Sobre o golpe no Egito

(Texto de 18 de Agosto de 2013; Revisado 20/01/2014)

Tenho acompanhado os acontecimentos no Egito através das agências de noticias RT (Russia Today), Al Jazeera e BBC, assim como as diversas reações das pessoas. Muitos estão chocados com o número de mortos massacrados pelo exército e constroem com base uma narrativa que mistifica os acontecimentos.

Vamos pensar mais além de “povo nas ruas”, a noção genérica de “povo” como uma entidade abstrata, ontologicamente boa, etc. De maneira grosseira, depois de uma série de manifestações derrubaram Hosni Mubarak (com apoio do exército), os islamistas da Irmandade Muçulmana, que participaram com força na derrubada de Mubarak, se saíram muito bem nas eleições (ganharam as quatro últimas) e elegeram um presidente, Mohamed Morsi. Apesar da eleição, milhares de manifestantes foram as ruas do Egito contra o seu governo, pedindo sua derrubada. Os militares atenderam esse pedido depois de um ultimato, retirando Morsi com um golpe militar. São diversas as razões da derrubada de Morsi, entre as possíveis e declaradas. Morsi teria “se desviado do curso da revolução”; Morsi, que recebeu muitos votos não-islamistas, era só um representante do Birô de Liderança da Irmandade; o Egito passou nesse curto período por uma degradação econômica, com um crescimento na inflação e no desemprego; não ocorreram reformas nos serviços de segurança; aumento das tensões religiosas e da violência por parte dos militantes da Irmandade; o presidente irritou o exército ao se posicionar em questões internacionais sem consultá-lo e teria colocado em risco a segurança nacional ao se guiar pelos objetivos internacionais da Irmandade Muçulmana (que é uma organização internacional); acusações de incompetência; Morsi não conseguiu estabelecer um equilíbrio com a oposição (sim, óbvio); e por último, de grande importância, de que Morsi estaria manchando a imagem do Egito no exterior ao torná-lo um “porto de terroristas” (questão preocupante para norte-americanos e israelenses, principalmente). De qualquer forma, fato é que os militares deram um golpe com o respaldo político da oposição e das manifestações populares, sob o auspício do Comandante-em-chefe das Forças Armadas, Abdeh Fatah el-Sisi. Depois disso, outras massas, as massas que apoiavam Morsi e as mobilizadas pela Irmandade Muçulmana foram vão as ruas enfrentar o golpe militar, sofrendo a repressão etc etc.

Sobre o golpe militar, considerasse:
- O exército egípcio é muito ligado aos Estados Unidos da América devido a programas de cooperação militar que incluem largas somas de dinheiro. O exército recebe uma ajuda anual de 1,3 bilhões do pentágono.
- A intervenção militar serve para enquadrar a agitação popular no Egito como um todo, assumir o controle do processo, e não somente para deter a poderosa Irmandade Muçulmana.

O exército egípcio vem reprimindo duramente as manifestações pro-Morsi lideradas pela Irmandade, atirando contra manifestantes e fazendo massacres individuais. Na terça-feira foram mortos pelo menos 525 (43 deles policiais) e mais de 3.000 feridos nos conflitos. Nos dias seguintes houve uma escalada de violência devido o recrudescimento da repressão e a revolta popular frente o massacre. Na sexta feira, segundo o governo, morreram 173 pessoas. Segundo o Ministério do Interior foram presos 1,004 elementos da Irmandade Muçulmana. Falam-se de número na altura dos 4,500 mortos (endossados pela Irmandade Muçulmana). O uso de força letal foi autorizado depois que passaram a incendiar prédios governamentais e a justificativa oficial é a de enfrentar o terrorismo. Pelo menos 250 membros da Irmandade Muçulmana estão sendo processados com acusações como assassinato e terrorismo. Pela manhã um comentarista egípcio na RT lembrou dos ataques da Irmandade Muçulmana nos últimos meses (que também “atiram contra civis”) assim como reportam-se tiroteios entre forças do governo e islamistas. Além das imagens de islamistas reprimidos, mostraram cristãos feridos que teriam sido agredidos por esses mesmos islamistas. De fato, igrejas vem sendo atacadas, saqueadas e queimadas por radicais (52 igrejas queimadas até então). A Irmandade Muçulmana, por sua vez, se defende dizendo que ela organiza protestos pacíficos mas que no entanto é difícil controlar manifestações de fúria espontânea frente a repressão. O grupo também nega as acusações de estar por trás do uso de força armada contra o governo (ataques a postos policiais) e das queimas de igrejas, atribuindo estas ações ao grupo radical Jemaah Islamiyah (ou Al-Gama’a al-Islamiyya , “Congregação Islâmica”, não confundir com o grupo indonésio de mesmo nome).

A posição do exército é a linha dura. No que concerne a Irmandade, querem retornar a Mubarak: proibição, clandestinidade. Sisi nomeu 25 governadores de província para lidar com o problema, sendo 19 deles generais; foi declarada lei marcial. Querem suprimir a Irmandade, resolver “na base da porrada”. O problema é que a sociedade egípcia está muito dividida e os islamistas contam com alta popularidade. A posição inflexível do exército (que não cogita uma negociação), esperando que a Irmandade Muçulmana simplesmente se retire, só vai gerar mais banho de sangue. Alguns liberais, nasseristas e progressistas geralmente dominados pelo medo da Irmandade, apoiam o golpe (inclusive manifestantes da Irmandade são hostilizados por contra-manifestantes e bairros que “apoiam” o regime se mantém calmos). Ebtesam Madbouly aponta que a divisão no Egito não é tão grande, sustentando que os apoiadores de Morsi não são uma maioria. A ativista lembra que muitas pessoas não participaram das eleições e que nem todo eleitor de Morsi é necessariamente “pro-Morsi”, “morsirista”, militante ou simpatizante da Irmandade Muçulmana. Mesmo assim, a influência dos islamistas é inegável e sem precedentes históricos. Se a estratégia governamental vem sendo a repressão sem limites, a Irmandade Muçulmana se esforça para desestabilizar e controlar Cairo, tomando as ruas, regulando o trânsito e se dirigindo contra prédios governamentais.

Agora, a grande dúvida que paira em nossas cabeças é o porque da “comunidade internacional” não condena Sisi pela morte de civis da mesma maneira que condena Assad pela morte de rebeldes armados. Nada de armas para a oposição, ameaças de intervenção, demonização de Sisi, “ataques cirúrgicos” com drones….? Neste ponto reside a chave para compreender as origens do golpe, basta olharmos para as forças internacionais que estão por trás do mesmo. Quem ganha com o golpe é a Arábia Saudita (que vem apoiando o processo, assim como outras monarquias do golfo, substituindo o Catar que apoiava Morsi), , Israel (que conseguiu um governo mais disposto a colaborar e desligado de alguns de seus inimigos históricos, isto é, Irmandade Muçulmana/Hamas) e obviamente os Estados Unidos. John Kerry, o secretário de estado norte-americano. John Kerry condenou a violência, mas estes são só lamentos, já que Obama estabeleceu que não vai retirar sua ajuda anual de 1,3 bilhões ao exército – o Pentágono e a OTAN se limitam a pedir “moderação” na repressão, porque o que querem já está garantido: um governo obediente e uma ponta de lança no Oriente-Médio.

Tudo isso nos lembra de como a realidade é contraditória e os Estados Unidos, de maneira inteligente, manipulam os desfechos a seu favor. Até pouco tempo muitos reclamavam dos olhos fechados de Washington para a violência da Irmandade Muçulmana, e Morsi enviava combatentes para a Síria para se juntar as forças anti-Assad, a mesmas apoiadas pelos Estados Unidos (e que são islamistas radicais).

É necessário evitar a tendência de “procurar as vítimas”. A política tem um caráter conflitivo, em detrimento da visão liberal que implica na dissolução dos conflitos fundamentais em prol da competição harmoniosa – mesmo quando essa visão é mais ou menos realizada depende da correlação de forças dentro daquela sociedade. Devemos pensar em duas forças em conflito, e guerra é guerra. Não estou justificando as repressões, fogo contra manifestantes, mas trazendo tona a natureza do conflito para aqueles que querem olhar para a situação egípcia. Milhões elegeram Morsi,  milhões protestaram contra ele e agora muitos pedem sua volta, assim como muitos apoiam o novo regime. Os que quiserem se guiar pelo discurso democrático frágil de “apoiar a maioria” só vão abraçar a confusão, até porque se trata de um confronto entre forças e posições.
ANEXO 1 (domingo 18 de Agosto):

Foram mortos pelo menos 32 prisioneiros no que seria um tentativa de fuga tendo um guarda como refém. Foram asfixiados dentro de um ônibus com gás lacrimogênio.

Sisi, emocionado, declarou em conferência com chefes militares que não haverá mais “auto-controle” no trato com “terroristas que querem destruir o Egito”. Na televisão estatal estava escrito “Egypt fights terrorism”.

Manifestante romperam barreira de segurança do entorno do Supremo Tribunal egípcio.

ANEXO 2 (terça-feira 20 de Agosto)

No dia 19 foram mortos 25 policiais numa emboscada provavelmente conduzida por militantes islamistas.

Foi preso um dos líderes da Irmandade Muçulmana no Egito, Mohamed Badie.

Informe-se:

http://rt.com/op-edge/egypt-violance-morsi-sisi-497/

http://english.alarabiya.net/en/News/middle-east/2013/08/18/State-media-Muslim-Brotherhood-supporters-face-murder-terrorism-probe-.html

http://rt.com/op-edge/egypt-protests-terror-muslim-brotherhood-526/

http://www.foxnews.com/world/2013/08/15/muslim-brotherhood-vows-more-protests-after-day-of-bloodshed/

http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-23744435

http://www.examiner.com/article/terror-egypt-by-muslim-brotherhood-anger-not-reported-western-nations

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