se desenvolveu mais na Europa esse é um erro de julgar “direita” e “esquerda” como graus de intervenção do Estado é comum nos EUA também.

Tirando esses exemplos simples, existe uma maneira mais espetacular de refutar os que insistem em dizer que “direita = livre mercado”: o libertarianismo de esquerda. Quando falamos numa esquerda libertária, normalmente pensam em anarco-socialistas ou em socialistas liberais. Não é esse o caso de organizações como o think-tank Center for a Stateless Society (C4SS). Esses libertários de esquerda são rígidos defensores da ideia liberal de “auto-propriedade”, da propriedade privada e do livre mercado. Acreditam que a conclusão lógica dessa posição seja anti-hierárquica, anti-Estado e anti-corporações, além de se considerarem pro-trabalhador e anti-capitalistas. Seu “anti-capitalismo” deve ser entendido como uma oposição a predominância do capital sob o trabalho e a associação do capital ao Estado, os “grandes capitalistas”, argumentando que esses mantém sua posição pela força, apesar disso continuam defendendo mercados livres, a propriedade privada e as concepções de figuras como Bastiat, dos neoclássicos, da Escola Austríaca, etc.  Os seus remédios estão no livre mercado e na livre associação (com os trabalhadores constituindo suas próprias associações), sendo igualmente críticos do “estatismo”. Suas origens se encontram no mutualismo de Proudhon, no egoísmo de Max Stirner, no anarco-individualismo norte-americano, no pensamento de Benjamin Tucker e de figuras mais ligadas ao libertarianismo em geral como Rothbard. Eles também tem o seu próprio hall de pensadores. O C4SS faz parte da Libertarian Alliance inglesa (cujo lema é: “Vida, Liberdade e Propriedade”), do qual o Instituto Mises britânico também faz parte.  A organização é um dos principais produtores dessa corrente. O seu site está em várias línguas e tem posições sobre diversos assuntos, geralmene fazendo uma crítica social mas com toques libertários.

Vejamos:

-  Um texto chamado “Copa para quem?” que crítica as empreitadas das grandes corporações na Copa do Mundo do Brasil.

- Uma polêmica de um libertário brasileiro contra um liberal que defende remoções das favelas. Explica que as favelas são produto de intervenções violentas na cidade, que os favelados são tratados como cidadãos de segunda classe, são oprimidos pela força policial e que as remoções já são uma realidade sancionada por política pública. Fala que as remoções são uma “prática criminosa” e ironiza dizendo que os ricos e a classe média deveriam ser removidos para dar lugar ao moradores da periferia.

- Textos contra o “Estado-babá”, inclusive contra as regulações de saúde estabelecidas pelo Pará recentemente na produção de açaí.

- Subsídios do governo não são a solução do problema ambiental, fazem parte do problema. Nesse caso o autor contrapõe os subsídios para cortes de emissões com os subsídios para o consumo de energia, transporte de longa distância e outras coisas poluentes).

- A defesa da volta de modelos mutualistas na saúde e para outras formas de bem-estar (como a foi a Beneficência Portuguesa no Brasil).

- “A polícia nunca garantiu a ordem”

- Críticas a intervenção estatal no sistema de táxis.

- Texto contra a pena de morte e as punições em geral.

- Propostas para comunidades pobres e discussões sobre ação direta (o que para eles geralmente tem caráter econômico).

- Questão racial, de gênero e de orientação sexual.

- Defesa do imperativo de auto-defesa usando o caso do Boko Haram na Nigéria, o Estado é incapaz de proteger as pessoas do terrorismo então os nigerianos tem que se organizar bem como fizeram os mexicanos contra o narcotráfico.

- “A ascensão do anticapitalismo é a ascensão do livre-mercado”.

- Críticas a biometria.

- Defesa do porte de armas (atenção especial em louvores as armas de impressoras 3D, fim do monopólio das armas, etc).

- Críticas ao “progressismo a favor das grandes corporações”(Democratas) e aos republicanos norte-americanos (que praticam “corporate welfare” em seus estados).

Por fim, todas as suas concepções econômicas e políticas (não agressão, voluntarismo, contrato, anti-estatismo, liberalismo econômico) são iguais a dos libertários em geral, com a diferença deles terem essa abordagem de esquerda, “pro-trabalhador” e “anti-capitalista”, quer dizer, voltada para uma série de preocupações que geralmente afetam a esquerda (mas com a defesa do livre mercado).

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2 Responses to C4SS – A Esquerda Libertária Pró Livre Mercado

  1. Bechara says:

    O portal libertarianismo é bem amplo dentro dessa idéia esquerda e direita, ele inclusive compartilha textos que podem ser encontrados no C4SS. Só fazendo uma correção sobre o portal ser de direita

  2. Rafael Bechara says:

    O portal libertarianismo é bem amplo dentro dessa idéia esquerda e direita, ele inclusive compartilha textos de autores do C4SS. Só fazendo uma correção sobre o portal ser de direita

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