No Egito, Sisi para Presidente

AMEL PAIN/EPA – Homem saudando campanha de coleta de assinaturas pela candidatura de Sisi no mercado Khan al-Khalil , Cairo

O General de Exército e presidente do Conselho Supremo das Forças Armadas Abdel Fattah el-Sisi, homem forte do atual regime egípcio e líder do golpe que derrubou o presidente eleito Mohamed Morsi, vem se apresentando como uma grande promessa presidencial para as próximas eleições no Egito.

O general novo (foi nomeado pelo presidente que ele mesmo derrubou, não tendo sequer um ano no cargo de general) desfruta de uma popularidade crescente, apesar da repressão sangrenta de manifestantes ligados a Irmandade Muçulmana (para alguns possivelmente essa é a razão da admiração). O país está tomado pela Sisi-mania – o rosto do general aparece na vidraça de toda loja; cartazes se espalham, se escrevem poemas, músicas e cantos, até cupcakes foi assados em homenagem a el-Sisi ( segundo Abigail Hauslohner) . É certamente o homem mais popular do Egito atualmente.

Para muitos egípcios, a ascensão deste “homem forte” é agradável depois de três anos de distúrbios que seguiram a queda de Hosni Mubarak, principalmente para grupos de alguma maneira mais ou menos afetados – empresários, pequenos proprietários, cristãos vítimas de perseguição….

De postura relativamente carismática (relativo a outros militares), Sisi declara a si e o exército como “guardiões da vontade popular”, faz pronunciamentos emocionados com linguagem coloquial e apelativa frente a nação. O nacionalismo “sisista” vai às alturas. Fervoroso admirador de Nasser, Sisi procura emular a imagem do grande líder egípcio (apesar das diferenças históricas, ou da “farsa histórica” que isso constitui) e é assim que é visto e pintado por seus apoiadores.

“No Egito, aparentemente a questão não é mais se, mas quando o chefe do exército Abdel Fattah Al Sisi vai declarar sua candidatura a presidência.” (Reuters, 7 de Janeiro de 2014)

Sisi se mantém calado – ou melhor, quando questionado diz não ser adequado responder isto neste momento. Mas seus apoiadores já fazem campanha, “por conta própria”, declarando ter coletado milhões de assinaturas apoiando sua candidatura. No fim de janeiro, o Conselho Militar Supremo deu carta branca para a candidatura – em declaração pública, o Conselho elogiou as qualidades do general e por ter atendido “o chamado do dever”, dizendo que a candidatura é uma “obrigação” exigida pelas “amplas massas” e que a decisão deve ser tomada segundo a consciência de Sisi.

Após a aprovação em referendo da constituição escrita pelo governo interino e declaração do presidente Adly Mansour de que as eleições presidenciais precederão as eleições parlamentares, só a falta mesmo é a candidatura de Sisi, o que é passível de ocorrer esta semana.

Se Sisi concorrer, possivelmente terá uma vitória esmagadora. A principal força de oposição e que levou as últimas eleições (tantas as parlamentares como presidenciais), a Irmandade Muçulmana, está sob ataque e proibida de concorrer. Morsi está sendo processado num julgamento-espetáculo. No mínimo 1000 apoiadores de Morsi foram mortos nas manifestações, outros milhares estão presos e a estrutura da Irmandade (casas, sedes, centros, mesquitas) foi atacada. Alguns golpistas mais moderados foram expurgados ou presos. Qualquer alternativa (isso inclui alternativas que não são necessariamente anti-Sisi como a Irmandade) está desmoralizada frente a popularidade esmagadora do general. Praticamente nenhum candidato se apresenta para concorrer contra Sisi – o único que declarou pretensão em fazê-lo foi Hamdeen Sabbahi, que ficou em terceiro nas últimas eleições. Outros dois possíveis candidatos, o ex primeiro ministro Ahmed Shafiq e o general aposentado Sami Anan, disseram que vão esperar para ver se Sisi irá concorrer. A renúncia do Ziad Bahaa el-Din do governo provisório talvez indicasse alguma pretensão do Partido Social Democrata no entanto o líder deste, Mohamed Alboghar, já disse que nenhum político liberal ou esquerdista proeminente irá concorrer nesta eleições. O Partido Nour, que ficou em segundo atrás da Irmandade nas eleições parlamentares, disse que não lançará candidato presidencial. Nenhum dos candidatos derrotados por Morsi declarou pretensão de participar nessas eleições.

Nada dos 51% que colocaram Morsi no poder, disse Refai Nasrallhah, um dos líderes da petição para que Sisi se candidate. “Nós esperamos que Sisi ganhe 90%”. A comemoração do aniversário da Revolução de 2011 (derrubada de Mubarak), na Praça Tahir, foi praticamente uma grande manifestação pro-Sisi, com seu rosto em todos os lugares e milhares de cartazes pedindo sua candidatura – para eles, o problema era Mubarak e Sisi não tem nada a ver com contrarrevolução.

 

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