MORENA – o novo partido de esquerda do México?

O Movimento pela Regeneração Nacional (MORENA) é a nova promessa da esquerda eleitoral mexicana. Dentro do “mercado eleitoral” da esquerda mexicana, competirá com o Partido da Revolução Democrática (PRD), com o Partido do Trabalho (PT) e o Movimento Cidadão (MC).

O partido excedeu os requerimentos de registro eleitoral – 500 mil membros registrados, sendo que só 250 mil são necessários.

Formado sob a liderança do ex-candidato presidencial e ex-governador do Distrito Federal, Andrés Manoel Lopez Obrador,  o partido é criado a imagem e semelhança de seu líder. Obrador ficou em segundo lugar nas últimas eleições e, levando em conta as acusações de fraude, possivelmente é o ganhador usurpado.  Atado a figura do líder, o processo de formação do MORENA lembra a formação do PSUV (Venezuela) ou da Alianza País de Rafael Correa (Equador). O partido soma de maneira harmoniosa  burocracia partidária com movimento social, a política eleitoral com a política de rua. Na verdade, se afasta um pouco da estrutura burocrática dos outros partidos de esquerda, com um caráter semi-descentralizado, formado por assembleias e comitês de base que se multiplicam ao redor de Obrador.

Os estatutos não fazem nenhuma referência ao termo “esquerda”, somente “progressismo”. Não se afasta do velho nacionalismo revolucionário mexicano, é mais cardenista do que social-democrata. Não está ligado a “causas liberais”(aborto, drogas, LGBT, etc). Está mais próximo de um “estatismo conservador”(isto é, Cárdenas) do que dos exemplos fornecidos pela centro-esquerda latino-americana no poder (Brasil por exemplo). Sua ideologia pode ser caracterizada como “populista” – o movimento é o instrumento da regeneração moral promovida pelo povo (que são os bons) contra uma elite corrupta do poder, a aliança maldita de políticos maus, jornalistas vendidos e empresários vorazes. Apesar de incluir as mais diversas faces (inclusive comunistas), esse espírito do partido suprime a existência de correntes.
O MORENA pretende organizar uma frente ampla de trabalhadores, camponeses e  de pequenos e médios proprietários para combater as reformas neoliberais promovidas pelo Partido da Ação Nacional (PAN) e pelo velho Partido Revolucionário Institucional (PRI) (especialmente a recém-passada Lei de Reforma Energética, que estabelece a divisão de lucros de petróleo do Estado Mexicano com companhias estrangeiras), atacando também o já conhecido NAFTA. O partido chama a coalizão do poder de “PRIAM” e diz que os governantes fizeram o México retornar aos tempos de Porfírio Diaz, o governante derrubado pela Revolução Mexicana. A política do MORENA consistiria em romper com essas políticas neoliberais e aumentar os gastos sociais.

O partido não surge somente como uma reação ao projeto neoliberal do PRI mas como uma alternativa radical ao moderado PRD, que entrou no “Pacto Pelo México” com a coligação do executivo (PRI-PAM). A base inicial do Morena é feita de militantes insatisfeitos do PRD, incluindo o próprio Obrador (que de certa forma sofreu uma “traição pessoal” já que com o pacto seu partido de certa forma reconheceu a vitória adversária). No que concerne a disputa pelos votos de esquerda, além do PRD que talvez seja o principal concorrente nesse aspecto, é bom lembrar que aqui também o PRI é uma opção.

O México é, junto com a Colômbia, o único país latino-americano onde a esquerda partidária não chegou ao poder. A política deste país é um caso mui sui generis e inclusive seus partidos são muito diferentes do resto da América Latina – é difícil até mesmo enxergar um equivalente dos outros partidos social-democratas. O México também passou décadas de um regime de partido único do PRI caracterizado por uma dose de indefinição ideológica. O México também conta com uma esquerda muito fragmentada e plural, talvez respondendo a grande variedade regional de problemas sociais. O país também conta com cerca de 20 movimentos guerrilheiros. Dados da Encuesta Nacional de Cultura Política dizem que somente 15% dos mexicanos se consideram “de esquerda”. Pesquisa do Centro de Investigación y Docencia Económicas afirma que só 30% dos mexicanos se consideram leais a um partido (partidários, falando propriamente) e somente 1/4 simpatizante do PRD (que até então era a principal alternativa de esquerda e o partido de Obrador). Talvez esse seja um indicativo do campo eleitoral mexicano. Mas reforço o que sempre digo sobre existirem diversas formas e graus de apoio, confiança e lealdade. Esses dados não mudaram muito o sucesso de Obrador enquanto um “caudilho eleitoral”. Um número maior do que o de auto-declarados esquerdistas vota na esquerda, por exemplo. O sistema eleitoral diz mais respeito a resolver conflitos de uma maneira não-violenta, um pacto de, do que se trata do mito da “vontade do povo” – a “vontade geral” é um complemento ideológico necessário, que legitima tal sistema, mas cuja a existência depende da aceitação do mesmo. A fraude eleitoral por parte do PRI-PAM poderia resultar na ruptura desse “pacto”, apesar do MORENA por enquanto limitar suas comparações do regime com o Porfiriato dizendo que seus inimigos devem ser detidos pacificamente, sem a necessidade do confronto e da violência.

 

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